Olhe Para Mim | 2026
A ausência da figura materna pode ter um efeito devastador na construção psicológica dos filhos. Perde-se o estado de segurança e acolhimento. O ponto de equilíbrio se desloca. Para um adolescente como Marcelo (Ulisses Arthur), nosso personagem principal, o trauma do desaparecimento misterioso da mãe se manifesta em uma personalidade melancólica, incompreendida e desconexa. Seu percurso entre olhar para si mesmo e aceitar-se é o que Olhe Para Mim nos conta pelas vias de um terror dramático, explorando o mundo fantasioso dos mitos do sertão alagoano.
Marcelo vive com o pai, a madrasta e um meio-irmão, Kim, a quem acaba sempre assustando com histórias aterrorizantes que inventa, comportamento típico de irmão mais velho. Mas mesmo ali, ele não se encaixa. Adota um comportamento rebelde e autodestrutivo.
É justamente enquanto se esbaldava com bebidas e drogas em uma festa halloween que a jornada espiritual de Marcelo começa ao conhecer o enigmático Ivan (Luciano Pedro Jr.), um forasteiro. Esse momento rende uma das cenas mais belas do longa de Rafhael Barbosa, trazendo referências do cinema de terror e uma fotografia primorosa de Roberto Iuri. Em meio a vampiras, monstros e até o coelho Frank de Donnie Darko dançando e curtindo, com uma fantasia de diaba, Marcelo avista aquele sujeito estranho com uma touca rabiscada que lhe cobre a cabeça e o pescoço, iluminado como um ser místico surgido das sombras.
Seus olhares se enfeitiçam. Os dois saem da festa e passam a madrugada conversando, o suficiente para Marcelo pedir a Ivan que o levasse embora dali quando fosse seguir viagem com sua mãe. Ao amanhecer é isso mesmo que acontece, e os dois seguem viagem com Sandra, interpretada por Rejane Faria. O misticismo que envolve mãe e filho o atrai cada vez mais e, à medida em que se aproxima deles, Olhe Para Mim se torna ainda mais lúdico.
O filme se desenvolve, então, como um roadmovie espiritual. Marcelo passa a enxergar Sandra como uma figura materna, quando vê os cuidados que tem com Ivan. O jovem está possuído pelo espectro maligno da Coruja Rasga-Mortalha (referência a uma lenda local que o próprio diretor ouvia quando criança). Sandra tenta a todo custo, com uso de sua magia, salvar seu filho.
Ao mesmo tempo em que o vazio materno se preenchia, os dois jovens se entregavam ao amor. O ato não é meramente carnal, mas funciona como um ritual de libertação inconsciente de Marcelo, que agora parece ter encontrado a redenção de seu trauma, vendo-se amparado por aquela família.
No cerne de Olhe Para Mim fica uma bonita mensagem sobre a maternidade de filhos queer. Quando existe a não aceitação dentro da própria casa, seja pela ausência ou pela presença hostil, a jornada de superação é mesmo complexa e requer uma grande disposição espiritual e intelectual. O acolhimento precisa, então, ser buscado em um olhar interno, enfrentando fantasmas e monstros do trauma.
Na 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, Olhe Para Mim recebeu os prêmios de Melhor Direção, para Raphael Barbosa, Melhor Som para Lucas Coelho e o merecido reconhecimento com Melhor Direção de Arte para Nina Magalhães.
