ENTREVISTA | Gilda Nomacce

ENTREVISTA | Gilda Nomacce

Mari Dertoni conversou com a atriz Gilda Nomacce, homenageada na Mostra Mestras do Macabro 2, realizada no CCBB no RJ, SP e Brasília

Entre seus últimos trabalhos estão Enterre Seus Mortos, de Marco Dutra e Prédio Vazio, de Rodrigo Aragão, além de já ter trabalhado diversas vezes com a cineasta Juliana Rojas. Confira:

Mari: Gilda você é uma atriz com bastante experiência no cinema de gênero, já fez muito trabalho para cinema, TV, teatro. Muito obrigada por gastar o seu tempo aqui nessa entrevista comigo, uma honra poder falar contigo. 

Você está sendo homenageada na Mostra Mestres do Macabro 2, a segunda edição da Mostra realizada no CCBB Rio e São Paulo. Então, como é que está sendo estar aqui dentro desse ambiente de mulheres, do cinema de horror e fazendo crescer a voz das mulheres dentro do cinema de horror através dessa mostra? 

Gilda: Oi, Mariana. Obrigada a você por abrir esse espaço. É muito bom que seja uma mulher abrindo o espaço para outra mulher que teve o espaço aberto por outra mulher, que é nossa curadora maravilhosa, a Beatriz Saldanha. E esse espaço, claro, falar o espaço do Rio de Janeiro, né? Chegando aqui no Rio de Janeiro primeiro, que é essa cidade maravilhosa, nesse espaço físico incrível, que é o CCBB.

É, são tantas camadas de maravilhosidades nesta Mostra, e eu hoje que sou a homenageada e que vou dar uma masterclass. Eu me senti realmente uma mestra do Macabro. 

Mari: Eu queria falar com você sobre essa sua relação com curtas-metragens. Você vai ser homenageada com quatro curtas, os quais você protagoniza e o curta é um formato que muitos diretores começam no cinema. Qual sua relação com curtas? Você curte fazer curtas até hoje?

Gilda: Acho que para além de ser um formato, é, que facilita você começar, claro, porque você para ter acesso à linguagem cinematográfica, você vai começar a experimentar dessa forma. Porém, não acho que o curta também seja só isso.

Eu gosto do exemplo da Juliana Rojas, que ela já tinha ido com o Trabalhar Cansa um longa-metragem no Un Certain Regard em Cannes. Mas ela quis fazer O Duplo, que é um curta porque era ali no curta que ela contaria aquela história.

Muitas vezes a gente faz um curta e depois quer fazer um longa dele. Isso acontece muito. Acontece das pessoas dizerem “nossa a gente imagina que vai ser um longa” e muitos diretores tem o projeto já do longa mas fazem um curta. Então o curta para mim, ele é para muito além de ser uma forma de se exercitar.

Eu amo muitos curtas, esses quatro que estão me homenageando. É um lugar onde você pode exercitar qualquer loucura, porque você não tem essa cobrança tão forte do sistema, né? de como você vai distribuir aquilo e onde vai… tudo aquilo que você, quanto mais.

Então, às vezes, você encontra uma situação tão genial ali e que você pode fazer com tão pouco, com tão pouca estrutura, mas com apaixonados, né? E o gênero horror é um ambiente onde as pessoas não são assim, simplesmente gostam. 

Mari: Você falou da Juliana Rojas, né? Eu vi que você já trabalhou bastante com ela em longas, no Duplo, que eu acho um curta sensacional também.

E ela já é uma diretora, mulher diretora de horror, que tem um nome já mais consagrado aqui no Brasil, né? No cinema de gênero. E eu vi que você trabalhou também com a Cíntia Domit Bittar.No curta que vai passar em sua homenagem. E ela também está com um longa na Mostra, o Virtuosas.

Gilda: Sim, ela é maravilhosa, também é uma roteirista maravilhosa, tem a produtora dela, ela faz nesse eixo de Florianópolis. Eu admiro a Cintia assim de uma maneira profunda. 

