Seu Inferno Particular | 2026

Seu Inferno Particular | 2026

Quando o estilo se transforma em labirinto e superficialidade estética

Há algo particularmente perigoso na assinatura de um cineasta quando ela se torna mais reconhecível do que seus próprios filmes. Nicolas Winding Refn construiu uma filmografia em que cor, textura, violência e fetichismo não são apenas elementos decorativos, mas parte de uma linguagem imediatamente identificável. Em Seu Inferno Particular (Her Private Hell, 2026), essa linguagem parece ter deixado de servir à narrativa para se tornar a própria narrativa. O resultado é um filme que possui imagens exuberantes, personagens estranhos e uma atmosfera deliberadamente enigmática, mas que raramente encontra algo à altura de seu rostinho bonito.

O longa parte de uma premissa típica do imaginário fantástico: uma névoa misteriosa engole uma metrópole futurista e liberta uma entidade mortal, enquanto uma jovem parte em busca do pai. Sua trajetória acaba se cruzando com a de um soldado americano empenhado em encontrar a filha. Refn transforma esse ponto de partida em uma espécie de pesadelo fragmentado, construído mais por associações visuais do que por relações de causa e efeito. O problema não está em abandonar a lógica convencional, mas em não oferecer ao espectador outra lógica capaz de sustentar o delírio.

A aproximação com David Lynch é inevitável. Já havia sinais desse movimento em Apenas Deus Perdoa, uma sombra mais discreta em Demônio de Neon e uma presença muito mais evidente em Too Old to Die Young. Aqui, porém, a influência parece ocupar o centro da obra. Há ecos de Estrada Perdida e Veludo Azul, sobretudo na construção do pai da protagonista, uma figura que parece deslocada diretamente de um universo lynchiano. A diferença fundamental está na maneira como cada cineasta utiliza o estranhamento. Lynch nunca dependia apenas da aparência do mistério. Por trás daquilo que parecia inexplicável haviam personagens, conflitos, símbolos e uma estrutura capaz de transformar a própria confusão em experiência narrativa. Em Seu Inferno Particular, muitas vezes a imagem parece existir apenas porque é interessante, deixando de lado a substância narrativa.

Isso fica particularmente evidente na ambientação. O filme começa em um gigantesco hotel vazio, perdido em uma metrópole distópica tomada pela neblina. É um cenário perfeito para o tipo de cinema que Refn gosta de construir, mas a execução digital nem sempre acompanha sua ambição estética. O CGI da cidade e da própria névoa possui uma artificialidade que, ironicamente, remete a imagens oníricas produzidas por inteligência artificial. Para um diretor cuja obra sempre encontrou força na materialidade de suas imagens, há algo frustrante nessa aparência excessivamente digital.

No centro desse universo estão Elle (Sophie Thatcher) e Dominique (Havana Rose Liu), inseridas em uma narrativa que parece combinar a violência estilizada de Refn com seu gosto crescente pelo camp e pelo fetichismo. Figurinos, cenários e composição dos planos são cuidadosamente elaborados, mas a personagem frequentemente parece existir em função do enquadramento. Há momentos em que o filme se aproxima perigosamente de um comercial de grife de luxo que se recusa a terminar, tamanha a insistência em transformar cada corpo, corredor e superfície em objeto de contemplação. 

A dimensão fetichista também pesa especialmente sobre a construção das personagens femininas. Elas são colocadas no centro de um universo em que seus corpos parecem importar mais do que suas subjetividades. Refn filma mulheres constantemente exaltadas como objetos de desejo, vulnerabilidade ou violência, cercadas por figurinos cuidadosamente elaborados, poses calculadas e uma iluminação que transforma seus corpos em peças da própria cenografia. O problema não está necessariamente em trabalhar o fetichismo, que sempre foi um componente importante do cinema do diretor, mas na ausência de algo que exista para além dele. A câmera sabe como olhar para as mulheres, sabe como erotizá-las e sabe como transformá-las em imagens memoráveis, mas o roteiro demonstra pouco interesse em compreender quem são essas personagens, o que desejam ou quais conflitos existem para além daquilo que seus corpos provocam. Assim, o que poderia ser uma exploração consciente do desejo e da objetificação acaba se aproximando de uma repetição confortável do próprio olhar masculino do diretor.

Curiosamente, quem rompe essa lógica é Private K, o policial interpretado por Charles Melton. Seu núcleo de vingança é mais direto, físico e brutal, aproximando-se dos filmes de Yakuza e das tradições do cinema de ação japonês. As referências ao cinema asiático acrescentam outras camadas ao repertório visual do diretor. Longe do labirinto abstrato que domina o restante da obra, suas cenas encontram uma fisicalidade que a obra parece esquecer em outros momentos. É aí que Refn recupera algo que sua própria estilização havia soterrado: movimento, conflito e consequência, mas nada que John Wick 4 não tenha feito infinitamente melhor.  As sequências de combate estão entre os momentos mais eficazes do longa porque não precisam ser decifradas, apenas acompanhadas.

Isso não significa que Seu Inferno Particular seja visualmente desinteressante. Pelo contrário. Há imagens de enorme força, como o cruzamento entre uma cena de sexo no terraço de uma boate e o assassinato cometido pelo mascarado Leatherman, em uma montagem que faz o sangue e o desejo compartilharem o mesmo espaço visual. A trilha de Pino Donaggio, por sua vez, potencializa essa dimensão operística e aproxima o filme de uma tradição do cinema de gênero que passa inevitavelmente por Brian De Palma. 

A montagem fragmentada, em vez de produzir uma experiência de desorientação produtiva, frequentemente apenas prolonga a sensação de que as peças nunca chegam a formar um todo, chega a ser frustrante. Há uma diferença entre uma obra que nos convida a preencher suas lacunas e outra que simplesmente não oferece material suficiente para preenchê-las.

O filme é, portanto, uma experiência curiosa justamente porque evidencia a contradição de um cinema excessivamente consciente de sua própria estética. Refn domina cada superfície, cada cor e cada corpo que coloca diante da câmera, mas parece cada vez menos interessado no que existe depois deles.

O maior problema não é Refn querer dialogar com Lynch, mas acreditar que o vocabulário visual do surrealismo basta para produzir sua experiência. Néon, personagens excêntricos, violência, erotismo, silêncios e imagens inexplicáveis podem construir um universo fascinante, mas não necessariamente um filme. Seu Inferno Particular é belo, estranho e por vezes genuinamente hipnótico. Falta-lhe, porém, uma inquietação que ultrapasse a própria imagem.

No fim, permanece a impressão de um filme preso ao próprio espelho: perfeitamente consciente de como quer ser visto, mas incapaz de descobrir o que gostaria de dizer.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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