O limbo da ausência e o cinema como luta: uma conversa com Paz Encina

O limbo da ausência e o cinema como luta: uma conversa com Paz Encina

A memória humana não é perfeitamente confiável: a mente guarda traumaticamente certos episódios para tornar o presente suportável. No entanto, nossas memórias estão indissociavelmente entrelaçadas às histórias daqueles que nos cercam. Quando a vida é violentamente arrancada — quando o corpo desaparece sob o peso e a brutalidade das ditaduras latino-americanas —, instala-se um limbo temporal e existencial, onde faltam peças para compor as histórias que vamos lembrar. É nesse território de busca dolorosa e vestígios que se insere a obra da cineasta paraguaia Paz Encina.

Homenageada pela 20ª Mostra CineBH por sua contribuição fundamental à linguagem e ao pensamento do cinema latino-americano, Encina constrói um trabalho de resistência e afirmação de identidade. Na fronteira entre Brasil e Paraguai, irmanada onde os idiomas se cruzam, a cineasta nos lembra de que resgatar a história é um exercício vivo de imaginação e uma ferramenta inegociável de luta anticolonial e de sustentação da memória política.

Confira a seguir a entrevista realizada durante a 20ª Mostra CineBH:

Natália Bocanera: Muito embora seja composta por países muito distintos, a América Latina é um todo no histórico e na luta anticolonial, e o propósito da Mostra CineBH, de algum modo, é conscientizar essa união através do cinema. Quais seriam os pontos de intersecção desses cinemas latino-americanos e principalmente, do cinema brasileiro e paraguaio?

Paz Encina: Brasil e Paraguai por um lado tem uma fronteira, de modo que há toda uma região na qual Brasil e Paraguai estão muito irmanadas. De fato, ocorre algo muito curioso nessa fronteira: a gente fala guarani e passa do guarani ao português, não passa pelo espanhol. E isso sinto que é um caminho de triunfo ante o colonialismo, o que me chama muito a atenção. Eu acho que em ambos os países, se bem que o Brasil é muito maior que o Paraguai, tem um poder muito mais forte que o Paraguai, têm uma identidade. A gente vê um cinema brasileiro e em seguida o sente, há diretores brasileiros que admiro e de repente sinto que conheço o que estão me contando. Isso me acontece. Acho que salvaguardarmos nossa identidade implica fazer o cinema que cremos. Acho que foi o caminho que já nos ensinou (Glauber) Rocha, que já nos ensinou (Fernando) Solanas, eles já nos disseram: este é o caminho. Nós estamos buscando e é o que herdamos, acho que temos que nos fazer donos dessa herança. Isso é o que creio.

Natália Bocanera: Que essa identidade seja um caminho de luta.

Paz Encina: Eu creio que é um caminho de luta porque é encontrar tua voz, encontrar teu olhar, encontrar tuas imagens, encontrar teus sons, que são os nossos. A França não tem nem essas paisagens, nem esses sons, nem essa forma de falar, assim como eu tenho um tom de voz, eu creio que o cinema tem um tom de voz. Creio que temos que encontrá-lo e preservá-lo.

Natália Bocanera: Em “Exercícios de Memória”, seu filme que assistimos na CineBH, você reconstitui a memória da existência do outro, que é a vítima direta da ditadura, através dos cacos de memória daqueles que tentam compreender e imaginar uma ocorrência não esclarecida. Queria que falasse um pouco sobre o que seriam esses exercícios de memória nesse sentido, a partir do ponto de vista das vítimas indiretas.

Paz Encina: As vítimas diretas há muitos anos lutam. Muitas igualmente das que ficaram vivas também ficaram muito anuladas. Pode ser que não, mas eu creio que as grandes vítimas são os familiares dos desaparecidos. Creio que ficam em um não tempo, em um limbo tão duro que a única coisa que querem é saber onde estão (os familiares). Eles querem encerrar um ciclo, saber onde estão. Eu nunca em minha vida estive frente à uma dor tão grande como essa. Nunca. Jamais. E isso me tocou em certo caminho doloroso, porque nunca em minha vida estive diante de uma coisa tão grande e tão abismal como ser familiar de um desaparecido.

Natália Bocanera: Quando assisti seu filme, eu não sei se você vai concordar comigo, mas eu tenho a impressão que através do filme você permite que essas pessoas reconstituam a memória que a vida não deu, para que tentem imaginar o que existe nesse limbo de desaparecimento. Foi a sua intenção permitir esse direito de reconstituição?

Paz Encina: Sim, para que voltem a fazer sua história. Pelo menos aqui, nesse espaço, que também não é um espaço, porque as imagens não tem um lugar certo e nem os sons tampouco, verdade? Estão em uma batalha cada vez que buscamos. Mas eu sinto que cada vez que essa película encontra um lugar, eles também estão juntos. E eu sei que essa película não vai acalmar a dor. Queria que através dela alguém diga onde está o que buscam, o que querem encontrar. Eu creio que vai aparecer. Mas se não pude dar-lhes o que querem, ao menos lhes dou isso (o filme).

Natália Bocanera: Sinto que você causa uma contradição proposital entre a narração dos filhos do desaparecido, e a imagem, que nem sempre está diretamente associada ao que ouvimos. É quase como se você nos desafiasse a entender qual memória estamos construindo com o filme – a imagética ou a sonora. Gostaria que falasse um pouco sobre essa construção.

Paz Encina: Existe essa tensão em que ficam os familiares desaparecidos, que está entre essa memória. Elas, quando me falam de sua infância, estavam tão felizes, havia tanto amor, viveram tantas coisas tão preciosas. E por outro lado está todo o demais. Então, eu creio que fica uma vida “em tensão”, e quando te digo “em tensão” te digo entre um lugar e outro. É um não lugar.  E é um pouco também essa tensão entre a beleza do que foi uma infância, uma infância como qualquer criança – não como qualquer criança, verdade – mas tiveram uma infância. E por outro lado, uma desaparição, uma perseguição constante, onde o limbo está. Creio que essa tensão entre uma coisa e outra é a que eles ficaram.

Natália Bocanera: Para finalizar, queria que falasse um pouco sobre a importância de realizar um cinema político em nossos tempos.

Paz Encina: Nossas democracias nunca estão garantidas. Já sabemos. O Brasil já passou por Bolsonaro, Argentina está passando por Milei, ou seja, sabemos que nossas democracias não estão garantidas. Eu creio que nunca podemos parar de estarmos atentos. Na medida que se relaxa, a direita está aí.

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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