Black Zombie | 2026

Black Zombie | 2026

Antes de se tornar uma criatura do horror, o zumbi foi uma imagem da desumanização.
Um documentário que recupera sua história e reivindica a memória haitiana.

“Haiti is not resilient. Haiti is resistance.” A afirmação funciona como uma chave de leitura para Black Zombie, documentário de Maya Annik Bedward que investiga a origem haitiana de uma das criaturas mais populares do cinema de horror. Ao recuperar a história por trás do zumbi, a diretora propõe uma reflexão sobre memória, racismo e apropriação cultural, questionando o processo pelo qual um símbolo profundamente ligado à experiência da população negra escravizada foi transformado em entretenimento global. O que hoje costuma ser associado a cadáveres ambulantes e ataques de mortos-vivos nasceu de uma realidade muito menos fantástica: a violência de um sistema que procurava retirar de pessoas escravizadas até mesmo a possibilidade de decidir sobre a própria existência.

No Haiti colonial, a figura do zumbi estava relacionada ao medo de perder a vontade, a consciência e a liberdade. Sob o domínio francês, milhares de africanos escravizados eram submetidos a jornadas brutais nas plantações de açúcar, tratados como instrumentos de produção e privados de direitos fundamentais. Nesse contexto, a imagem de alguém condenado a continuar trabalhando mesmo depois da morte adquiria um significado particularmente cruel. O zumbi representava a condição de quem havia sido reduzido à força de trabalho, alguém cuja humanidade fora negada a ponto de nem mesmo a morte significar o fim da exploração.

A transformação desse imaginário em produto da cultura ocidental passa, entre outros episódios, pelo livro The Magic Island (1929), de William Seabrook. O escritor norte-americano descreveu supostos encontros com trabalhadores em estado de transe nos canaviais haitianos, contribuindo para disseminar uma visão sensacionalista sobre o país e suas tradições. Pouco depois, o cinema incorporou essa imagem em produções como White Zombie (1932), com Bela Lugosi, e I Walked with a Zombie (1943), de Jacques Tourneur. A partir daí, o que havia sido uma representação da violência colonial passou a alimentar histórias de ameaça sobrenatural, frequentemente construídas a partir do medo ocidental diante de culturas que não compreendia.

Há uma inversão particularmente reveladora nessas primeiras produções. Em vez de colocar no centro da narrativa a violência sofrida pela população haitiana, o cinema deslocava o perigo para personagens brancos, transformando a possibilidade de perder o controle sobre o próprio corpo em espetáculo de horror inevitavelmente racista. O sofrimento histórico que originou a figura era substituído por uma fantasia sobre práticas supostamente primitivas e ameaçadoras. O zumbi deixava de ser uma imagem da opressão para se tornar uma representação daquilo que o imaginário colonial temia encontrar no outro.

O documentário dedica atenção especial ao Vodou, tradição religiosa haitiana cuja complexidade foi sistematicamente reduzida a uma coleção de superstições e imagens grotescas. Ao reunir depoimentos de sacerdotes, pesquisadores e historiadores, Bedward evidencia a distância entre as práticas espirituais do Haiti e as versões caricaturais difundidas pelo cinema e pela literatura estrangeiros. A associação indiscriminada entre Vodou, feitiçaria e controle de mortos-vivos não é apenas uma simplificação cultural, mas parte de uma longa história de deslegitimação religiosa. Compreender essa diferença é fundamental para perceber o quanto a representação do zumbi também contribuiu para consolidar preconceitos contra uma população e suas formas de expressão.

Ao acompanhar a trajetória da criatura nas telas, Black Zombie observa como ela foi adquirindo novos significados. Com Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero, o zumbi assume uma configuração que se tornaria determinante para o gênero: os mortos retornam em massa, ameaçando os vivos e consumindo carne humana. Décadas depois, essa imagem se espalharia por produções de diferentes escalas e formatos, de World War Z a The Walking Dead, passando por comédias e franquias cinematográficas. A criatura se tornou tão familiar que sua origem acabou relegada a um detalhe pouco conhecido, como se sempre tivesse pertencido ao repertório universal do horror. O filme de Bedward procura justamente interromper essa naturalização, lembrando que até os monstros mais conhecidos carregam histórias e referências culturais específicas.

