Zona Zero | 2026

Zona Zero | 2026

No fim do mundo, ninguém sobrevive sozinho 

Em um arranha-céu no centro de Seul, um cientista de uma empresa de biotecnologia injeta um vírus misterioso em seu próprio CEO. Em poucos instantes, a infecção se espalha pelo edifício e transforma seus ocupantes em criaturas inicialmente rastejantes e animalescas. Há, porém, algo diferente nesses infectados: eles compartilham uma consciência coletiva. Aos poucos, passam a reconhecer os sobreviventes, coordenar seus movimentos e agir de maneira cada vez mais organizada. O que parecia ser mais uma epidemia zumbi ganha, assim, uma dimensão inesperada.

Dirigido por Yeon Sang-ho, do aclamado Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016), Zona Zero (Colony, 2026) retorna ao universo dos mortos-vivos para introduzir uma variação interessante ao subgênero. A ideia de uma espécie de inteligência compartilhada modifica a dinâmica tradicional entre presa e predador e permite ao filme explorar alguns dos medos mais contemporâneos ligados à tecnologia, como a hiperconectividade, a inteligência artificial e a circulação incontrolável de informações.

A trama acompanha um grupo de sobreviventes liderado pela professora de biotecnologia Kwon Se-jeong, que tenta alcançar o terraço do edifício, onde uma equipe de resgate supostamente os aguarda. A situação se complica quando surge um homem que afirma possuir a vacina e parece ter interesses próprios. A partir daí, o prédio deixa de funcionar apenas como cenário e passa a determinar a estrutura do filme. Escadas, corredores, salas, andares e passagens transformam-se em espaços de perseguição, contenção e fuga, enquanto cada novo deslocamento pode revelar uma ameaça diferente.

Zona Zero se sai muito bem na utilização desse ambiente vertical. O edifício funciona como um organismo, um labirinto fechado no qual os personagens precisam constantemente decidir para onde ir e em quem confiar. Em vez de depender apenas da quantidade de criaturas, Yeon Sang-ho utiliza a arquitetura para produzir suspense, transformando cada mudança de espaço em uma possibilidade de perigo. A estrutura do prédio cria uma sensação de confinamento que mantém os personagens em permanente movimento, sem permitir que encontrem um lugar verdadeiramente seguro.

A consciência coletiva dos infectados também estabelece uma relação direta com a inteligência artificial e com a hiperconectividade contemporânea. O conhecimento compartilhado pode, inclusive, ser utilizado contra eles próprios, já que informações falsas inseridas nesse sistema são capazes de desorientá-los. O vírus transforma seus hospedeiros em uma rede, enquanto os humanos precisam descobrir como produzir sua própria inteligência coletiva para sobreviver. A diferença é que, para os sobreviventes, essa conexão não acontece automaticamente. Ela depende de confiança, comunicação e disposição para abrir mão de interesses individuais.

É nessa dinâmica que Zona Zero estabelece uma oposição interessante entre autoridade masculina e cooperação. Os homens que ocupam posições de poder tendem a concentrar informação, controlar decisões e agir a partir de interesses individuais, transformando o conhecimento em instrumento de domínio. A figura daquele que afirma possuir a vacina radicaliza essa lógica: em vez de compartilhar uma possível solução para a crise, ele utiliza a informação como moeda de poder. A autoridade, nesse universo, está associada ao controle, à hierarquia e à capacidade de decidir quem merece e precisa ser salvo.

Em contraposição, as mulheres constroem sua sobrevivência a partir do compartilhamento. Kwon Se-jeong exerce liderança, mas sua autoridade não depende da imposição ou do segredo, e sim de sua capacidade de reunir conhecimentos e coordenar diferentes pessoas. Mesmo entre personagens que inicialmente não têm motivos para confiar umas nas outras, a experiência extrema cria uma rede de apoio baseada na escuta e na colaboração. O filme não transforma essa cooperação em uma idealização de sororidade, ela nasce da necessidade, da percepção de que as estruturas tradicionais de proteção falharam e de que ninguém será capaz de atravessar aquela crise sozinho.

