O Mez da Grippe | 2026

O Mez da Grippe | 2026

Houve um tempo em que tivemos que ficar presos em nossas casas, isto porque circulava um vírus extremamente contagioso e mortal, uma espécie de gripe misteriosa. Comércios fecharam, o desespero tomou conta de todos. Muitas vidas se perderam. Mesmo que a memória depois se torne esparsa, ou o trauma cause um bloqueio sobre ela, os efeitos daquele momento permaneceram por anos. Talvez socialmente seja mais fácil calcular essas sequelas, mas é impossível mensurar os efeitos íntimos daqueles que viveram o momento.

Poderíamos estar escrevendo sobre a pandemia recente de coronavírus, mas O Mez da Grippe, filme de William Biagioli, revisita os arquivos sobre a gripe espanhola no início do século passado, que assolou a cidade de Curitiba no Paraná, para construir um complexo mosaico entre a memória coletiva e individual, misturando documentário e ficção a partir da obra de Valêncio Xavier. Por mais que o diretor tenha dito durante a exibição da obra no 15º Olhar de Cinema que a ideia havia surgido antes da COVID, é uma comparação inevitável.

O livro de Xavier é uma experimentação literária, tecendo sua narrativa a partir de manchetes jornalísticas e anúncios comerciais para fazer críticas sociais e analisar o comportamento das pessoas na época. Biagioli tinha um grande desafio em mãos ao propor essa adaptação, não apenas pelo trabalho exaustivo de pesquisa, mas também em encontrar uma maneira de ficcionalizar e criar um fio narrativo para aquelas imagens. 

Quem nos conduz é a voz do professor do setor de linguagens da Universidade Federal do Paraná, Dr. Ivo Nalce Jr., que começa a produção de uma pesquisa sobre os sotaques paranaenses. O letreiro inicial nos revela que é um trabalho não terminado, abandonado em um dos arquivos da universidade e encontrado décadas depois. Alguns rolos de áudio e outros de vídeo teriam sido montados sem ordem cronológica, pois não havia nenhuma informação do que deveria ser feito. 

Então, ouvimos gravações pessoais e entrevistas do professor tentando reunir dados para sua pesquisa. Fica claro que seu interesse não são os sotaques, mas algo que o intriga ainda mais: a gripe espanhola na cidade de Curitiba. A pesquisa linguística torna-se, então, um pretexto para perseguir algo mais nebuloso: os fantasmas da cidade.

Diversos personagens relatam sua relação com a cidade e os efeitos da gripe em suas vidas. Aparecem sim vários sotaques, já que Curitiba se construiu com imigrantes europeus. Os vídeos antigos mostram as casas rurais, a urbanidade que crescia, os comércios e as escolas. Em alguns momentos as cenas são interpretadas por atores, em um tom mais humorístico que se encaixa perfeitamente com a empolgação demonstrada pelo professor mergulhado nas histórias que ouvia.

Aos poucos cresce um mistério, reforçado pela força da trilha sonora, ao passo que Ivo começa a se incomodar com sua própria investigação. As memórias se transformam em assombrações para ele à medida que absorvia as dores dos relatos e se indignava com a postura adotada pelos governantes da época. O sofrimento dos imigrantes, a tentativa de esconder da população o cenário real da pandemia, o oportunismo dos comerciantes que tentavam vender medicamentos milagrosos contra o vírus… Tudo se mistura em nosso narrador e gera uma aflição que se reflete na tela.

O mais interessante é, ainda, como a montagem de O Mez da Grippe consegue ligar tudo isso de maneira primorosa. Distorções e efeitos de imagem dão uma dinâmica esquizóide à obra, refletindo e potencializando cada vez mais o estado de espírito do personagem principal. Em uma cena o tormento de Ivo está em uma fotografia em que uma mulher aparece por trás de uma parede e observa a câmera. A imagem vai e volta, como se estivesse dentro do professor de forma acusativa, indagando-lhe o direito de reconstruir uma história que é impossível de ser reconstruída.

Ao fim, esse se revela ser o grande dilema de Biagioli: o que é a memória? Em tom poético, Dr. Ivo questiona a existência de uma memória e como ela se altera a cada olhar estrangeiro, como o dele. Daqui há alguns anos alguém olhará para os arquivos da COVID-19… O que pensará de nossa geração? Quem foram essas pessoas que tomavam cloroquina e não colocavam máscara, ou as outras que enterraram seus entes queridos em caixões lacrados. Seremos entendidos? Absolvidos? 

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