A investigação ganha amplitude com entrevistas de estudiosos, historiadores, sacerdotes de Vodou e personalidades ligadas à música e ao cinema, entre elas o guitarrista Slash e a escritora Tananarive Due. A diretora também percorre lugares como Haiti, Montreal, Paris e Hollywood, articulando registros históricos, cenas de filmes e imagens contemporâneas. Em uma das passagens visuais mais marcantes, a reconstituição em preto e branco de um homem que deixa um canavial e caminha em direção ao litoral evoca a busca por uma saída, por um lugar onde a vida possa voltar a pertencer a quem a vive. É uma imagem simples, mas que condensa a dimensão humana por trás de uma história frequentemente transformada em exotismo.

A questão, portanto, não se limita à origem de um personagem fictício. O documentário relaciona a construção do imaginário sobre o zumbi à própria trajetória política do Haiti, marcada por intervenções estrangeiras, exploração econômica, dívidas impostas e instabilidade institucional. A representação de um povo como incapaz de conduzir o próprio destino não é independente dessas circunstâncias. Ao longo do tempo, a caricatura do haitiano como alguém submetido a forças obscuras ajudou a sustentar uma visão estigmatizada que desconsiderava sua autonomia e tratava sua cultura como algo a ser corrigido, controlado ou temido.

Existe uma diferença importante entre reconhecer a resistência de um povo e exaltar sua capacidade de suportar adversidades. A ideia de resiliência, quando utilizada sem considerar as estruturas que produzem o sofrimento, pode acabar transformando a sobrevivência em uma qualidade esperada daqueles que são continuamente violentados. O documentário propõe outra perspectiva: a história haitiana não deve ser contada apenas pela quantidade de crises que sua população enfrentou, mas também pelas inúmeras formas de enfrentamento, preservação cultural e afirmação de liberdade que atravessam sua trajetória.

Embora a pesquisa seja rica e reúna depoimentos bastante esclarecedores, Black Zombie por vezes perde força ao acumular referências e abrir caminhos que nem sempre desenvolve com a mesma profundidade. A quantidade de informações pode dispersar a progressão do argumento, sobretudo quando a investigação alterna entre a história religiosa, a política haitiana e as diferentes fases do cinema de horror. Ainda assim, essa amplitude permite perceber como a imagem do zumbi foi sendo modificada conforme os interesses e os temores de quem a representava.

Um dos momentos mais expressivos acontece quando o coreógrafo e sacerdote de Vodou Erol Josué realiza uma dança ritualística nas ruínas de uma antiga plantação de açúcar. Sua presença naquele espaço, acompanhada pela música e pela evocação dos espíritos, confere outra dimensão à investigação. Em vez de permanecer restrito à explicação histórica, o documentário permite que uma manifestação cultural viva ocupe o centro da imagem. É um gesto de afirmação que contrasta com décadas de representações nas quais o Haiti aparecia apenas como cenário misterioso, fonte de ameaças ou objeto de curiosidade estrangeira.

Ao devolver contexto à figura do zumbi, Maya Annik Bedward não pretende apenas corrigir uma informação sobre a história do cinema. Seu documentário questiona o próprio hábito de consumir imagens sem considerar as pessoas e as experiências que foram apagadas para construí-las. O horror, nesse caso, não está somente na criatura que retorna da morte, mas na história de um povo cuja humanidade precisou ser constantemente reafirmada. Black Zombie lembra que, por trás de um dos monstros mais explorados pela cultura popular, existe uma memória que não pertence a Hollywood e que não pode ser reduzida a um efeito de terror.

Author

  • Mari Dertoni

    Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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