Entrevista | Rainer Frimmel, diretor de O Homem mais Solitário da Cidade

Entrevista | Rainer Frimmel, diretor de O Homem mais Solitário da Cidade

Entre o documentário e a ficção, O Homem mais Solitário da Cidade (The Loneliest Man in Town) acompanha Alois (Al Cook) na encruzilhada de ver seu lar e, por extensão, sua própria história, ameaçados pela gentrificação, pela aceleração urbana e pela especulação imobiliária. Esse homem, que parece preso ao passado, acaba por se confundir com o próprio espaço. É um relicário vivo, um pequeno museu ambulante de hábitos, gestos, memórias e afetos que tentam resistir ao tempo. 

O filme, que concorreu ao Urso de Ouro no 76º Festival de Berlim, faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e o codiretor Rainer Frimmel esteve presente na cidade para a estreia do filme. Nossa crítica e coeditora Natália Bocanera conversou com o cineasta, que compartilhou os bastidores dessa abordagem híbrida, discutiu a tênue fronteira entre encenar, documentar e respeitar a personalidade de Al Cook, bem como o modo como a solidão de Alois se conecta tanto a um drama intimista quanto a uma dimensão abertamente política da modernidade. 

Confira a conversa:

Natália Bocanera: Al Cook, interpreta a si mesmo em um filme que transita entre o registro documental e a construção ficcional. Como você e Tizza trabalharam essa fronteira entre observar a realidade e construir uma narrativa cinematográfica? E por que escolher esse formato híbrido, ao invés de um documentário propriamente dito ou de uma ficção convencional?

Rainer Frimmel: Nós começamos como documentaristas. Sempre fomos interessados na realidade e na autenticidade. E estamos sempre procurando por personagens especiais, por indivíduos como Al Cook. Esse tipo de indivíduo, eu acho que não se pode inventar. E, bom, obviamente Al Cook teria gostado que fizéssemos um documentário sobre ele. Mas ele escreveu uma autobiografia de 700 páginas e nós dissemos: “talvez isso já seja o suficiente por agora, vamos fazer uma ficção e você verá que alcançará um público mais amplo também com a ficção”.

E, por outro lado, para nós também era importante contar essa história sobre a gentrificação e sobre como as pessoas estão perdendo seus apartamentos e como prédios inteiros estão sendo destruídos. Então, nós quisemos misturar isso. E, para nós, para cada filme nós tentamos encontrar uma linguagem própria. Os filmes anteriores eram talvez mais parecidos com documentários, e este é mais encenado porque se adequa ao personagem, que é um homem idoso, um amante do blues, que representa essa lentidão de certa forma.

E nós tivemos que convencê-lo: “por favor, seja como você é”, porque ele queria se mostrar de um lado mais descolado, com mais público ou mulheres jovens ao seu redor, e nós dissemos: “não, o público ama você como você é”, na sua linguagem.

Natália Bocanera: Na minha leitura, o apartamento não é apenas o lugar onde Alois vive, mas uma espécie de extensão de sua identidade: os discos, as roupas, as fotografias e os objetos preservam uma vida inteira. Quando ele precisa reduzir tudo o que possui ao que cabe em uma mala, a mudança se torna também uma espécie de deslocamento de si mesmo. Como vocês pensaram essa relação entre espaço, memória e identidade?

Rainer Frimmel: Sim, isso foi algo que decidimos também com ele. O que eu acho que é uma questão tão iminente também. Há tantas pessoas que perdem suas casas agora. E há a questão: o que levamos conosco? E eu acho que a primeira coisa que levamos conosco são as lembranças. Se elas existirem, porque hoje em dia tudo é digital e tudo o mais. Então nós decidimos com ele os tipos de objetos. Obviamente, a fotografia da falecida esposa dele. Acho que em todo o filme os objetos ganham uma grande importância, porque quando você toca neles, tantas memórias vêm à sua mente.

Isso é algo que eu acho muito importante. É também o que queríamos mostrar neste filme: que há novamente um desejo de tocar nos objetos e de voltar ao vinil e a coisas assim, porque o mundo digital tem de certa forma tantas vantagens, mas o que falta é essa sensação de entrar em contato pessoal, em um contato realmente físico. Então nós quisemos dar a esses objetos também uma nova vida. Pessoas jovens compram esses objetos, então eles ganham uma nova vida. Os objetos mais importantes ele leva em sua mala.

Natália Bocanera: O conflito entre Alois e a empresa imobiliária me lembrou Aquarius, do diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho. Você conhece o filme?

Rainer Frimmel: Eu já tinha ouvido falar do filme e aí algumas pessoas me contaram, então eu assisti ao trailer e li sobre a história, e fiquei impressionado com o quão parecida é a história. Então, acho que preciso assistir!

Natália Bocanera: Sim, você tem que assistir! Para mim, os dois filmes são irmãos, realmente dois pontos de vista da mesma coisa. Ambos retratam a resistência à especulação imobiliária, mas, no seu filme, essa resistência parece mais silenciosa, mais gentil e melancólica, marcada pela adaptação em vez do confronto direto. O que te interessou em explorar dessa maneira a resistência ao poder econômico?

