O Profeta | 2026

O Profeta | 2026

A fé está entre os grandes motores da humanidade, seja quando projetada em direção a um futuro, possibilitando-nos propósitos, ou, ainda, nas múltiplas expressões religiosas que se criaram ao longo dos tempos. Diante do sofrimento, da pobreza ou da ausência de perspectivas, construímos narrativas e símbolos que nos ajudem a enfrentar o caos de nossas vidas. É nesse terreno fértil entre a esperança e a carência que surgem os profetas, vozes que reivindicam a mediação entre os homens e seus mistérios.

Na comunidade de Manjacaze, cenário onde se passa o filme moçambicano O Profeta, de Ique Langa, espera-se essa figura, alguém que possa preencher a ausência existencial e social daquele povo. Esta é a posição almejada pelo pastor Hélder (Admiro Laura Munguambe), primeiramente com um desejo sincero em ajudar os seus pares, mas, depois, levado por um sentimento egoico em se tornar uma figura messiânica para o vilarejo. 

O desenvolvimento desse dilema começa com as pregações vazias e desanimadas de um Hélder que mal consegue ler as passagens bíblicas, menos ainda motivar as três fiéis que o assistem. Os movimentos lentos da câmera, a proporção apertada da tela e o contraste preto & branco da fotografia reforçam a melancolia do personagem. Os ângulos descentralizados evidenciam o pastor totalmente absorto em seus pensamentos. Sua fé está perdida. É nesse instante que a ambição encontra espaço e o vislumbre de ser um grande líder religioso o faz recorrer a rituais ancestrais para realizar seu desejo. 

Então, a partir desse momento, O Profeta ganha contornos estilísticos interessantes, trazendo o misticismo como elemento primordial da imagem e do som. Langa passa a trabalhar planos detalhes de rostos macabros e amedrontados, cria uma trilha sonora apreensiva para ressaltar o aspecto nonsense e utiliza-se de transições que são claras referências ao cinema de David Lynch. Agora, Hélder entrou em um mundo obscuro onde precisa cumprir algumas tarefas para ter seu desejo atendido. E assim acontece: imediatamente sua igreja começa a crescer, seus sermões inflamam a fé dos moradores da vila que passam a tratá-lo como uma celebridade. Finalmente o pastor conseguiu sua posição de profeta.

Entretanto, o que poderia levar o filme a um espaço onírico e misterioso, acaba se tornando sua maior falha. O diretor não dá tempo para o desenvolvimento da trama, parecendo muito mais interessado em criar belas imagens. Ele consegue, mas deixa de lado a dramaticidade de seus personagens e suas relações. Por exemplo, a esposa do pastor funciona como mero adereço em cena, mesmo grávida é a serviçal da casa. Mas é ela quem dá suporte quando ele mais precisa, sem qualquer reflexão sobre sua condição. O sacrifício de animais que Hélder precisa fazer para atingir seu objetivo rende momentos marcantes, mas na terceira vez se torna maçante.

A psiquê do pastor que trocou sua alma pelo ego acaba não sendo o principal elemento de O Profeta, funcionando mais como um pretexto imagético do que como tensionador. Após ter conseguido o que queria, Hélder se arrepende quase que imediatamente após pesadelos que indicavam uma desgraça familiar. Com uma ingenuidade que beira o absurdo ele quer retroceder o ritual, mas descobre que não é possível. Não se cria uma tensão que justifique o roteiro. Langa sugere mergulhar no inconsciente de Hélder, mas acaba recuando sempre que essa dimensão ameaça se tornar realmente perturbadora, o que poderia combinar muito mais com sua proposta.

O tempo que se perdeu em cenas demoradas de momentos aleatórios, como Hélder vestindo lentamente sua roupa ao acordar, ou, ainda, repetições de diálogos que já eram ideias claras, poderia ser revertido em situações que aprofundassem o paradoxo moral do pastor e suas consequências. Essa morosidade está ali para privilegiar o estilo em detrimento dos conflitos internos do personagem principal, fazendo com que O Profeta abdique justamente daquilo que tem de mais interessante. 

Author

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *