I Want Your Sex | 2026

I Want Your Sex | 2026

A tentativa de ensinar uma nova geração a desejar

Gregg Araki está de volta. Doze anos depois de Pássaro Branco na Nevasca, o cineasta retorna ao longa-metragem com I Want Your Sex, uma comédia sexual delirante que recupera algumas de suas obsessões mais conhecidas: sexo, poder, fetiche, juventude, rebeldia e a recusa das normas que determinam como deveríamos desejar. É um retorno menos furioso do que seus trabalhos dos anos 1990 e bem menos caótico do que sua trilogia Teen Apocalypse (Totally F***ed Up, de 1993, The Doom Generation, de 1995 e Nowhere, de 1997), mas ainda reconhecível na maneira como Araki transforma a sexualidade em instrumento de provocação.

A história acompanha Elliot (Cooper Hoffman), um jovem de vinte e poucos anos que consegue um emprego com Erika Tracy (Olivia Wilde), uma artista consagrada, provocadora e assumidamente transgressora. Quando ela o escolhe como seu brinquedo sexual, aquilo que inicialmente parece uma oportunidade profissional se transforma rapidamente em uma experiência de submissão, desejo, obsessão, poder e manipulação. Erika introduz Elliot em um universo que ele jamais imaginou experimentar, colocando em xeque seus limites e, principalmente, a maneira como ele compreende o próprio desejo.

O conflito geracional está no centro do filme. Erika representa uma sexualidade mais desinibida, performática e ostensivamente libertária, enquanto Elliot encarna uma juventude de uma geração que parece rodeada por inseguranças, ansiedade e dificuldade de estabelecer contato fora das telas. A pergunta que parece orientar Araki é bastante simples: por que essa geração não está fazendo sexo?

O diretor associa esse aparente recuo sexual a uma experiência geracional marcada pelo isolamento, pela pandemia, pela adolescência mediada por dispositivos digitais e pelo receio crescente do contato físico. Em vez de tratar essa transformação como simples conservadorismo, o filme tenta investigar o que acontece quando uma geração cresce em um ambiente no qual ser visto, desejado e tocado também pode significar exposição, julgamento e vulnerabilidade.

Há, entretanto, uma questão mais incômoda nessa leitura. A comparação entre gerações não pode ser reduzida a uma simples oposição entre a liberdade sexual de um passado recente e a suposta repressão da juventude atual. O conflito que Araki dramatiza não se aproxima tanto do recalque sexual tradicional quanto de uma relação diferente com o próprio desejo. Ansiedade de desempenho, culpa, necessidade de aprovação e medo da exposição podem produzir comportamentos de contenção, mas não necessariamente significam que exista um desejo reprimido aguardando simplesmente a oportunidade de se libertar.

Essa distinção é importante porque a experiência contemporânea da sexualidade também passa pelo corpo e pelas condições materiais que interferem na libido, na saúde mental e na relação dos indivíduos com o prazer. Dilemas exemplificados na pele do jovem protagonista e na de sua tímida amiga Apple (Chase Sui Wonders) com quem divide apartamento  O filme, porém, tangencia essa discussão sem realmente aprofundá-la. Araki percebe um sintoma cultural, mas sua solução permanece essencialmente cinematográfica: diante de uma juventude aparentemente distante do sexo, ele oferece o excesso sexual como possibilidade de descoberta.

A perspectiva da direção é a de alguém que observa uma transformação geracional e tenta interpretá-la a partir de referências construídas décadas antes. Por isso, I Want Your Sex às vezes transmite a sensação de uma carta de amor à Geração Z escrita a partir de uma nostalgia intermediária, uma fantasia sobre o que foi a liberdade sexual e sobre aquilo que talvez esteja faltando aos jovens de hoje. Araki não tenta reproduzir seu cinema dos anos 1990, mas pergunta o que restou de suas antigas preocupações em uma cultura na qual o sexo passou a ser mediado por novas formas de controle. A diferença é que, desta vez, o cineasta não responde com niilismo. Sua aposta é no risco, no ridículo e na possibilidade de experimentar.

O universo de Erika é construído sobre essa ideia. BDSM, submissão, ménages, fetiches e fantasias aparecem não apenas como elementos de provocação, mas como maneiras de questionar a própria noção de normalidade sexual. O queer, aqui, não está restrito à orientação dos personagens. Está principalmente na maneira como o filme rejeita a existência de uma forma naturalmente correta de desejo.

Nesse sentido, Olivia Wilde parece se divertir enormemente interpretando Erika, quase uma femme fatale, dominadora, devoradora de homens, uma loba do sexo. Ela transforma a personagem em uma figura simultaneamente sedutora, ridícula e ameaçadora. Erika sabe que exerce poder sobre os outros e transforma sua própria sexualidade em instrumento de controle. Seu trabalho artístico, inclusive, parece muitas vezes menos importante do que a capacidade de usar a arte como extensão de seu ego e de seus jogos de poder.

I Want Your Sex evidencia o ambiente artístico em um espaço de vaidade, fetichização e relações de poder, mas essa dimensão nunca parece tão interessada em uma crítica institucional quanto em criar uma moldura camp para o conflito sexual entre seus protagonistas. A provocação existe, mas ela está bem mais modesta do que antes.

Essa mudança de tom talvez seja uma das características mais evidentes do retorno do diretor. I Want Your Sex é mais leve, mais pop, mais polido e mais domesticado. Em alguns momentos, essa escolha funciona justamente porque permite ao filme abraçar o humor e o absurdo sem transformar cada provocação em uma declaração de guerra. Em outros, porém, a suavização também diminui a potência de algumas de suas ideias.

O problema está justamente nesse equilíbrio. A premissa oferece material para uma investigação muito mais perturbadora sobre sexualidade, geração, consentimento, poder e desejo, mas Araki frequentemente prefere a superfície divertida da situação. 

Mesmo assim, há algo genuinamente estimulante em ver Araki retornar ao sexo como matéria cinematográfica. Em um momento em que boa parte do cinema contemporâneo parece ter dificuldade de tratar o desejo sem transformá-lo imediatamente em trauma, discurso ou mecanismo narrativo, I Want Your Sex recupera a possibilidade de enxergar o sexo também como humor, constrangimento, fantasia, descoberta e erro.

E talvez exista uma ironia involuntária nisso tudo: um cineasta que construiu parte de sua carreira sobre a liberdade sexual agora precisa explicar a uma geração mais jovem que o desejo continua sendo uma experiência imperfeita, confusa e potencialmente ridícula. Sua mensagem pode parecer nostálgica, deslocada e até um pouco paternalista em alguns momentos, mas ainda guarda algo essencialmente arakiano: a convicção de que o corpo não deveria ser obrigado a obedecer às regras que o mundo inventa para ele.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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