Rainer Frimmel: Acho que esse é um tipo de resistência que nós adaptamos para o Al, porque o Al foi a vida inteira uma espécie de resistência contra influências. Ele sempre foi resiliente e tocou o blues do Delta, mesmo que isso fosse um obstáculo. Mas isso também é um tipo de resistência.

Então pensamos que talvez não seria adequado para ele protestar violentamente contra esse despejo. No momento em que ele percebe que não tem chance, ele abre a porta para talvez realizar seu velho sonho de ir para a América. Na mente dele o sonho dele pode se tornar realidade, mas o que significa esse sonho? Porque todos os velhos músicos de blues já faleceram, a América mudou tanto. Na realidade, seria uma grande decepção para ele, talvez, se ele for para a América. Há um ditado de um escritor australiano que diz: “não há nada pior do que quando sonhos” que se encaixa aqui.

Natália Bocanera: Alois parece habitar um tempo próprio, preservando hábitos e rituais que contrastam com as transformações da cidade. Existe uma ternura no modo como a câmera acompanha sua rotina, mas também o risco de transformar esse personagem em um vestígio de outro tempo. Como vocês trabalharam para preservar a complexidade e a autonomia de Al Cook, sem reduzi-lo à imagem de alguém incapaz de acompanhar a modernidade?

Rainer Frimmel: Isso não foi tão fácil, porque ele realmente é uma pessoa cujo horizonte parou nos anos 50. Então ele é apegado a essa época. Ele é contra qualquer modernismo, contra todas as novas influências. Mas o que é muito importante no nosso trabalho é que nós não zombamos de ninguém. Não queremos mostrá-lo de forma ridícula ou algo do tipo. Então isso foi muito importante para nós: não mostrá-lo demais dessa maneira. É uma linha muito tênue, uma fronteira muito delicada. Mas é o mesmo conosco. Nós também talvez estejamos olhando demais para trás, porque obviamente cidades e vilas têm que mudar e se desenvolver. Mas se isso vai na direção de ser normal apenas pelo lucro, então essa é realmente a direção errada.

Eu acho que temos o direito de talvez exagerar um pouco essa história. Mas eu acho que sim, de certa forma, é nostálgico pela melancolia. Eu acho, honestamente falando, que nós também somos um pouco nostálgicos. O que é muito humano, porque cada dia que passa é um dia que se foi e nós estamos envelhecendo e obviamente estamos lidando com isso, e algumas mudanças estão indo rápido demais.

Por exemplo, em Viena, muitos cafés antigos fecharam e padarias antigas fecharam alguns anos atrás, e agora eles seriam tão bem-sucedidos. Os cinemas fecharam. Agora há uma nova onda em que as padarias são tão modernas. E os cafés estão cheios. Você também tem que manter essa linha entre nostalgia e crítica. Isso é às vezes difícil de entender. 

Natália Bocanera: Você trouxe a palavra certa: humano. Eu acho que você respeita essa linha, nós podemos sentir isso no filme. É um filme muito respeitoso e nós nos sentimos muito conectados ao personagem.

Rainer Frimmel: Que bom, porque isso é algo que é muito importante para nós: que as pessoas possam realmente se sentir conectadas. E o que me deixa absolutamente mais feliz é que jovens também possam se conectar. Porque também a solidão dele não é uma solidão no sentido de não ter ninguém ou estar sozinho, porque ele está cercado por música. A solidão dele é incompreendida porque ele vive nesse tempo dos anos 50 ou do blues do Delta, e então esse é o tipo de conforto dele.

Natália Bocanera: Você já antecipou parte da minha última pergunta, na verdade. Você vê a solidão dele como algo pessoal ou também como consequência das transformações da sociedade e da cidade? Em outras palavras, a solidão de Alois é também política?

Rainer Frimmel: Eu acho que o isolamento é sempre, de certa forma, político. A solidão dele é também muito pessoal, porque ele é um personagem muito especial. Quando criança, ele era isolado porque era excluído. Ele gaguejava. Ele era muito inteligente e estava crescendo na classe trabalhadora, e as crianças não gostavam que ele soubesse tudo, então ele apanhava e era sempre excluído. Então, a solidão dele é muito pessoal.

Por outro lado, o isolamento hoje é algo que eu acho que é um fenômeno global também: quando as pessoas são expulsas dos centros das cidades, elas começam a se isolar também porque não têm mais os lugares para onde ir. Os bares e locais assim são muito importantes para uma cidade. Se tudo isso ou todos os cinemas desaparecem, as pessoas começam a se isolar em casa. Então, obviamente, a solidão é sempre uma questão muito política. Mas no caso do Al, ela tem dois lados, um pouco dos dois. 

Leia a crítica de O Homem mais Solitário da Cidade (The Loneliest Man in Town).

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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