Leite em Pó | 2026
Diante de uma perda familiar e da precariedade financeira, Vicente (Vinicius de Oliveira) toma decisões morais e até criminalmente questionáveis, a ponto de indagar: “você acha que eu sou uma pessoa ruim?”. A quais indignidades o ser humano pode se sujeitar em momentos de desespero? E quais são os caminhos existentes quando nos damos conta de que elas podem perdurar por toda a vida?
A morte da avó do protagonista, com quem ele vivia, é o mote dos conflitos financeiros e emocionais de Leite em Pó. As circunstâncias desse falecimento, reveladas por meio de um diário misterioso, abrem um portal de (auto)descobertas sobre o passado ancestral da mulher cuja história ele julgava conhecer, um enredo de sofrimento, violência doméstica e sexual, além de sonhos interrompidos que se conectam diretamente com as heranças da Segunda Guerra Mundial no Brasil – mais especificamente na cidade de Natal, que abrigou cerca de 50 mil soldados estadunidenses na época.
Dirigido por Carlos Segundo, Leite em Pó constrói uma atmosfera melancólica e de estranhezas. Elas visam representar a falta de perspectivas do protagonista, neto de um militar estadunidense que carrega em si a masculinidade herdada desse avô, enquanto trabalha como barman e se revela um músico medíocre com o sonho de viver de sua arte – o rock, que ele enxerga como música verdadeira, “música de homem”.
Com a morte da avó, Vicente toma duas decisões fundamentais. A primeira é não acionar a polícia, a ambulância ou o serviço funerário ao encontrar o corpo após o suicídio, no intuito de continuar recebendo a aposentadoria da idosa. A segunda é começar a trabalhar como vendedor de álbuns de formatura, um ofício displicente que o coloca em contato com pessoas cujas jornadas passam a transformá-lo. Inspirado por essas figuras e pelo manuscrito enigmático, de uma pessoa que se julga ruim, ele passa a buscar um heroísmo que o afaste da mediocridade e o redima de suas heranças malditas, ao mesmo tempo em que se aproxima novamente da memória da avó.
A referência ao leite em pó abre e fecha o filme de forma simbólica. Trata-se da bebida que a avó preparava para o neto e também daquela ingerida pela idosa antes de dar fim à própria vida. No encerramento, o leite em pó se materializa como a própria figura com quem Vicente se reconecta de modo indissociável – de uma maneira que esta que vos fala não revelará, para preservar a excentricidade e a singularidade buscadas pela obra.
Leite em Pó, aliás, carrega um humor ácido e mórbido bastante peculiar, que também se relaciona à ordinariedade de Vicente como indivíduo. O personagem carrega a imaturidade típica do homem criado pela avó, a masculinidade do roqueiro clássico falido – que quer ser músico, mas apresenta pouco talento – e o desespero financeiro manifestado no consumo de álcool e cigarro. A própria restrição de seu gosto musical (já que, na sua opinião, a única música de qualidade seria a “gringa”), assim como o seu masculismo, revelam-se toxicidades herdadas do avô, das quais ele gradativamente compreende que precisa se livrar.
O estudo desse curioso personagem se perde um pouco nas histórias paralelas que se formam ao seu redor. É interessante como as vidas registradas nos álbuns de formatura guardam sonhos ceifados que o remetem à avó; contudo, são conexões excessivamente superficiais para justificar a intimidade criada entre o vendedor e seus clientes, o que acaba soando artificial.
Há de se destacar, entretanto, a presença de Rejane Faria como uma arquiteta rica que adquire esse registro de memórias vendido por Vicente. Com uma elegância monumental, é um deleite apreciá-la dominar a tela nos poucos momentos em que aparece como uma mulher negra que o protagonista supõe não ter dinheiro para comprar o produto – uma subversão imagética e histórica que se revela sempre pertinente no cinema.
A própria transformação do personagem também soa um pouco confusa. O heroísmo que ele assume não parece se encaixar, em que pese o ótimo trabalho de Vinicius de Oliveira ao equilibrar a melancolia e a dureza do protagonista com o esforço em prol da mudança.
De fato, ao trazer ao espectador imagens das gravações da infância de Vicente, Leite em Pó se consolida como analítico das heranças e dos vínculos geracionais infaustos que nos situam entre aquilo que fomos e aquilo em que inevitavelmente nos tornamos pelas circunstâncias, transformando um protagonista trivial em um improvável agente de ruptura desses ciclos e carmas.
