O Lago da Perdição | 2025

O Lago da Perdição | 2025

O horror como extensão do desejo 

A adolescência é um território instável, marcado pela intensidade com que tudo é vivido. Trata-se de uma fase em que o tempo parece comprimido, como se cada experiência carregasse um peso desproporcional, resultado não apenas das transformações hormonais da puberdade, mas também de uma consciência em formação, ainda incapaz de organizar plenamente desejos, frustrações e identidade. Nesse limiar entre a infância e a vida adulta, sentir é sempre excessivo, e o mundo se apresenta como um campo de urgências.

Em O Lago da Perdição, longa argentino dirigido por Laura Casabé, essa ebulição interna é radicalizada até o limite do insuportável. Os desejos deixam de ser apenas impulsos íntimos e passam a operar como forças externas, quase autônomas, que atravessam o corpo e o imaginário das personagens. O filme transforma o anseio adolescente, frequentemente difuso e contraditório, em matéria concreta de horror, elevando o poder da intenção a um patamar sobrenatural e, por vezes, francamente maligno.

O longa é baseado em dois contos de Mariana Enríquez, uma das escritoras argentinas de terror mais relevantes da atualidade:  ‘La Virgen de la Tosquera’ ( traduzido aqui como A Virgem da Pedreira) e ‘O Carrinho’, que no Brasil fazem parte do livro Os Perigos de Fumar na Cama, publicado pela Editora Intrínseca em 2023. Enríquez traz histórias que misturam superstição, lendas urbanas, traumas de ditaduras e a desigualdade social na Argentina. A autora também explora temas como assombração, mediunidade, bruxaria e mulheres lidando com o macabro.

No filme de Casabé somos apresentados a uma Argentina decadente e interiorana, beirando a miséria e a escassez, onde as residências estão carentes de serviços básicos, como o fornecimento contínuo de luz e água. A todo momento os personagens são interrompidos por abruptas quedas de energia, ou por precisarem se abastecer com água de carros pipa.   

O Lago da Perdição nos insere no universo de três jovens amigas, guiadas por Natalia (Dolores Oliverio), que se apaixona por Diego (Agustín Sosa). As meninas são virgens e anseiam por experiências sexuais que transformem suas vidas. Mariela (Candela Flores) e Josefina (Isabel Bracamonte) também desenvolvem um interesse por Diego, fato que é explicitado sem muito pudor entre as amigas. O filme divaga sobre essas expectativas, se assumindo uma narrativa de descoberta, onde as jovens vão construindo suas identidades através de suas pequenas transgressões e desejos em meio ao ambiente de desesperança no qual vivem. 

Natalia é uma personagem complexa, que carrega a dor de ser abandonada desde cedo por seus pais, crescendo aos cuidados da avó Rita (Luisa Merelas), uma “velha louca”, que divide com a neta um evidente dom sensitivo. A cena que abre o longa, mostra o espancamento de um morador de rua com seu carrinho de bugigangas. A violência acontece no meio da rua, bem em frente a casa de Rita. Natalia observa o ato sangrento pela janela com desconforto e a idosa interfere, impedindo que o homem seja morto. A partir daí cria-se um clima macabro em torno desse acontecimento, como se este homem fosse alguma entidade maligna que trouxesse uma espécie de maldição aos moradores da casa. Seu carrinho permanece alí, imóvel e imundo, como um sinal de mau agouro.

O mundo da protagonista se desestabiliza com a chegada de Silvia (Fernanda Echevarría del Rivero), uma mulher mais velha que Diego conhece pelo ICQ e que rapidamente se integra ao grupo. Natalia, que acreditava viver um relacionamento com o rapaz, passa a ser relegada a um segundo plano, enquanto a recém-chegada, de personalidade forte, monopoliza sua atenção. Silvia propõe uma viagem a um lago nas redondezas e compartilha histórias sobre crianças que morreram ali. Nesse espaço, as tensões se intensificam, os caráteres são colocados à prova e novos desejos emergem. 

Natalia desenvolve progressivamente uma personalidade mais perversa, movida pelo ciúme e pela constante frustração acerca de sua vida sexual. Sem experiências marcantes, a jovem arde na cama, sonha, deseja, mas por fim, muitas coisas permanecem no campo da imaginação. Essa força reprimida, aliada ao sentimento de rejeição, despertam nela um poder que move o vento, que acelera batimentos cardíacos e que controla cães ferozes os transformando em assassinos devoradores de carne. 

Casabé articula o conto de descoberta com a lógica da maldição em uma fusão que, embora por vezes tropece em certa dispersão narrativa, nunca perde a força sensorial que sustenta sua proposta. Há uma melancolia espessa no filme, quase tátil, construída a partir de uma paleta dessaturada, de tonalidades mórbidas, e de uma iluminação quente e rarefeita, que parece sempre à beira da asfixia. Mais do que um recurso estético, essa escolha formal contamina a própria percepção do espectador, instaurando um clima de mal-estar contínuo.

Nesse sentido, O Lago da Perdição se insere como um marco relevante dentro do horror argentino contemporâneo dirigido por mulheres, tensionando convenções do gênero a partir de um olhar autoral bastante definido. Casabé demonstra um controle expressivo da atmosfera que, em determinados momentos, remete ao desconforto latente de Lucrécia Martel em O Pântano (2001), sobretudo na maneira como a decadência dos espaços não apenas ambienta, mas determina o estado emocional das personagens. Aqui, o cenário deixa de ser pano de fundo e se impõe como força ativa, moldando o ritmo, o tom e a própria experiência do horror.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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