Onde Eu Começo? | 2026

Onde Eu Começo? | 2026

Talvez um dos maiores privilégios daqueles que detêm os instrumentos do fazer cinematográfico seja a possibilidade de extravasar memórias, sentimentos e sensações para transformá-los em imagem em movimento. O cinema também é uma forma de guardar as histórias que não cabem dentro de nós – embora poucos tenham o direito a essa eternização. 

Tamanha é a preciosidade de tais histórias transformadas que elas parecem precisar justificar, por si sós, seus propósitos e os motivos pelos quais merecem as telas. O cinema é sagrado. Para pertencer a ele, as credenciais precisam ser provadas. Mayana Neiva, atriz, cantora e diretora do curta Onde Eu Começo?, é muito honesta a respeito de suas incertezas desde o título. Ao desejar intensamente homenagear a figura do avô, munida de um acervo imagético familiar riquíssimo, ela constrói um filme que é o próprio processo de entendimento do lugar que precisa ocupar na sétima arte. Em suas reflexões, encontra em si o fio condutor que conecta essa memória ao mundo – a obra não é um fim, mas um caminho para responder à própria pergunta: por onde deve começar? 

Para começar, após viver por muitos anos em Nova York, a diretora refaz a curva do tempo e regressa às origens, voltando o olhar ao sertão paraibano e à história de superação dos avós – da miséria, eles passaram a administrar a famosa “Foto Neiva”. O avô, um homem sem estudos formais, aprendeu o ofício por conta própria, tornando-se um dos poucos na época a registrar fotos familiares e retratos, razão pela qual era amplamente procurado na região. Para além da trajetória profissional, interessa a Mayana Neiva sobretudo a relação dos dois, que viveram juntos por mais de 60 anos em mútua devoção. 

Em que pese falar sobre o avô – em suas palavras, a ancestralidade masculina examinada por meio do curta -, Onde Eu Começo? é uma obra absolutamente feminina. A diretora não almeja apenas prestar homenagens e demonstrar seu grande amor ou a saudade que a habita. Através do homem que a antecedeu, ela busca compreender seu lugar como mulher no mundo. Reflete sobre os amores superficiais da contemporaneidade ao contrapô-los à relação dos avós, questionando os próprios relacionamentos e o seu envelhecer. Em seu processo fílmico, com veneração, coloca quase como propósito de vida alcançar algo minimamente próximo ao que foi vivido por seus ancestrais. 

Onde Eu Começo?, tal qual a memória, é estruturado em cortes dinâmicos, porém pacientes, que costuram poeticamente esse resgate e a autoanálise da cineasta por meio de fotografias e vídeos feitos pelo avô, entre arquivos caseiros e registros profissionais. Sob a consultoria artística de Susanna Lira, Neiva conduz o filme com delicadeza ao experimentar a sobreposição e a alternância de imagens, modelando um quebra-cabeça que, embora rítmico em seus avanços e recuos temporais, mantém-se sempre muito coeso. 

Onde Eu Começo? é uma experiência muito bonita de autocompreensão a partir do olhar do outro – não qualquer outro, mas aquele que dá origem, que faz nascer, que é parte indissociável do eu. Ao encarar as lentes de seu ancestral para decifrar a si mesma, Mayana Neiva constrói um ensaio, sobretudo, sobre o tempo e o amor. A diretora não responde necessariamente à pergunta que batiza a obra, mas seu filme indica que começar é um processo eterno de retorno às origens, um olhar para trás para, por fim, compreender para onde se vai.

Nota:

★★★★★

Author

  • Natália Bocanera

    Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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