Acho O Segredo da Família Urso um primor,  forte, né? E quando ela fez, nem tinha tanta experiência, era bem jovem. Mas ela fez um filme com tanta contundência, com um assunto da ditadura, de uma forma tão incrível. Eu estava olhando a foto do destaque da Mostra, que tem um cigarro na minha boca, e é tanta beleza, a estética ali a linguagem, ela é incrível.

Mari:  Como é para você trabalhar com mulheres diretoras dentro ou fora do horror e qual a diferença você sente de trabalhar com diretora mulher ou diretor homem? Se você sente que hoje você está com uma oportunidade maior de trabalhar com mulheres do que antes? 

Gilda: Eu faço cinema há 20 anos. Então, comecei com uma dupla, né, que é a Juliana e o Marco. Mas de 20 anos para cá, o que mudou muito foi mulheres em lugares de poder.

Então, tinha as mulheres e esses espaços que estão sendo determinados, porque sim, olha a importância desta Mostra, olhar também em perspectiva do passado, porque quantas vezes a gente ficou fora das mostras. Eu sou a favor de tudo que privilegia mulheres. Então, neste sentido, cada vez que eu trabalho com uma mulher, eu fico muito feliz e eu me sinto muito fortalecida porque eu amo ver mulheres ocupando os seus espaços e os espaços que são para ser ocupados.

Na feitura, no olhar, é claro que é tem sim muitas diferenças, mas eu também, é não vou deixar de falar dos meus diretores que estão nos outros filmes. A questão é que sim, eu fico feliz, eu fico muito feliz quando o filme é uma equipe feminina e é dirigido por mulheres, é fotografado por mulheres, é uma direção de arte de mulheres. Quando isso tem acontecido muito, que é muito diferente de quando eu comecei, que tinham sim algumas mulheres, mas é, nossa, era tão diferente, é tão bom viver esse mundo hoje e ainda tá, né, mudando tanto.

Então, eu tenho essa alegria assim, de trabalhar com as mulheres, mas eu também amo trabalhar em todos os sets. Eu sinto também que cinema de horror é que quem faz é muito apaixonado.

Quando eu cheguei com a Beatriz Saldanha (curadora e idealizadora da Mostra Mostras do Macabro) e com o Breno Lira Gomes (Produtor da Mostra) que nós fomos almoçar sabe toda hora me dava vontade de chorar com as histórias, eu sei que a Beatriz quando ela tinha 5 anos ela já era uma fã do gênero, isso já pegava ela. O Breno, a relação dele com o Zé do Caixão, com o Mojica, é tão linda. Fiquei pensando: “Gente, eu quero dirigir um filme sobre essa história”.

Então, a beleza é também de estar numa Mostra como essa e ter esse olhar, essa perspectiva da mulher no gênero, é uma coisa duplamente mágica, porque assim, é tanta vontade de ter esse momento, porque quando você vem para uma Mostra, você tá em um lugar onde você vai conversar com pessoas que fazem todas as funções ali dentro, né?

Eu, por exemplo, eu sou uma atriz, é completamente diferente conversar comigo, do que conversar com a Bea Saldanha, que é uma gênia, que conhece tudo, que vai te colocar a história em perspectiva como ela colocou. Então, olha isso, você pegar uma pessoa que conhece tudo das mulheres dessa história que tantas vezes ficou escondida, que ficou menos vista. Colocar uma atriz como eu, brasileira que faz tanto terror e me homenagear, isso prova que o cinema de gênero tá com força e as mulheres também 

Mari: É como você falou, o fã de horror é um fã muito apaixonado. Quem faz cinema de horror e quem consome também, consome com com coração, assim, é fã de carteirinha, eu sou uma delas e então, assim, estamos aí juntas, amando o cinema de terror e prestigiando sempre que a gente puder.

