Cinco Tipos de Medo | 2025

Cinco Tipos de Medo | 2025

A incessante busca pela vingança 

A violência desperta interesse. Até mesmo os atos mais repulsivos são acompanhados, “consumidos” e geram certo fascínio pelo público. O medo acompanha a violência. A sensação gerada pelo temor faz com que boa parte da população aceite qualquer estratégia que, ao menos simbolicamente, se coloque como sendo capaz de obliterar “as causas” da violência. Assim, a busca pela vingança pode ser sedutora em cenário de descrença nos meios formais de resolução de conflitos.

Em Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, tem-se uma teia de narrativas, à primeira vista independentes, formando um panorama que, paulatinamente, vai se conectando, montando, a partir de cinco fragmentos (irmanados pela presença da violência e do medo), o quadro completo ao final. Cada uma dessas partes representa um personagem de destaque, cuja subtrama alude a um rio que deságua em algo maior, no que se pode relacionar a filmes como Crash – No Limite(2004).

Como não são poucas as subtramas , percebe-se que elas não são desenvolvidas de forma vigorosa, muito pelas limitações de tempo, estando os acontecimentos postos quase sempre de forma açodada, sem um aprofundamento adequado.

É assim que Marlene (Bella Campos), profissional da saúde na época da pandemia de COVID, se apaixona por um ex-paciente chamado Murilo (João Vitor Silva) e, apenas após longo período, encontram-se inadvertidamente em uma farmácia e ali já marcam um date e iniciam o relacionamento. Contudo, ela é namorada de Sapinho (Xamã), criminoso da região, cuja atuação ilícita reverbera nas ações de Luciana (Barbara Colen), uma capitã da polícia militar, e do advogado Ivan (Rui Diaz).

Para além de serem muitas histórias, apenas pedaços são contados por vez, fazendo com que sejam exibidas a conta-gotas, em idas e vindas. Se individualmente possuem “pouco estofo”, o mesmo não se pode falar da forma com que são concatenadas: as cenas de ação e as pistas que o espectador passa a ter geram curiosidade e excitação para saber como os fatos ocorreram, já que temos apenas peças, mostrando claramente a incompletude do todo.

Na cena em que isto mais se anuncia, Murilo está no meio de um tiroteio com Sapinho e seus comparsas quando atira várias vezes a esmo e, logo após, percebe que seus opositores estão mortos. Ora, não sendo de se esperar que seus tiros os acertassem, claro está que ocorreu algo para além do que se viu. E é nestes pontos, já se dirigindo ao fim do filme, que o sucesso da direção e montagem do longa-metragem em tornar este encaixe final assertivo e fluido fica mais claro.

Cinco Tipos de Medo foi o vencedor do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado em 2025 e muito se incensou na mídia o fato de o vencedor ter sido um filme do Mato Grosso. É motivo de alegria ver que tal reconhecimento foi dado a uma obra feita fora do eixo dos Estados mais conhecidos pela produção cinematográfica nacional. Todavia, vale destacar que o filme não possui qualquer toque regional, sendo sua trama situada em cenário urbano comum às grandes cidades brasileiras, sendo a alusão mais frontal à capital mato-grossense a referência expressa ao time de futebol mais conhecido do Estado, o Cuiabá Esporte Clube.

A vingança, que parece ser o grande fio condutor do longa-metragem, recorre não poucas vezes à plasticidade (e competente execução) das cenas de ação. Contudo, na medida em que as conexões entre as subtramas vão se tornando mais claras, as saídas encontradas pelo roteiro (que é assinado por Bruno Bini) soam, de certa forma, perigosas por naturalizar um mau funcionamento seja da polícia, seja da advocacia, a partir da lógica de que os “fins justificam os meios”, já que é fundamental que a vingança violenta se concretize no final.

Na medida em que quem assina este texto é um advogado criminalista, a atuação deste profissional aqui terá mais destaque.

A advocacia criminal, atualmente, tem sido vilipendiada na sociedade e tem sido alvo de movimentos que, em verdade, tentam criminalizá-la, sobretudo a partir da ideia de se querer identificar o cliente com o advogado ou de que a defesa criminal significa uma chancela irrestrita ao que o réu/investigado está sendo acusado de fazer. Isso ocorre ainda que, por mandamento constitucional, o advogado seja considerado indispensável para a administração da justiça e seja fundamental para o devido respeito de princípios muito caros à democracia, como o da ampla defesa e do contraditório.

A atuação do profissional da advocacia criminal, não raro, é alvo de incompreensões, principalmente porque é de sua natureza ser contramajoritário. É ele que, ao estar na defesa do mais débil da relação processual, visa servir de barreira ao enorme poder punitivo do Estado (que muitas vezes conta com o apoio midiático).

Assim sendo, parece no mínimo temerário que o personagem advogado em Cinco Tipos de Medo adote uma postura absolutamente reprovável, qual seja, assumir a defesa criminal de uma pessoa com o único intuito de prejudicá-la e, ao fim, causar-lhe a morte. É a subversão completa da profissão (que possui múnus público). Neste ínterim, chega a entregar para o custodiado e dentro da casa penal um objeto para que ele utilize como arma, fortalecendo a ideia do advogado que age criminosamente e em conluio com o réu.

Em relação à personagem Luciana, tem-se que ela, guiada tão somente por sua consciência, a partir da percepção de que fez a prisão da pessoa errada, entra na penitenciária em meio a um motim e, por conta própria, solta aquele que foi injustiçado, entregando-lhe dentro da cela uma foto dele com sua amada e posteriormente retirando-o da penitenciária escondido na própria viatura policial, em uma cena marcada pela trilha sonora que pretende emocionar o espectador e, consequentemente, fazê-lo pensar que, se o “resultado desejado” foi alcançado, está tudo bem, a despeito de, em verdade, cristalizar uma postura tolerante a ilegalidades.

Como vivemos em uma quadra histórica em que o óbvio precisa ser dito, é necessário indicar que não se está querendo dizer que todos os profissionais da advocacia ou agentes de segurança atuem estritamente conforme os preceitos legais (o mesmo poderia se afirmar em relação a qualquer profissão); porém, o que chama atenção é a trama ser conduzida para um cenário que, ao mesmo tempo que fortalece alguns estigmas relativos a certas profissões, é condescendente com atos ilegais cometidos durante seus exercícios.

Desta feita, Cinco Tipos de Medo tem seu maior êxito em conectar de forma assertiva e dinâmica as cinco histórias trazidas, ainda que elas não tenham profundidade e sejam desenvolvidas de forma muito apressada. Contudo, o longa-metragem de Bruno Bini flerta com algo perigoso (principalmente na atualidade), que é a benevolência de tolerar (ou até mesmo concordar) com atuações repugnantes (principalmente) dos personagens que atuam no âmbito do poder punitivo estatal/sistema de justiça imunizando-as porque, ao fim, a violenta vingança foi alcançada.

Nota:

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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