Essa dimensão também desloca a própria representação da força feminina no cinema de zumbis. As personagens não precisam simplesmente assumir características tradicionalmente associadas à masculinidade para ocupar uma posição de poder. Sua força está na capacidade de estabelecer conexões, compartilhar informações e reconhecer a vulnerabilidade do outro. Enquanto a autoridade masculina aparece vinculada à posse do conhecimento e à possibilidade de decidir sobre a vida alheia, a liderança feminina se constrói pela circulação desse conhecimento.

A consciência coletiva dos infectados ganha, assim, um contraponto humano. Enquanto os zumbis estão conectados por uma inteligência que elimina a individualidade, os sobreviventes precisam construir conscientemente uma inteligência comum sem deixar de preservar suas diferenças. E é justamente entre as mulheres que essa possibilidade se torna mais visível. Diante de uma crise que desmonta as hierarquias, sobreviver talvez dependa mais de quem consegue ouvir, compartilhar e confiar, do que dar ordens.

Há ainda uma leitura inevitavelmente associada à experiência da pandemia. As autoridades insistem em interpretar a infecção a partir de modelos já conhecidos, mesmo quando os acontecimentos demonstram que suas certezas não correspondem à realidade do problema. A demora em reconhecer a dimensão do risco produz consequências para quem permanece preso no edifício, enquanto aqueles com maior poder encontram maneiras de escapar. O filme não transforma essa associação em discurso explícito, mas a desinformação, a resposta institucional inadequada e a desigualdade na distribuição do risco são reconhecíveis em seu pano de fundo.

Apesar dessas pluralidades na narrativa, Zona Zero funciona melhor quando abandona as explicações e simplesmente coloca seus personagens em movimento. O primeiro ato do filme é prejudicado por conversas excessivamente expositivas e uma progressão mais lenta do que sua premissa parece prometer. Investindo em alguns personagens irritantes, como uma jovem medrosa (típica em filmes de terror) que comete uma sucessão de erros involuntários e egoístas e coloca em risco todo o grupo de sobreviventes. Mesmo começando com bom ritmo, o longa demora a encontrar o que é necessário para fluir, acumulando diálogos em ambientes fechados e situações de suspense que nem sempre conseguem sustentar a tensão.

A segunda metade, por outro lado, encontra uma energia muito mais convincente. Conforme os personagens avançam pelo edifício, o filme passa a trabalhar melhor a imprevisibilidade dos ataques e a sensação de que ninguém está necessariamente protegido. Mesmo pequenos desvios da trajetória principal ganham importância, porque o perigo pode surgir a qualquer momento.

O conceito dos zumbis funciona melhor como mecanismo de suspense do que como elemento dramático. Eles não são apenas uma massa irracional avançando sobre os sobreviventes, mas um sistema coletivo diante do qual os humanos precisam descobrir como agir em conjunto. A consciência coletiva é suficientemente inventiva para renovar convenções conhecidas, ainda que o filme nem sempre explore todas as suas implicações. Em alguns momentos, a ideia parece servir mais à progressão da perseguição do que a uma investigação realmente aprofundada sobre consciência, tecnologia ou comportamento coletivo.

Ainda assim, há algo estimulante em uma obra que encontra uma pequena alteração conceitual capaz de modificar as regras de um gênero tão conhecido. Zona Zero entende que o cinema de zumbis precisa, antes de tudo, produzir medo, movimento, tensão e inovação. Suas ideias sobre inteligência artificial, informação, resposta institucional e cooperação humana funcionam melhor quando estão incorporadas à ação do que quando são verbalizadas.

Zona Zero traz uma premissa simples, mas suficientemente eficaz para renovar uma fórmula conhecida e lembrar que, em uma crise, talvez o maior desafio não seja apenas descobrir contra o que estamos lutando, mas encontrar uma maneira de enfrentar o perigo enxergando a importância do coletivo.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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