O Capitão Engarrafado | 2026
A ausência da função paterna na construção da psique de uma criança é tema recorrente na psicanálise. Essa fase é fundamental na formação da personalidade, estabelecendo relações morais e de afeto no âmbito familiar. Para Winnicott, por exemplo, a ausência de figuras de cuidado pode comprometer a composição de um ambiente facilitador, fundamental para o amadurecimento emocional da criança. Nesse sentido, a imaginação pode ser um espaço de elaboração emocional onde a criação de histórias, desenhos e mundos além, ressignificam sentimentos intensos causados por essa falta. É o caso de Caio (Tui Souza Gil), personagem principal de O Capitão Engarrafado, um garoto que lida com suas dores dentro de seu próprio mundo.
O filme mineiro dirigido por Guilherme Reis prefere tratar o tema longe de um drama, como é o caso do popular Central do Brasil (1998), para colocá-lo em um tom fabular que muito se encaixa ao universo fantasioso que antecipamos acima. Já no prólogo, uma das cenas mais interessantes, Caio é retratado como um sonhador que viaja ao espaço dentro de um foguete de papelão para abraçar seu pai astronauta. O quarto do menino é cheio de adereços e desenhos feitos por ele mesmo que fazem referência ao espaço, viagens e outras coisas. Aliás, tudo parecia apontar a uma ideia voltada ao cósmico, inclusive os figurinos com detalhes que lembram estrelas, mas esse pretexto é subitamente abandonado.
O primeiro ato da fábula estabelece a contraposição entre o campo imaginativo de Caio e a realidade que o cerca. Ele vive com a mãe, Vanessa (Kelly Crifer), em uma casa campestre humilde, pequena e com poucas mobílias. Ela acorda cedo para seguir sua rotina na ordenha e na produção de queijos, enquanto o jovem vai para a escola, lugar onde também se perde em pensamentos, embora demonstre, a seu modo, ser racional para resolver uma equação matemática antes de todos os colegas.
Tui Souza Gil é a potência de O Capitão Engarrafado, dando a seu personagem essa dualidade entre razão e imaginação. O sonhador não deixa de ter um olhar sério e inquisidor à mãe sobre a ausência de seu pai. É assim que Reis cria uma tensão crescente com relação ao passado escondido por Vanessa. O que teria acontecido? Ela vive em luto e parece querer preservar seu filho de alguma coisa.
Mesmo com a escalada desse conflito, a fuga imaginativa de Caio se preserva. Ao descobrir uma garrafa com um barco dentro que a mãe escondia no guarda-roupas, passa, então, a conversar com o capitão (Luis Carlos Vasconcelos) que o habita. O sonho espacial do prólogo dá lugar a um sonho marítimo. Nos diálogos secretos que trava com o “pequeno comandante”, Caio revela suas frustrações e o desejo de sair à procura do pai, e assim o faz.
O silêncio de Vanessa evidencia um passado que poderia ser perigoso ao garoto. O melhor seria que não soubesse o paradeiro do pai. Certamente, esse fato aumenta o tom do filme, mas também estabelece um desequilíbrio na narrativa. O medo, um elemento comum às jornadas fabulares, concentra-se na figura da mãe, em contraposição à coragem de Caio, que sempre está disposto a se lançar ao desconhecido.
Enquanto Vanessa hesita, o menino mantém o mesmo ímpeto desde o início. Quando a história do pai é revelada, a resolução não sustenta a tensão construída em torno do segredo. Seria muito mais fácil que a mãe contasse ao filho o que acontecera em sua relação amorosa, em vez de levar ao extremo a angústia da criança.
O Capitão Engarrafado é singelo ao tratar dos traumas gerados pela ausência paterna, e talvez por isso se deixe cair em uma superficialidade oposta ao tema que propunha. Há uma beleza na simplicidade que se faz visível na atuação sincera de Tui e na honestidade do mundo infantil que retrata. Por outro lado, a vivacidade que caberia ao mundo imaginativo de uma criança se perde pela condução narrativa monótona.