Gilda, você é uma pessoa única, assim, essa atriz que representa tanto para o cinema de gênero, acho que todo mundo que curte terror te conhece e que quem não curte terror vai conhecer cada vez mais, porque o gênero tá chegando mais no cinema, no Oscar, em premiações grandes, premiações internacionais. Então, eu queria saber se você tem inspirações em outras rainhas do grito dentro do cinema e outras mulheres do horror? De onde você tira inspiração para fazer essas performances tão intensas? 

Gilda: Ah, eu tenho, né? Possessão, por exemplo, eu imitei muito. É, simplesmente fico ali vidrada e pensando: “Nossa, que maravilhosa, né?” E então, claro, os clássicos, né?

Mas eu acho que esse esse lugar que eu que eu trago do horror do cinema de gênero, primeiro que eu comecei no gênero, mas depois eu acho acho que de certa forma, a minha compleição, ela tem coisas que eu fiquei pensando que às vezes a gente não entende porque aquilo aconteceu, mas depois eu fisicamente, por exemplo, eu tenho uma grande arcada, eu fiz muita tragédia também.

A minha arcada, fisicamente, é uma abertura que é é que é isso. Cinema é o que registra, não é o que você tá fazendo, Eu acabei estudando com o Antunes Filho, que tinha uma uma técnica vocal e eu fazia aquelas tragédias. Então, desenvolvi esse lugar de gritar sem machucar a voz.

Meus olhos, eu tenho uma fotógrafa que falava: “Gilda, você não vai fazer publicidade porque seus olhos são atormentados”. Então, eu tenho olhos grandes que ficam conforme o que acontece e eles se desalinham, e isso, como acontece na vida, também acontece em cena. Então eu acho que de certa forma também eu tenho características.

Hoje eu vou falar muito isso na minha masterclass, não das minhas características físicas, obviamente, mas das características que eu tenho que se relacionam, porque no cinema de horror, como tudo é muito intenso, imagina se eu vou passar uma motosserra no rosto de alguém… Você tem que estar se divertindo muito, você não pode estar no mesmo lugar que aquilo que está acontecendo, senão aquilo vai ser muito pesado e é muito pelo contrário

Imagina com a Cíntia, aquele set que é todo escuro, tudo é sombrio, e tanto que nós nos divertimos, por quê? Porque ao contrário, você está fazendo uma coisa, aquilo está te divertindo, quando eu estou com uma faca, eu tenho total controle de saber que eu posso ir 2cm para lá, não posso ir 1cm para cá.

Se você tem uma cena que tacam sangue na minha cara, enfiam na minha boca, às vezes sem avisar. Eu fico de cabeça para baixo… Então eu acho que também como pessoa eu me adaptei muito. Eu adoro quando fazem um pedido assim absurdo. Eu adoro desafios. Então quando tem uma coisa assim, eu penso, quando às vezes eu sou convidada para fazer o filme, e aí eu fico pensando: como isso vai ser feito? É, será que isso vai ser perigoso e tal? Só que eu tenho vontade, eu tenho eu tenho uma alegria de pensar naquele desafio. Eu gosto desse jogo, né?

Então acho que também isso, essas características é, de intensidade, e do próprio grito. Eu desenvolvi hoje de gritos, porque como eu faço muitos filmes de terror, eu não vou ficar gritando sempre do mesmo ambiente, do mesmo lugar. Em casa, eu fico desenvolvendo gritos. Eu penso: “Ah, vou gritar mais agudo. Deixa eu ver o tempo que eu consigo”. Então, eu gosto da linguagem, gosto das ferramentas.

Mari: Acho que você já dominou uma técnica para esse grito sair da melhor forma possível, da forma que você quer, né? 

Gilda: Exatamente. Não é que eu tô lá gritando, gritando, eu tô construindo, eu tô entendendo que o é, então, são ferramentas. Então, cada desafio é uma alegria. É uma camada a mais. 

Mari: É um nível de paixão, com loucura, tem que ter um pouco de cabeça aberta, loucura, sadismo para poder entrar nesse mundo, né?

Gilda: É, e falando da loucura feminina, né? Tudo a ver com a Mostra, as vampiras, a loucura feminina, eu tô aí, né? 

