O Outro Lado das Redes | 2026
Muito embora a palavra “pós” carregue em si o significado de algo que vem ou acontece posteriormente a outra coisa, ela pode imprimir, também, uma ideia de evolução. Por exemplo, na medicina, o “pós-operatório” existe para a recuperação e expectativa de melhora de um quadro de saúde. Na pós-graduação, estima-se o aprimoramento dos estudos, a especialização – novamente, um indicativo de progresso, de desenvolvimento. No entanto, a humanidade alcança um ponto em que o prefixo vem representando mais fortemente o exato oposto de seu sentido mais usual: um juízo de valor negativo em relação ao conceito que acompanha, ou, mais precisamente, um sintoma de involução – a pós-verdade, a pós-democracia, a pós-racionalidade. O retrocesso foi assumido.
Em nosso caso, a involução foi trazida, paradoxalmente, pela própria evolução: a tecnológica. A democratização do acesso à internet e a emergência do mundo paralelo das redes surgiram como uma faca de dois gumes. Para além de promover o encontro e a socialização, esses ambientes passaram a substituir os meios convencionais de comunicação, viabilizando a expressão fácil, rápida e impensada de opiniões. Tornaram-se, assim, terreno fértil para a desinformação, regidos por um único objetivo do qual somos vítimas e presas facílimas: a manutenção do engajamento contínuo como estratégia de lucratividade. As redes sociais se converteram na principal engrenagem do capitalismo contemporâneo — e estamos quimicamente viciados nelas e na dopamina sem esforço que nos proporcionam.
O Outro Lado das Redes, novo filme de Aaron Sorkin (roteirista de A Rede Social, de 2010), assume a forma do cinema de investigação jornalística para reconstituir as denúncias de Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), repórter do The Wall Street Journal. O filme expõe as pesquisas internas ocultadas pelo Facebook (atual Meta) sobre a toxicidade de seus algoritmos, revelando uma influência política extremista não apenas tolerada, mas deliberadamente canalizada para fomentar o discurso de ódio.
Tais revelações só foram possíveis graças à colaboração da engenheira Frances Haugen (Mikey Madison), ex-funcionária da big tech que se recusou a calar perante o cenário desastroso a que assistia internamente: a plena consciência da corporação de que publicações capazes de inflamar a raiva geram maior engajamento — e, exatamente por isso, são estimuladas.
Sorkin faz de seus protagonistas – o jornalista investigativo avesso às tecnologias e a jovem engenheira entusiasta de seu trabalho – opostos que não apenas se unem em prol de uma causa comum, mas por meio dos quais explora-se o choque entre os mundos pré e pós-redes sociais. Horwitz é um homem jovem, porém analógico e anacrônico, alheio ao universo digital – o que se evidencia, com humor, pelo fato de não saber utilizar aplicativos de navegação como Google Maps e Waze. Haugen, por outro lado, é a típica profissional de tecnologia que abraça a missão da empresa com dedicação, até se deparar com um caso próximo de radicalização política concreta fomentada pelas escolhas da própria empregadora.
O Outro Lado das Redes constitui-se uma denúncia-homenagem. Trata-se, em primeiro lugar, de uma denúncia das engrenagens que impulsionam os rumos obscuros de nosso tempo, diante da polarização cada vez mais radicalizada e pela ausência de racionalidade política. Por segundo, é uma homenagem ao jornalismo comprometido – profissão hoje sob ameaça -, bem como à tradição do cinema de investigação jornalística. Sua referência a clássicos como O Informante, de Michael Mann, é notória e chega a se explicitar no próprio roteiro, evocando o caso em que a imprensa trouxe à luz os malefícios do tabaco, ocultados pela indústria por décadas.
Embora se inspire e celebre, Sorkin passa distante da tensão característica dos filmes a que faz referência. Por essa razão, talvez caiba denominar O Outro Lado das Redes de denúncia inócua. Em que pese a gravidade gritante dos fatos apurados e veiculados, percebe-se, a uma, que seus personagens não correm grandes riscos ao expô-los, ainda que a direção se esforce para criar uma atmosfera que transita pelo conspiratório – e, a duas, que o escândalo imputado à big tech já é amplamente sabido, assimilado e revelou-se ineficaz para provocar transformações. O anacronismo se faz presente também nesse aspecto, uma vez que o filme parece concebido para um tempo que não o nosso: uma época em que o mundo já experimenta as consequências dos males denunciados.
É possível dizer que a ausência do efeito de choque ou do inconformismo almejado pelo filme seja fruto de nossos tempos desesperançosos. No entanto, a opção do roteiro por construir um Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) inicialmente vilanesco, mas que encontra espaço para a redenção ao fazer a “coisa certa” – suspender o perfil de Donald Trump após a invasão do Capitólio em janeiro de 2021, após permitir a incitação à violência que deu início ao episódio -, atenua sobremaneira a responsabilidade da corporação escancarada pela própria investigação.
Sorkin estabelece diversas linhas temporais concomitantes, e que ocorrem no intervalo entre 2020 e 2022. Elas transcorrem em velocidades distintas: enquanto a narrativa da dupla Haugen-Horwitz avança em saltos, o arco de Zuckerberg parece estagnar em um único evento, qual seja, a sua preparação para o depoimento perante o Senado. Isoladamente, essas linhas funcionam; contudo, quando o diretor tenta articular o clímax por meio da montagem paralela, a impressão de simultaneidade prejudica a construção da tensão, visto que a dilatação de uma linha temporal discrepa da aceleração da outra.
Mesmo a introdução de O Outro Lado das Redes, um momento promissor em que uma mulher branca embriagada é abordada por dois policiais negros e filma a cena sob a alegação de “racismo reverso”, fica comprometida pela falta de sustentação da tensão. Esse início, munido de recursos temáticos suficientes para instaurar uma atmosfera mais grave, é aplacado pela inserção de um humor decorrente da estranha dinâmica entre os dois agentes de hierarquias distintas. A cada orientação dada à mulher racista, os policiais são precisam descrever em voz alta o que o espectador acaba de ver e a verbalizar os próximos passos da abordagem, um didatismo que finda por apequenar os próprios personagens.
Esse excesso de didatismo é um caminho que O Outro Lado das Redes assume por razões que compreendemos ao longo de sua narrativa: a necessidade de democratizar e conferir acessibilidade à sua mensagem-denúncia. E, de fato, importa que nós, pessoas aprisionadas ao ecossistema digital, adquiramos consciência daquilo que se desenha como a ruína de nossa sociedade. A sensação que resta, entretanto, é a de um dever cumprido pelos personagens por mero formalismo cívico: sem consequências, sem mudanças concretas, sem resultados. O pós-denúncia revela-se, assim, ainda mais assombroso.
