Mulher Desconhecida | 2026
Se há algo que muito me atrai e interessa na arte cinematográfica é a possibilidade de negar narrativas uniformes, maniqueístas e binárias. A dúvida, a dubiedade, a multidimensionalidade, a afronta, são todos elementos fundamentais não só para a nossa provocação e instigação como espectadores, mas também para confrontar a necessidade humana inconscientemente fabular de atribuir herois e vilões a certas histórias: todos somos seres moralmente duvidosos, sobretudo quando postos à prova, quando tentamos sobreviver.
Não há de se negar que esse tipo de retrato, sobremaneira quando estimula o desconforto do espectador, é um risco assumido por seu realizador. A obra que se dedica a caminhar pelas linhas tênues existentes entre a observação de um comportamento dúbio e o posicionamento com relação a ele arrisca-se a ser interpretada de muitas formas, formas estas que variam conforme a experiência não só fílmica, mas também social, de quem a assiste.
Se todo filme é político ainda que se oponha a o ser, é possível dizer, na mesma medida, que todo filme é parcial mesmo que se esforce por um caráter meramente observacional ou não julgador. As ferramentas da linguagem cinematográfica – o movimento e o posicionamento de uma câmera, o controle da atuação, o roteiro, a montagem, a intensidade da trilha sonora, a fotografia, para citar alguns exemplos mais perceptíveis – são instrumentos do cineasta para nosso direcionamento com relação ao modo como enxergamos e sentimos determinada situação ou comportamento. O cinema de Cristian Mungiu possui, para mencionar um caso concreto, essas características que citamos aqui. O diretor romeno expõe os tantos lados de uma mesma história com tamanha sofisticação que nos constrange a julgar como um juiz o deveria fazer – mas mesmo ali, na discrição, no compromisso com o realismo, há um ponto de vista.
O grande vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza 2026, Mulher Desconhecida, dirigido pela dinamarquesa May el-Toukhy, faz a escolha de andar nos tais limites existentes entre observar e se posicionar, mas pende para o segundo lado dessa balança de uma forma moralmente bastante ambígua – aqui, não só a conduta, mas também o filme assume para si uma posição moral complicada, na medida em que busca justificar, no exame das relações de gênero durante a ocupação nazista da Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial, atitudes que endossam o regime genocida.
Esse estudo é realizado pela diretora a partir da protagonista Marie (Mathilde Arcel, vencedora do prêmio Coppa Volpi de Melhor Atriz em Veneza), uma trabalhadora do lar e babá na mansão do próspero empresário do ramo de luvas, Christian (Carsten Bjørnlund), um homem mais velho e viúvo com quem ela se prepara para casar – a chance, portanto, de ascensão social naquele contexto, onde deixará de ser empregada para tornar-se, em tese, patroa. Ela, entretanto, esconde um passado obscuro que começa a vir à tona na medida em que um movimento de resistência persegue e pune dinamarqueses que teriam, de alguma forma, colaborado com o nazismo durante a ocupação.
É importante, aqui, que se assuma dois eixos analíticos de Mulher Desconhecida – a perspectiva de gênero e o viés fílmico na abordagem da temática nazista. No tangente ao primeiro, May el-Toukhy parte de uma protagonista marcada pela pobreza, – eis a luta pela ascensão social que ela empreende – pertencente à classe trabalhadora, e portanto, explorada em sua força de trabalho, exploração essa que também ocorre em razão do gênero.
Além dos serviços domésticos e maternais – Marie cuida da casa, da rotina organizada e da filha de Christian – para casar-se com o empresário, ela “necessita” cumprir seu papel de noiva e esposa e estar disponível para o sexo, ainda que esse não lhe traga prazer algum. Pelo contrário, a relação sexual com o futuro marido lhe provoca dor sanável apenas com as gotas de opióides que ela toma em razão de uma inflamação grave que carrega em sua genitália, a qual ela mantém em pleno segredo.
Inclusive, a protagonista carrega em si essa atmosfera obscura sobre seu passado, sua personalidade e sua índole que é muito interessante e bem explorada, até certo ponto, pelo filme. Mathilde Arcel atribui à sua personagem uma rigidez e uma introspecção absolutas, conseguindo transmitir com um olhar endurecido os limites que ela impõe às relações ao seu redor – cumpre perfeitamente seus papéis, e é isso que basta ser sabido. O encontro inesperado com um antigo amigo abala suas estruturas firmes, pois tudo aquilo que oculta passa a correr o risco de fazer desmoronar seus planos para um futuro estável e confortável – nota-se que, enquanto mantido o mistério, a narrativa de Mulher Desconhecida caminha lado a lado com a atuação fornecida por Arcel: pouco expositiva, ambígua, mantida no tempo e nas informações contidas no tempo presente.
