Morro | 2026

Morro | 2026

Entre a violência dos homens e o silêncio dos animais

Lidar com a morte não significa necessariamente aceitar a ausência, mas aprender a existir em um mundo que continua em movimento apesar dela. O luto altera a percepção do tempo, transforma gestos cotidianos e pode tornar a proximidade com outras formas de vida uma maneira de reencontrar algum sentido na existência. Em Morro, segundo longa-metragem de Rodrigo García Sáiz, essa experiência se manifesta em um homem que, após perder o filho, encontra na relação com um animal ferido uma possibilidade de conexão que parecia ter se tornado inacessível. Sem recorrer a grandes demonstrações emocionais, o filme observa como a dor se instala silenciosamente e como o cuidado pode abrir espaço para outras formas de convivência.

Em uma pequena cidade mexicana, Mateo (Gustavo Sánchez Parra) leva uma existência solitária desde a morte do filho, preso a uma rotina marcada pelo sofrimento. Veterinário, ele mantém uma relação cotidiana com os animais, até que é obrigado a tratar Morro, o cachorro ferido de um chefe do crime local. O encontro entre os dois estabelece uma conexão inesperada, que progride lentamente e é capaz de devolver ao protagonista uma sensação de presença, mas que também o envolve nas disputas entre grupos criminosos que controlam a região.

A premissa poderia conduzir a um suspense convencional, no qual o tratamento do animal se torna o ponto de partida para uma sucessão de ameaças e confrontos. García Sáiz, porém, evita transformar a trama em uma escalada contínua de violência. Seu interesse não está na espetacularização do crime organizado, mas nos efeitos que sua presença exerce sobre a vida cotidiana. A tensão se constrói pela expectativa e pela percepção de que qualquer acontecimento aparentemente banal pode desencadear consequências imprevisíveis. Para Mateo, a convivência com Morro abre uma possibilidade de aproximação afetiva em meio a uma existência quase suspensa, na qual o prazer e a espontaneidade parecem ter desaparecido.

A relação entre homem e animal constitui o centro emocional do filme. Incapaz de elaborar plenamente a perda do filho, Mateo encontra no cachorro uma companhia que não exige explicações para sua melancolia. Morro não oferece uma solução para o sofrimento do protagonista, mas sua presença modifica a maneira como ele se relaciona com o mundo. O vínculo entre os dois ganha força justamente por não depender de grandes declarações: são os olhares, a proximidade física e os pequenos gestos que revelam o surgimento de um afeto capaz de interromper, ainda que momentaneamente, o isolamento de Mateo.

Essa aproximação ganha ainda mais força pelo contraste entre os animais e as relações humanas retratadas na narrativa. Enquanto os homens se organizam em torno de disputas territoriais violentas, intimidação e demonstrações de poder, os animais são filmados a partir de uma presença que não depende desses códigos. A natureza oferece outra temporalidade, marcada pela observação e pela continuidade da vida, em oposição à instabilidade imposta pelo crime organizado. Os belos prados, as plantas, os cactos e as flores registrados pela fotografia de Alfonso Herrera compõem uma paisagem que não funciona apenas como cenário, mas como contraponto visual à brutalidade que atravessa a comunidade.

A violência masculina aparece como uma estrutura de poder na qual a força se converte em instrumento de intimidação e em demonstração de autoridade. Os homens em conflito respondem às próprias inseguranças por meio do controle, impondo à comunidade uma rotina de medo e restrições. Essa lógica também revela uma concepção de masculinidade incapaz de admitir a vulnerabilidade sem tratá-la como fraqueza. O poder precisa ser reafirmado continuamente, alimentando um ciclo de ameaças no qual a possibilidade de diálogo cede lugar à necessidade de prevalecer.

Mateo ocupa uma posição ambígua diante desse universo. Embora não pertença ao círculo de poder dos criminosos, vive sob suas regras e precisa negociar com elas para continuar trabalhando. Sua personalidade contida contrasta com a agressividade ao redor, mas o filme não o transforma em uma figura inteiramente exterior à violência que retrata. A morte do filho e a culpa que carrega o afastam emocionalmente do mundo, enquanto sua profissão o coloca diante de uma prática baseada na preservação da vida. Essa tensão torna o protagonista mais complexo: ele não representa uma solução moral para a brutalidade masculina, mas alguém cuja experiência do sofrimento abre espaço para outra relação com a fragilidade.

A linguagem visual acompanha o estado emocional do protagonista. Filmado em 35 mm, Morro privilegia planos abertos nos quais Mateo frequentemente aparece diminuído pela composição, cercado por espaços que parecem exceder sua capacidade de ação. A escolha reforça sua solidão e evidencia a vulnerabilidade diante de forças que não consegue controlar. A câmera observa mais do que explica, permitindo que os enquadramentos e a duração das cenas revelem aquilo que os personagens não dizem. Com poucos diálogos e uma narrativa minimalista, García Sáiz confia na expressividade das imagens para construir a tensão entre os corpos, os espaços e aquilo que permanece fora de campo.

Essa contenção também impede que o narcotráfico seja reduzido a um espetáculo de violência. Os conflitos entre grupos criminosos interferem diretamente na vida da população, mas o filme não depende de confrontos ostensivos para transmitir a dimensão da ameaça. A  violência é mantida fora da tela, nos fazendo experienciar  suas consequências através dos moradores daquela pequena comunidade. O medo está incorporado à rotina, e a aparente normalidade da cidade convive com a consciência de que suas regras podem ser alteradas a qualquer momento por interesses alheios à ela. 

O minimalismo de Morro é, ao mesmo tempo, sua principal qualidade e um limite ocasional. A economia narrativa favorece a construção de uma atmosfera dramática melancólica, mas a insistência em determinados enquadramentos e na progressão lenta das cenas pode tornar o ritmo uniforme. Ainda assim, a escolha de não intensificar artificialmente o drama é coerente com a experiência de Mateo, cuja dor não se resolve por meio de grandes revelações. O filme acompanha pequenas mudanças de comportamento, reconhecendo que, para alguém que se fechou diante do mundo, voltar a estabelecer vínculos já representa um deslocamento significativo.

Em Morro, a relação entre homem e animal ganha uma dimensão política sem deixar de ser íntima. Diante de um mundo regido por embate de forças, o protagonista encontra no cachorro uma experiência que não exige conquista nem submissão. Morro não o salva do luto nem elimina as ameaças que cercam a comunidade, mas permite imaginar uma forma de convivência que rompe com a lógica da dominação, expondo a agressividade e a ausência de afeto em relações sustentadas pelo poder e pela intimidação.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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