“Santo” e o amor nos tempos do apocalipse | 2026
Esse é um breve comentário sobre Santo, dirigido por Maria Luisa Alves e que conquistou o prêmio de melhor curta-metragem na mostra Première Brasil do Festival do Rio, mas também é, quiçá, uma reflexão pessoal sobre um tema que vem aparecendo muito recorrentemente nos filmes, principalmente brasileiros, assistidos durante a cobertura do festival carioca – o apocalipse, o extremismo religioso e tudo o que há após o prenúncio de algum fim.
Santo é estrelado por Pedro Tófani e João Pedro Mariano, que interpretam, respectivamente, Yuri e Davi, dois entregadores conectados por algo entre o acaso e o destino: realizam, em suas bicicletas, suas entregas para o mesmo destinatário no mesmo momento, para, logo em seguida, enlaçarem-se por um acidente de trânsito – Davi é atropelado por um veículo e é socorrido por Yuri.
Os dois não poderiam ser mais distintos e opostos. Enquanto Yuri é um jovem descontraído de cabelo descolorido, que carrega em si uma leveza atraente, Davi é um evangélico que distribui folhetos sobre o fim dos tempos, proclamando, com uma densidade muito própria, o amor de Jesus às pessoas que encontra. O apocalipse anunciado por Davi é próximo – segundo ele, acontecerá em dois dias do tempo fílmico.
Se há natural magnetismo e atração entre eles, há, por outro lado, uma linha divisória imposta pela religião que os separa – afinal, o evangelismo em questão não permite relações homoafetivas. Se Yuri assume sem rodeios aquilo que claramente os envolve, Davi vai rechaçar o sentimento, muito embora mantenha-se próximo. Santo, através de uma atmosfera calorosa e onírica, impressa na fotografia que concede ao curta um aspecto de memória, decorrerá nesse período de dois dias entre o encontro e a chegada do dia apocalíptico anunciado – esse que até nos esquecemos, diante do engajamento com a relação.
Quando o fim de algo é factível, o quanto estamos abertos para o novo? Em Santo, o apocalipse chega concretamente – com direito a céu vermelho e nuvens da mesma cor que avançam – mas também aparece como alívio, porque traz a urgência de viver aquilo que as fronteiras, que as regras, que os extremos introjetados impedem. No final das contas, a fé de Davi pode até ser genuína em termos de espiritualidade e crença para além da instituição religiosa e se manifesta, sobremaneira, como uma fé no amor.
Em Elza, a mulher do fim do mundo existe após seu próprio apocalipse para nos guiar pela mão por entre os inúmeros apocalipses de nossos tempos – político, social, religioso, tecnológico, ecológico. Em Your Mother, Your Mother, Your Mother, o extremismo religioso é confrontado pela própria fé e – novamente – pelo amor. Em 144 – Apocalipse Não a fé a ser renovada após o fim é a fé na arte. Fato é que, ao que nos parece, viver o amor, como sentimento genuíno, puro e inerente ao ser humano, é um conceito que vem afrontando as regras das instituições religiosas – e constatá-lo parece só ser possível durante o apocalipse.
