Leviticus  | 2026

Leviticus  | 2026

um romance de horror queer contra a perseguição religiosa

Compreendendo profundamente o potencial político do cinema de gênero, o diretor Adrian Chiarella proporciona uma grata surpresa com Leviticus, sua estreia em longa-metragem. O título da obra, que faz uma alusão direta ao livro bíblico de Levítico, frequentemente utilizado por conservadores para endossar a homofobia, já estabelece a premissa de sua crítica: aqui, a entidade maligna e perseguidora evoca a figura do próprio deus cristão em sua faceta mais punitiva e excludente.

Acompanhamos o drama de dois adolescentes gays que vivem em uma conservadora cidade no interior europeu. Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen) vivem suas primeiras experiências queer juntos e passam a cultivar um crescente desejo um pelo outro. Mal vistos e excluídos pela comunidade cristã na qual vivem, são condenados a conviver e serem perseguidos por uma entidade violenta que assume a forma da pessoa que eles mais desejam.

Embora o filme carregue paralelos inegáveis com Corrente do Mal (It Follows, 2014), de David Robert Mitchell, e venha sendo rotulado como uma “versão gay” do clássico moderno, reduzi-lo a isso seria ignorar sua complexidade. A narrativa funde brilhantemente o drama de amadurecimento queer com o terror religioso, utilizando monstros, possessões e perseguições implacáveis para dissecar temas como a vergonha comunitária, a exclusão e a sobrevivência. 

Chiarella faz a escolha acertada de focar no peso psicológico da maldição, transformando-a em uma alegoria visceral para a terapia de conversão, ou uma espécie de “cura gay”. Há uma angústia perturbadora na forma como a família dos protagonistas demonstram afeto. São frias e distantes, mas impõem a “normalidade” a qualquer custo, criando um monstro que se alimenta macabramente da solidão e do desejo reprimido. Arlene (Mia Wasikowska), mãe de Naim, é uma mulher solitária e extremamente conservadora, ela fecha os olhos aos apelos e pedidos de socorro de Naim e entrega o filho à um ritual religioso que promete a solução para sua transgressão, mas que desencadeia em uma perseguição maligna e mortal.

A mecânica do terror ganha contornos sádicos quando a ameaça assume o rosto da pessoa que a vítima mais ama. Essa dinâmica cria uma tensão excruciante, forçando os jovens a uma escolha impossível: afastar-se para sobreviver ou agarrar-se ao afeto. É nessa encruzilhada que o roteiro encontra força. A potência de Leviticus reside naquilo que resiste ao medo: o amor entre dois rapazes que se recusam a aceitar a violência como um destino inevitável. 

Esse embate emocional é potencializado por atuações potentes, a química entre os dois rapazes é notória. A parte técnica é elegante, com um uso de câmera que evoca atmosferas sóbrias e frias, a fotografia que privilegia os tons dessaturados, acentuando o desalento e o aspecto pouco acolhedor  do local.

Apesar de seus méritos e da boa condução da história, a obra tem seus tropeços. Falta ao filme esculpir uma identidade visual totalmente própria, já que ele se apoia de forma excessiva na estética das obras que aparenta buscar inspiração. O roteiro também sofre um pouco com problemas de ritmo no segundo ato, tornando-se um tanto repetitivo sem conseguir avançar como antes. A sensação é a de uma montanha-russa que atinge um pico altíssimo, mas perde o fôlego em uma queda lenta. Além disso, a resolução da trama opta por um caminho excessivamente familiar, reciclando de forma quase literal o desfecho do longa de 2014, de Robert Mitchell.

Mesmo com ressalvas, Leviticus é um triunfo que dialoga com o melhor do horror queer contemporâneo. A verdadeira reviravolta de Chiarella é entregar um filme de gênero tenso e assustador que bate com um coração afetuoso e pé fincado no romance. É uma obra incisiva sobre confiança, sobre a necessidade de superar o pavor para amar e, acima de tudo, um manifesto poderoso e comovente sobre escolher ser quem se é, mesmo quando o mundo, ou a religião, parece querer te destruir.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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