Castelo de Lata

Castelo de Lata

A saga dos nômades irlandeses

No mundo contemporâneo, somos bombardeados todos os dias e de várias formas por publicidade, demandas diversas, influência das redes sociais e suas (des)informações. Uma forma essencialmente neoliberal de pensar o mundo está tão enraizada em nossas mentes, que soa quase irreal pensar em um estilo de vida diametralmente oposto.

O diretor franco-irlandês Alexander Murphy, em Castelo de Lata, seu segundo longa documental, nos expõe a vida da família O´Reilly, que é composta por Pa, Lisa e seus dez filhos, nômades irlandeses (travellers) que vivem de forma isolada em um trailer metálico, o “castelo de lata” a que o título do longa-metragem faz referência. Confesso que já nas primeiras cenas associei aquele cenário ao título do célebre livro de Mark Fisher: “é mais fácil pensar no fim do mundo do que viver desta maneira”, o que denota, por certo, o quão embebido eu estou da racionalidade neoliberal. 

Inicialmente, é necessário afirmar que os nômades (travellers) são um grupo etnocultural irlandês, que sofre, historicamente com a marginalização ocasionada seja pelo restante da população, bem como do próprio Estado irlandês, que por inúmeras vezes lança mão de políticas públicas que desrespeitam sua forma de viver. Em pesquisa realizada no ano de 2017, para a Comissão Irlandesa de Direitos Humanos e Igualdade, concluiu-se que os Travellers têm probabilidade quase dez vezes maior de sofrer discriminação do que cidadãos irlandeses brancos sedentários. Outro dado chama atenção: o índice de suicídio entre os nômades irlandeses é seis vezes maior do que a da população em geral. 

 O acompanhamento de tão perto daquela família mostra o grau de intimidade e confiança que o diretor teve que conquistar de todos os familiares retratados, algo que foi obtido durante aproximadamente cinco anos de captação das imagens. Os registros de Murphy capturam situações muito particulares e privadas e, por isso, trazem tanta verdade e crueza na retratação dos dilemas dos O´Reilly.

Em relação a estas questões familiares, o que chama mais atenção advém da plena convicção (e orgulho) de que o patriarca, Pa, tem de viver daquela forma afastada (tanto que rejeita expressamente a ida da família para conjuntos habitacionais) e o fato de submeter a todos da sua família àquele estilo de vida longe do convívio de uma comunidade, de educação formal e até mesmo de coisas que podem parecer banais mas que naquela realidade soam como um luxo, por exemplo, o uso de interruptores para acender a luz elétrica.

Desta feita, Murphy é muito hábil em apresentar sem qualquer juízo moral, aquele dia a dia que, materialmente, é muito curto, pois até mesmo o trailer sofre de severos danos estruturais, mas que, do ponto de vista afetivo, é absolutamente rico, com os laços entre pais e filhos e entre os irmãos bastante fortes, que geram cenas muito emocionantes. Ali, eles tem a si próprios, tanto nas dificuldades quanto nos sucessos quotidianos, o que por certo fortalece a união sempre marcada pela simplicidade, pela singeleza e por buscar a alegria em situações aparentemente simples.

O diretor trabalha de forma competente com a dualidade entre o “aperto” de todas aquelas pessoas em um pequeno trailer de metal, mas que quando exploram o entorno do veículo, se valem da imensidão dos campos e podem conhecê-lo de forma plena e liberta. Alexander Murphy vale-se de certos contrapontos, que são úteis a uma reflexão do espectador, como por exemplo, esta “idealização” de algo banal como o mencionado uso de um interruptor, mas a possibilidade enriquecedora de vagar pela natureza de forma plena, algo que a maioria das crianças de suas idades é tolhida, por viverem em grandes cidades. 

Aproveitando-se de uma situação ocorrida durante as filmagens do longa-metragem, em que Pa O´Reilly é preso, Alexander Murphy traz outro interessantíssimo contraponto: entre aquela opção pessoal do pai em ser nômade e a liberdade que dela adviria, mas também que aquela liberdade não é total, que Pa também se submete às leis locais e que, por isso, acaba por ser punido de forma muito penosa: o cárcere. É curioso notar que o filme não se detém a trazer maiores detalhes em relação ao motivo que gerou a prisão, pois seu enfoque é nos efeitos deletérios daquilo.

Durante os meses em que o patriarca longe de sua família, Lisa passa a encarar vários desafios no que concerne a manutenção de sua família, sempre diante do peso de poderem ser removidos de onde moram. Nesse contexto, o primogênito do casal assume o papel que o pai deixou vago, tendo maior protagonismo na coordenação das atividades que servem para manter aquele “o castelo de lata”,  e a própria família, como os cuidados com os animais e etc. Com o escoar do tempo, ele passa a refletir sobre aquela realidade (principalmente as suas limitações) e pensar em seguir o seu próprio caminho; o casamento é a “estratégia” mais palpável. 

Após a soltura de Pa, há uma importante cena entre pai e filho que evidencia de forma acurada a diferença geracional: Pa faz referências a ensinamentos que recebeu do seu próprio pai e reflete acerca do que teria ensinado ao filho, demonstrando que, a despeito de uma influência menor “do mundo externo e suas tecnologias”, há coisas que não podem ser suprimidas, como por exemplo, a personalidade de cada um(a). Ainda que sejam parte de uma comunidade maior na Irlanda, os O´Reilly parecem estar à margem até mesmo deste grupo, razão pela qual não há qualquer relação mais próxima deles com outros Travellers. 

 Em não sendo atores profissionais, cumpre também destacar a forma bastante fluida e desembaraçada com que os O´Reilly se relacionam com a câmera, por muitas vezes tão próxima. O uso do som, sobretudo os captados da natureza (barulhos de vento, dos animais) ajudam o espectador a inserir-se naquele contexto peculiar. 

  Assim, sem vitimizar ou incensar os personagens, Alexander Murphy realiza um filme demasiadamente humano, a partir de um contexto nada convencional, que faz o espectador pensar que existe um mar de possibilidades para se viver e que elas são válidas, principalmente, se nelas o amor, a fraternidade e a felicidade estão presentes como no Castelo da família O´Reilly.

Author

  • Eduardo Gouveia

    O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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