Não que May el-Toukhy revele demasiadamente o que ocorre no passado – em verdade, não o esclarece abertamente, e isso mantém o filme coerente com toda a dubiedade que propõe, sendo essa uma de suas grandes qualidades. A diretora marca de vermelho o fantasma da Segunda Guerra Mundial que assombra as vidas que permaneceram após seu término: vermelha é a cor que grita nos vestidos e conjuntos de Marie, e vermelha é a suástica nazista com a qual portas são marcadas pela resistência.
A interpretação, aqui, não exige que saibamos detalhes pretéritos. A protagonista observa, muito temerosa – de novo, ressalte-se que a atuação de Arcel é sublime em seus silêncios e aflições – quem são os punidos pelo movimento anti-nazista: corrija-se, as mais punidas, ou seja, as mulheres. Mulher Desconhecida revela um grupo resistente que seria tendencioso a penalizar e expor apenas os socialmente mais fracos, no caso, mulheres pobres e, estimamos, pois o filme não esclarece, que precisaram vender seus corpos para sobreviver, findando por relacionar-se com soldados alemães, e que por isso, são marcadas como colaboradoras do regime.
Veja-se que May el-Toukhy se propõe e se incumbe, assim, um risco imenso ao discutir injustiças e perseguições de gênero ocorridos durante a prática de um totalitarismo genocida, expondo uma Dinamarca que deseja, urgentemente, confirmar-se contra o nazismo após ser forçada a conviver com ele, empenhada em apagar seus resquícios, mas que bem escolhe aqueles que serão julgados para que uma imagem resistente seja construída.
Por outro lado, e aqui, o segundo eixo analítico se impõe, alguns questionamentos se fazem necessários. Como posicionar-se contra a abordagem de um grupo dedicado a eliminar ideais nazistas e seus colaboradores de um país sem relativizar a importância do movimento? Como falar da violência de gênero sofrida por mulheres que, potencialmente, podem ter cooperado para a morte de representantes de outros povos sob o argumento da superioridade racial?
As respostas a tais questionamentos não são fáceis ou simples, mas haveria, de fato, muitos meios de fazê-lo – a caminhada pela linha tênue altamente sensível que mencionamos outrora pode manter-se nos limites e o cinema possui ferramentas suficientes para tanto. E, de fato, Mulher Desconhecida muito bem anda sobre ela eficazmente em sua maior parte. No entanto, esse limite é, desnecessariamente, ultrapassado quando resolve, imprudentemente, chamar de “erros” atos pretéritos que tenham, de forma direta ou indireta, endossado e colaborado para a vigência de um movimento político e ideológico que assassinou em massa mais de 6 milhões de judeus.
Ainda que a protagonista não seja uma adepta fervorosa à ideologia ariana, ao não conhecermos a fundo sua história, a impressão que fica ante a assunção, pelo filme, bem e claramente exposta pelo roteiro, de algum tipo de culpa equiparada a um mero ato falho, é a da relativização da necessidade e importância punitiva de colaboradores do regime. Afinal, colaborar, de algum modo, para o nazismo, pode ser chamado de “erro”? Não se trata, de todo modo, de crime?
Bem-intencionada, May el-Toukhy quiçá tenha buscado priorizar o debate da violência de gênero em detrimento da discussão sobre crimes cometidos contra humanidade – e não haveria problema algum se assim o fizesse, já que a própria autora estadunidense bell hooks, por exemplo, em seus estudos e teorias, expõe situações onde a injustiça de gênero se sobrepõe à da raça, principalmente, quando comparamos posições sociais de homens e mulheres negros. Ou ainda, talvez sua ideia tenha sido apontar para eventuais injustiças cometidas pela resistência – o que é crível e possível de se considerar que tenham ocorrido.
O problema é que Mulher Desconhecida não esclarece injustiças, mas expressamente fala em “erros”. Não se permite, assim, ficar no lugar que inicialmente se coloca – não só sai da observação e da ambivalência sobre a qual tão bem caminhou, como posiciona-se, através de Marie, de um modo a questionar a responsabilização de pessoas relacionadas ao genocídio. Num mundo onde há uma crescente onda neonazista, aí reside um perigo que a humanidade não pode correr – e a belíssima direção de el-Toukhy não faz desaparecer esse risco.
