Tudo é Tempo | 2026
Em tempos de polarização e escassez de racionalidade política, torna-se remoto pensar em um cenário no qual eleições democráticas não coloquem em crise e risco a própria democracia em países onde ela vigora. Em tempos onde grandes potências flertam com o neoimperialismo, lideranças centralizadoras e movidas pelo ego dão sinais de autoritarismo e parecem a todo momento querer mostrar suas garras. Oposições políticas são, de fato, fundamentais para que democracias se sustentem. Esquerda e direita são importantes para que um equilíbrio se estabeleça em países que adotam o regime cujo princípio e fundamento é o poder que emana do povo. No entanto, há muito não vivenciamos, no Brasil, movimentos de direita que não pendam para o extremismo.
Em 2002, Lula foi eleito presidente pela primeira vez, faixa que lhe foi transmitida por Fernando Henrique Cardoso, uma disputa que tinha Serra como candidato da oposição. Em 2007, quando reeleito, seu oposto era seu atual vice, Geraldo Alckmin. Bastões presidenciais eram passados de um presidente para o outro sem questionamentos quanto ao poder popular, quanto à consolidada credibilidade das urnas, sem movimentos antidemocráticos. Alguém se lembra como era vivenciar essa rivalidade saudável e até natural e esperada?
Tudo é Tempo, documentário dirigido por Marcos Guttmann e que foi exibido na 50ª Mostra de Cinema Internacional em São Paulo é quase nostálgico ao nos levar diretamente para esses bons ares, ao construir um filme que reflete e observa o modo como a passagem do tempo transforma as pessoas também politicamente, ao acompanhar quatro personagens, distintos em classe social, formação, história de vida e gênero, mas cujas vidas conectam-se por um elemento específico: todos votam no mesmo colégio eleitoral.
O diretor praticou um valioso exercício de paciência. Desde as eleições de 2002, acompanhou esse pequeno grupo – primeiro, ano a ano, depois, quando entendeu que podia levar esse estudo observacional ainda mais adiante, a cada quatro anos até 2022. Nesse cenário, Lula foi eleito três vezes presidente do Brasil, e o tempo, que movimenta o filme, expõe as coerências, incoerências, surpresas, crenças, descrenças e, talvez principalmente, a forma como a personalidade das pessoas se amolda aos contextos e situações.
O exame provocado por Tudo é Tempo instiga porque não se limita à sua natureza política, mas torna-se, sobretudo, uma análise humana. Cria-se, invariavelmente, um vínculo do diretor com essas pessoas – e também nosso com elas. Adentramos, a princípio, suas opiniões políticas. Posteriormente, suas vidas íntimas, seus lares, suas histórias de vida. É sobremaneira fascinante como, diante da câmera, elas se abrem, para que em alguns anos, num novo encontro, sequer se recordem do que disseram outrora – e isso vale, inclusive, para suas perspectivas políticas.
Que uma análise de classe aconteça em Tudo é Tempo é inevitável e natural. Ao abrirem suas casas e suas intimidades, conhecemos o local onde moram, o padrão de vida que levam, estabilidades e instabilidades financeiras e trabalhistas – portanto, a ascensão ou a queda de classes que experimentam são expostas. Essas divergências e convergências exercem papel fundamental na motivação de cada voto revelado.
Permeando a observação de classes, o processo de envelhecimento acontece, outrossim, a olho nu. A cada ano visitado, nos deparamos, sob o olhar terno e gentil do diretor, com as debilidades, doenças, cabelos brancos, solidões, encurvamentos de coluna, aposentadorias e memórias falhas das personagens. Encontramos, porém, muito vigor e vontade de viver, viagens, celebrações de vidas novas e renovações. O tempo marca vidas humanas definitivamente, mas o ser humano mostra-se capaz de adaptar-se e encontrar propósito em todas as fases dessa passagem.
De fato, o maior momento de tensão do documentário é a chegada de 2018. O bolsonarismo criou uma incógnita na estabilidade de opiniões políticas e tememos que essas pessoas que acompanhamos com tanta proximidade tenham sido cooptadas por essa alienação – afinal, há ali esquerda e direita, ainda que não muito bem definidas e em flutuação. Não há como não nos recordarmos das tantas famílias que foram fragmentadas, da quantidade de pessoas que deixaram de se falar em razão da política em prol da violência e do ódio criada pela extrema-direita.
Tudo é Tempo, filme que se deixa levar pelas circunstâncias da vida, nos faz ansiar por períodos politicamente mais serenos — tempos em que quatro pessoas com visões diferentes podiam sentar-se juntas e dialogar sem que os ânimos chegassem a ponto de ebulição causada pelo ódio. É estranho sentir nostalgia política. E se na data em que o filme foi exibido, em 2026, o cenário político era de descrença, hoje, com o início do quarto mandato de Lula, torna-se cada vez mais claro que o mundo está saturado de líderes adeptos do discurso de ódio – e que há, portanto, esperança para a nossa democracia.
