Papagaios | 2025
Há, nos noticiários diários, uma morbidez onipresente que, de forma quase inconsciente, nos instiga simultaneamente à curiosidade e à repulsa. Essa dicotomia é apenas aparente, na medida em que operam, na manipulação dessa morbidez, o viés de negatividade, isto é, nossa capacidade de captar e reter com mais intensidade informações negativas do que positivas, bem como a possibilidade de experimentar, a partir do lugar seguro do observador, do voyeur, emoções mais intensas, como o medo e a indignação, intrinsecamente ligadas à ideia de perigo. Esse conjunto psicológico e cognitivo mantém não apenas o mecanismo do jornalismo sensacionalista em pleno funcionamento, mas também o jornalismo tradicional, que, em alguma medida, se alimenta dessa mesma nocividade.
Papagaios, dirigido por Douglas Soares e co-roteirizado em parceria com Humberto Carrão, mobiliza esse aparato lúgubre do noticiário televisivo para explorar um outro lado, igualmente sombrio, desse mesmo mecanismo. Não por acaso, o suspense se impõe como gênero para narrar a trajetória de Tunico (o ótimo Gero Camilo), um célebre “papagaio de pirata” do subúrbio do Rio de Janeiro que reconhece, na figura de Beto (Ruan Aguiar), jovem belo e enigmático, uma espécie de aprendiz destinado à continuidade de seu “ofício”.
O dito trabalho do chamado “papagaio de pirata” designa aquele que se insere no enquadramento alheio, geralmente atrás de quem está sendo filmado ou entrevistado, com o objetivo, estratégico ou não, de visibilidade. A imagem remete ao papagaio pousado no ombro do pirata, sempre presente, ainda que secundário, e se consolida como metáfora para aquele que busca aparecer sem ocupar, de fato, o centro da cena. Tunico, apelidado de “amigo dos repórteres”, ao ocupar esse posto há anos, tornou-se uma subcelebridade, o que lhe abriu espaço em programas como os conduzidos por Claudete Troiano e Babi.
A obsessão pela própria imagem reflete-se no comportamento e na caracterização de Tunico, cuja face visível aos holofotes constitui, de fato, um personagem: de terno sempre impecável, geralmente acinzentado, e com uma peruca castanha que remete de imediato ao apresentador Silvio Santos, a figura carrega uma expressão simultaneamente respeitosa e enigmática, um olhar fixo para a câmera e, portanto, para o espectador, além de um meio sorriso monalisiano.
Muito embora seja chamado de “amigo dos repórteres”, e ainda que carregue um carisma singular que o coloca como um homem político e cercado de relações, a composição de Gero Camilo incorpora à Tunico um desconforto constante. Seu fascínio metódico pela visibilidade, cuja profundidade se revela à medida que adentramos o interior de sua casa, carrega uma estranheza que o torna, em alguma medida, inquietante; ainda assim, somos atraídos por ele a partir de nossas próprias posições voyeurísticas. Tunico encarna, assim, o nosso lugar de espectadores inconscientemente ávidos por morbidez, já que o noticiário que o mobiliza é, em geral, o ao vivo, quase sempre vinculado ao negativo: mortes, enterros de figuras públicas, desgraças cotidianas.
Ainda que Tunico carregue em si um enigma e ocupe esse lugar perturbador, Douglas Soares introduz elementos que suscitam empatia por esse personagem. Trata-se de um homem de cerca de 60 anos, solitário, que vive com o papagaio Papo e revela uma fragilidade evidente quando despido de sua persona televisiva. Ao lado de Beto, ele parece perder a estratégia e ceder a uma dupla lógica: a da sucessão e a da companhia.
Se há enigma em Tunico, há em Beto um mistério ainda mais denso, que se manifesta em olhares de difícil decifração. O fato de termos acesso ao seu background em vantagem em relação a Tunico intensifica a tensão multifacetada que se estabelece entre eles. A relação de mestre e aprendiz assume também uma dimensão erótica, funcionando como resposta à solidão do “papagaio de pirata”. Ainda que o homoerotismo jamais se concretize de modo explícito, ele compõe a atmosfera inquietante de Papagaios, em consonância com os efeitos narrativos do vínculo progressivo entre os dois.
Douglas Soares é metódico e parcimonioso na condução ao clímax de Papagaios. Além do rigor nos enquadramentos, sobretudo pelo uso recorrente do espelho, que explicita a relação manipuladora e tóxica entre os personagens, a capitulação da obra, que se inicia com “rituais de caça”, orienta o espectador sem esvaziar a curiosidade que o filme propõe. Ainda que opere por meio da incógnita e de uma atmosfera assumidamente fúnebre, o diretor mantém certo didatismo na roteirização ao, por exemplo, se valer da participação de Claudete Troiano para introduzir perguntas condutoras como “vale fazer tudo para aparecer?” ou “você quer ser lembrado pelo que?”.
Por outro lado, os traços notadamente psicopáticos de Beto, somados ao que já conhecemos de sua capacidade, tornam a explicitação de uma rivalidade entre os personagens menos interessante do que a manutenção da opacidade. A partir desse ponto, Tunico passa a se comportar com uma inocência algo dissonante em relação ao grau de elaboração de sua persona, o que acaba por tornar certas manobras de roteiro excessivamente evidentes e, por isso, desconfortáveis.
Papagaios estabelece uma rede de relações – de caça e caçador, de pai e filho, de aprendiz e mestre, de imagem e representação, de atração e oposição – na qual os papéis se invertem e se confundem. O segundo e o terceiro capítulos, intitulados, respectivamente, “o verão no ninho” e “o plano de voo”, já anunciam esse movimento. Nesse jogo, Beto assume o lugar da ave que, atraída ao ninho, elabora sua própria estratégia de liberdade: desprende-se das gaiolas, aqui figuradas pela casa de Tunico, mas o faz segundo a mesma lógica mórbida que estrutura o noticiário, e, com as pitadas da psicopatia que lhe são características, fazem dele não apenas herdeiro de Tunico, mas o desdobramento mais radical e inquietante dessa engrenagem de visibilidade.