Mari: Sim, maravilhosa. É, a gente tem muita curiosidade para saber como é que você faz esses gritos, como é que qual a técnica que você usa. Eu acho que você vai falar um pouco isso na sua masterclass hoje, né? 

Gilda: Eu vou falar assim sobre sobre como gritar sem machucar a voz e sobre como lidar com isso. Se você tem que, em uma luta, dá uma facada, você tem que ter o domínio de tudo. Se a pessoa dá um grito, depois tem que fazer cinco takes, ela não fala mais nada. nada, se ela não tiver técnica para gritar. Então, o grito é fingido, sai de “tal lugar”. Se você não tiver intimidade com o grito, ele vai machucar a sua garganta. 

E aí, a coisa mais linda é quando tem esse encontro e eu consigo realmente fazer as pessoas naturalizarem esse ambiente, porque o que eu gosto é assim,  daquilo de desvendar aquele mistério, mas não desvendar para aquilo de ser menos misterioso, mas para ser acessível. Como é que você morre? Quando você morre, sangra, tem mangueiras pelo seu corpo…

Às vezes eu tô com duas pessoas penduradas em mim, em muitos filmes. A mangueira daqui para sair o sangue é diferente do diâmetro da mangueira de outros lugares, porque cada lugar espirra de um jeito. Então, no cinema de horror, você também tem que ter um senso de coletivo muito grande, né?

Eu às vezes eu tô ali em cena, mas eu tô com quantas pessoas que vão disparar aquilo para fazer, vão me caracterizar. Às vezes, o próprio caracterizador, ele já te deixa num ponto que às vezes você nem tem que fazer nada, porque nós temos caracterizadores tão sensacionais.

Eu já fiquei 8 horas para fazer uma caracterização, não dá para comer… Mas isso passa a ser um prazer, porquê? Porque você quer fazer aquele efeito funcionar 

Mari: Ah, isso é maravilhoso. É maravilhoso te ouvir falar isso, porque aproxima a gente mais ainda do horror de uma forma mais democrática até e desmistificadora, né? Você quebra essas coisas de, assim, olha só como é que é feito, olha só como é divertido fazer isso, né? Como é bacana fazer isso. E aí aproxima mais as pessoas do horror, do cinema, do gênero, sensacional te ouvir falar.

Eu soube que você fez uma participação também agora no filme do Gustavo Vinagre com o Gurcius, o Privada de Suas Vidas, que é um filme que não estreou no Brasil ainda. Aí eu queria que você falasse um pouco sobre qual o seu próximo projeto, o que que você tem pela frente em vista.?

Gilda: Eu já estou filmando com Vinagre de novo nesse momento. Olha. É, tenho muitos projetos. Nossa, depois do grito minha vida ainda melhorou muito. Viralizar com grito no Enterre e Seus Mortos, me deu um espaço de mais visibilidade. Então, mesmo com os diretores que eu já trabalhava, eu tô somando, os que eu já trabalhava, os que eu nunca trabalhei, mas o filme do Gustavo e do Gurcius, Privadas de Suas Vidas é assim, genial, genial!!

Estreou em Roterdã, agora a semana passada estava na Argentina, ainda não estreou no Brasil. Estamos pouquíssimos para estrear. E, por exemplo, você estava falando das referências, né? Tem uma referência a Os Pássaros de Hitchcock. Então, tô lá, olha que bacana, sou toda referência.

Eu muitas vezes pego uma referência e é tão bonito você homenagear alguém, né? Usar uma coisa que você é fã e colocar ali e se colocar aquela alegria também é uma brincadeira. E o Gustavo e o Gurcius brincaram demais, olha. Vai esperando essa estreia!

Mari: Muito obrigada pelo seu tempo, pelo seu carisma, seu entusiasmo para falar do que você faz. É uma honra poder falar com você e espero te conhecer daqui a pouco, mais tarde, no CCBB. 

Gilda: A honra é toda minha. Espero seu abraço.

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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