Sagrado | 2026

Sagrado | 2026

De Buraco do Gazuza para Sagrado. A EMEB Sagrado Coração de Jesus, situada na cidade de Diadema, em São Paulo, que completou 30 anos em 2024, desde sua fundação até sua municipalização em 2009, carregava o nome de buraco em razão de sua localização no bairro do Gazuza: um espaço conhecido pela desova de corpos. A ressignificação da escola faz parte do processo de apropriação e empoderamento de sua importância pelo povo favelado, visão que a diretora Alice Riff imprime à Sagrado, documentário em exibição na Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens do É Tudo Verdade 2026, que celebra, sem romantização, a escola como um patrimônio popular e geracional, em que pesem as dificuldades individuais e coletivas.

O ponto de vista adotado é o dos trabalhadores, que fazem a escola acontecer. Professores, auxiliares administrativos, de manutenção, merendeiras, coordenadores e diretores, são os personagens que compõem Sagrado e se tornam responsáveis por nos aproximar do equilíbrio entre os desafios de seu gerenciamento e da gratificação proporcionada pelo trabalho educacional. A rotina de trabalho é intensa, pois o papel escolar extrapola os objetivos exclusivos do ensino para se tornar envolvimento nos problemas pessoais de alunos e pais, desde a alimentação, em consideração àqueles que fazem suas únicas refeições do dia no Sagrado, ao desempenho escolar prejudicado de muitos alunos negligenciados em seus contextos sociais e que estão abaixo da meta de alfabetização.

Alice Riff, provavelmente por questões éticas e de autorização do uso de imagens, nunca mostra os estudantes, muito embora tudo no documentário se mova ao redor deles. A diretora adota o modo observacional, permitindo que as relações entre os atores sociais durante o exercício de seus ofícios dite a narrativa. Das crianças, ouvimos vozes, vislumbramos relances e costas, e sentimos a calorosa presença, por vezes em conjunturas problemáticas, como um mau comportamento, noutras ocasiões em suas existências infantis naturais dentro da sala de aula.

Não há, como dito, qualquer romantização na abordagem de Sagrado. Não há receio em mostrar que os problemas que a escola enfrenta são graves, que há, apesar do esforço, falta de tato e falta de paciência dos profissionais nos momentos mais estressantes, demissões de cortar o coração e crianças muito atrasadas em seus aprendizados, alheias de conceitos básicos de escrita e matemática. A situação não é, de forma alguma, fácil, afinal, trata-se de uma escola pública. Entretanto, não ocultar o que há de mais desafiador é uma decisão que demonstra a faceta humanizada objetivada por Riff, pertinente com toda história de construção do bairro do Gazuza, cujas imagens históricas de ocupação durante a ditadura se intercalam com o panorama contemporâneo.

A trilha sonora de Sagrado aflora o sentimento comunitário que permeia o funcionamento da escola, atribuindo doçura e perseverança aos gestos e atos diários dos trabalhadores. É ela quem vai conectar, ainda, os significativos e belos início e fim do documentário. Se Riff faz uso da trilha sonora instrumental para dinamizar com sentimentos acolhedores a rotina laboral mostrada na introdução, dando expressividade, por exemplo, a cada abertura de sala de aula, a versão adaptada e regional de Eu só quero é ser feliz, de Cidinho e Doca, hino do funk brasileiro, traz à luz o propósito de empoderamento que antes mencionamos. O som, que aqui conta a história da comunidade, é cantado por um coro vibrante e empolgado de crianças que não vemos, mas cuja energia se revela através da professora que os acompanha: a cineasta mantém a câmera parada nessa figura cantante e dançante, estimulando orgulho e animação em seus alunos, mostrando, com uma simplicidade comovente, os motivos pelos quais se persiste todos os dias.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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