Nada a Fazer | 2026
“Um teatro a salvar, só o teatro para nos salvar.” A interdependência que existe entre o artista e sua arte constitui-se quase como uma simbiose existencial. Um não existe sem o outro, e a ameaça a um se estende ao outro. Artistas brasileiros sofreram duplamente durante o período pandêmico vivenciado em nosso país. O primeiro sofrimento decorreu da necessidade de isolamento, que dificultou sobremaneira o exercício do ofício e impôs barreiras geográficas que o limitaram – afinal, o enfraquecimento dessa simbiose acarreta, certamente, prejuízos. O segundo sofrimento foi o político: o estratégico desmonte cultural ocasionado pelo desgoverno de extrema-direita trouxe danos financeiros diretos à maioria dos artistas, com o objetivo evidente de conter a expressão da arte como forma de controle.
Diante desse cenário de confinamento forçado e incertezas, a diretora e atriz Leandra Leal decide extravasar, ao lado de sua mãe, a também atriz Ângela Leal, a criatividade reprimida pelo contexto. Nada a Fazer, dirigido por Leandra, é um documentário que captura imagens íntimas do cotidiano de isolamento entre mãe e filha, artistas de personalidades tão conflitantes quanto repletas de afeto mútuo. Enquanto estudam e encenam, de forma absolutamente caseira, a peça francesa Esperando Godot, de Samuel Beckett, as duas discutem meios de salvar da crise financeira o teatro da família, confirmando, assim, a premissa inicial da obra e deste texto.
As crises da vida real se convertem em conflitos dramáticos a serem superados pelas protagonistas. Nada a Fazer se constrói a partir do enfrentamento dessas adversidades circunstanciais, alternado com imagens de arquivo de Ângela e Leandra que evidenciam as veias artísticas e as referências indissociáveis dessa família.
Embora se trate de um documentário, estamos diante de duas grandes atrizes brasileiras. Consequentemente, instauram-se dúvidas sobre o limiar entre performance e espontaneidade, o que suscita reflexões acerca da própria natureza do cinema documental, uma vez que a simples presença da câmera modula, invariavelmente, o comportamento humano. No caso em apreço, estando nós diante de duas maestras do ofício, somos presenteados com a representação em seu grau mais sofisticado: assistimos a seu desempenho em Esperando Godot e acompanhamos suas interações rotineiras, cientes de que tudo pode – ou não – ser espetáculo.
Nada a Fazer é um filme muito pessoal, mas também extremamente político – não de modo panfletário, mas requintado, porque sabe aproveitar-se da própria arte para afirmar-se politicamente. Em Esperando Godot, espera-se por alguém que não se sabe quem é e que nunca chega, um estado de expectativa semelhante ao vivenciado pelas atrizes em isolamento. O “nada a fazer” do título é bastante simbólico e atua como instigador da resistência da classe artística, porque Leandra e Ângela, ainda que submetidas à inércia compulsória diante da COVID-19, recusam a imobilidade e se reafirmam, através do documentário, como criadoras em constante movimento. É a prova de que a simbiose criativa salva até mesmo nos contextos mais obscuros, nos quais deixar de lutar não é uma opção.
