Onde Estamos Seguros | 2026

Onde Estamos Seguros | 2026

Fazer cinema no Brasil é sobretudo um exercício de resistência. Em um país que nunca consolidou uma política cultural estável para o audiovisual, cada filme carrega consigo uma história paralela de batalhas por financiamento, editais, aprovação de projetos e captação de recursos. Ao contrário do que o senso comum insiste em repetir como estratégia política nefasta, a produção cinematográfica brasileira não é sustentada pela Lei Rouanet, mecanismo voltado principalmente para projetos culturais de outras naturezas e que tem participação bastante limitada no financiamento do audiovisual. 

O cinema nacional depende, sobretudo, de instrumentos específicos, como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), os editais públicos federais, estaduais e municipais, as linhas de investimento da Ancine, além de leis de incentivo próprias do setor, que permitem a destinação de recursos privados. Nesse contexto, cada obra realizada é uma disputa política sobre quais histórias podem existir e ocupar as telas. Exibido na mostra competitiva de longas do 30º CinePE, Onde Estamos Seguros, de Thais Scabio e Gilberto Caetano, é um exemplo muito claro sobre como fazer cinema no Brasil em contextos de precariedade de incentivo é por vezes mostrar as garras sem medo e lutar artisticamente contra um sistema que, muito embora rico, é também opressor.

Em Onde Estamos Seguros, o casal Rafaela (Aguida Aguiar) e Felipe (Andrio Candido), após a violência racial interromper o que deveria ser um dos dias mais felizes de suas vidas, buscam no isolamento de um casarão no interior de São Paulo, pertencente à família de Rafaela, uma forma de escapar das marcas deixadas pelo trauma. A aparente tranquilidade do refúgio, entretanto, mostra-se ilusória na medida em que surge a necessidade de elaboração de memórias dolorosas, e fantasmas e monstros passam a habitar aquele espaço, fundindo os perigos externos com as feridas internas de natureza psicológica que seguem abertas em cada um deles. 

Scabio e Caetano são guerreiros e ousados. Fazem, com um orçamento baixíssimo de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), cinema de horror e reflexão social. Encontram inspiração, principalmente, em Jordan Peele, para transformar o racismo e o racista em matéria aterrorizante, contraposta aos imaginários tradicionais das figuras vilanescas dos filmes de gênero.

A própria ideia de um casarão de arquitetura colonial escravista ser utilizado como refúgio de um casal negro causa, imediatamente, estranheza. Em alguns desses espaços, porões e áreas subterrâneas eram utilizados para confinamento, castigo ou alojamento precário de pessoas escravizadas. O casarão de Onde Estamos Seguros possui exatamente essas características. Ainda que vinculado afetuosamente à infância de Rafaela e seus familiares, a própria estrutura da casa é testemunha da violência racial, o que é materializado pela presença fantasmagórica sugerida de Olivia, uma familiar antepassada que ecoa suas vozes atormentadas aos protagonistas.

Há cuidado temático em Onde Estamos Seguros, e um apuro na construção das cores da casa na medida em que tenta contrastar com a sensação de perigo iminente transmitida pela atmosfera. Entretanto, é notório que a hipossuficiência econômica reflete na qualidade da produção. O filme tornou-se grande e ambicioso demais ao que seu financiamento permitia. Há problemas de execução técnica bastante visíveis e até amadores, inclusive, quanto à coerência e distribuição orçamentária. A impressão que fica é que alguns elementos cinematográficos tiveram investimentos muito maiores do que outros, e é fato que, em se tratando de cinema, essa escolha de destinação de verba prejudica sobremaneira a unidade estilística da obra.

Onde Estamos Seguros carrega em si a mensagem do amor como ferramenta para enfrentamento coletivo do monstro, do grande vilão diário que é o racismo. Se suas limitações de produção comprometem que suas ambições sejam plenamente alcançadas, Scabio e Caetano não perdem de vista o que desejam comunicar como mensagem. É admirável em uma obra que, mesmo diante das restrições materiais impostas a tantos realizadores brasileiros, recusa a acomodação e utiliza o cinema como instrumento antirracista através do gênero do horror.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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