Dragões | 2026

Dragões | 2026

A fabricação de um mito político na era das imagens

Em um Brasil que chega a mais um período eleitoral profundamente polarizado, Dragões, documentário de Miguel Antunes Ramos, investiga as imagens que ajudaram a construir Jair Bolsonaro como figura política e a consolidar sua relação com uma parcela expressiva do eleitorado. Com passagens pelo Festival do Rio e pela Mostra de São Paulo, o longa chega ao circuito em um momento no qual as disputas em torno da memória recente do país continuam alimentando conflitos, ressentimentos e diferentes interpretações da realidade. Mais do que revisitar a trajetória de um ex-presidente, o filme procura compreender como se fabrica um mito político, quais mecanismos sustentam sua permanência e o que acontece quando a narrativa construída em torno de uma figura de poder começa se fragilizar.

Dividido em capítulos e composto inteiramente por imagens de arquivo, o documentário reúne lives, vídeos de YouTube, discursos e declarações públicas de Bolsonaro. A investigação parte da obsessão pessoal do diretor por esse material, acumulado ao longo de anos, e transforma o arquivo em um dossiê audiovisual sobre a construção de uma persona política. Para quem acompanhou de perto os acontecimentos retratados, rever essas imagens provoca um desconforto particularmente indigesto. Frases, gestos e cenas que se tornaram parte do cotidiano brasileiro reaparecem em sequência, recuperando não apenas a memória de um governo, mas também a atmosfera de tensão que marcou sua presença em público.

A escolha do arquivo como matéria-prima não é apenas uma solução formal. Ao dispensar imagens produzidas para o próprio documentário, Miguel Antunes Ramos trabalha com os registros que Bolsonaro e seu entorno produziram e fizeram circular. O personagem é observado por meio das imagens que escolheu compartilhar, dos discursos que repetiu e dos ambientes digitais em que construiu sua proximidade com os apoiadores. O filme encontra nesse material uma contradição fundamental: aquilo que parece espontâneo, íntimo e improvisado também participa da fabricação de uma imagem pública cuidadosamente alimentada pela repetição.

O YouTube ocupa um lugar central nessa trajetória. Em vez de depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação, Bolsonaro construiu uma relação direta com seu público por meio de vídeos e transmissões que aproximavam o discurso político da conversa cotidiana. A informalidade, a exposição da intimidade e a repetição de determinadas mensagens ajudaram a produzir uma sensação de acesso privilegiado ao político, como se o espectador estivesse diante de alguém próximo, e não de uma figura que disputava o poder nacional. Ao mesmo tempo, o repúdio à imprensa tradicional contribuiu para estabelecer uma fronteira entre os canais considerados confiáveis por seus seguidores e aqueles apresentados como adversários. A disputa política passava, assim, a envolver também a disputa sobre quais imagens mereciam crédito e quais versões dos acontecimentos deveriam ser aceitas.

É nesse mecanismo que Dragões encontra uma de suas questões mais relevantes: a polarização não se sustenta apenas na divergência entre projetos políticos, mas também na formação de comunidades que passam a compartilhar referências, códigos e interpretações próprias da realidade. Quando a comunicação se organiza em torno da identificação com uma figura e da desconfiança em relação a fontes externas, a imagem deixa de ser somente um registro dos acontecimentos. Ela se torna parte da própria disputa pelo que pode ser reconhecido como verdade. O documentário investiga esse processo sem precisar reconstruir os eventos por meio de entrevistas ou depoimentos explicativos. A repetição dos registros permite observar como determinados gestos e enunciados ganham força pela circulação contínua, até que a presença midiática se confunda com a própria ideia de poder.

A narração que acompanha o filme conduz essa deriva pelo arquivo e dá unidade ao material disperso. Em vez de funcionar apenas como legenda para as imagens, a voz estabelece uma linha de investigação, aproximando o documentário de uma reflexão sobre a maneira como a política contemporânea é construída e consumida. O espectador não recebe apenas uma cronologia da ascensão de Bolsonaro, mas é convidado a observar as imagens como vestígios de um projeto de poder. O efeito é particularmente incômodo quando declarações e aparições públicas, antes absorvidas pelo fluxo diário de notícias e redes sociais, voltam a ser vistas em conjunto. A sucessão revela padrões que a velocidade do consumo midiático pode tornar menos perceptíveis.

A comparação com Independência ou Morte!, pintura de Pedro Américo que integra o imaginário oficial da história brasileira, amplia a investigação para além da figura de Bolsonaro. Dessa imagem é retirada a referência aos Dragões da Independência (cujo nome oficial é 1º Regimento de Cavalaria de Guardas), que são a tropa cerimonial mais tradicional do Exército Brasileiro. Ao colocar em relação a iconografia da fundação nacional e as imagens digitais de um líder contemporâneo, Ramos aproxima diferentes formas de encenar e legitimar o poder. A pintura histórica organiza a Independência como um acontecimento monumental, com personagens, gestos e composição destinados a fixar uma imagem da nação. Já o universo de vídeos, transmissões e selfies parece operar pela proximidade e pela espontaneidade. Apesar das diferenças, ambos permitem pensar como as imagens não apenas representam a história, mas também participam da construção das narrativas pelas quais uma sociedade compreende a si mesma.

O intuito do filme não se concentra em mostrar somente como surge um mito político lá o, mas como ele se mantém e em que condições pode perder sua força. A queda ou o enfraquecimento de uma liderança não apagam automaticamente as imagens, os códigos e os afetos mobilizados durante sua ascensão. O material que ajudou a consolidar uma figura pública também pode ser revisitado como evidência de suas contradições. Nesse sentido, o arquivo não funciona como garantia de uma verdade definitiva, mas como um campo de disputa entre a memória, a interpretação e a possibilidade de reconhecer aquilo que, em outro momento, foi normalizado.

Em um país ainda marcado pela radicalização política, Dragões encontra sua potência na recusa de tratar as imagens como registros neutros ou passageiros. O documentário observa como elas participam da construção de identidades coletivas, alimentam antagonismos e ajudam a determinar quem merece confiança, pertencimento ou rejeição. Ao reunir materiais que circularam durante anos diante dos olhos do público, Miguel Antunes Ramos transforma a familiaridade em estranhamento. O que parecia banal ou inevitável ganha outra dimensão quando visto em retrospecto, compondo um retrato de como a política brasileira passou a se organizar também pela disputa permanente de atenção e de narrativas. Talvez o mito não termine quando sua figura central perde o poder, mas quando a sociedade consegue olhar criticamente para as imagens que o mantiveram vivo.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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