O Deserto de Luiza | 2026
O cinema já nos rendeu alguns clássicos “filmes de amadurecimento”, como, por exemplo, Juventude Transviada (1955), Os Incompreendidos (1959) e Clube dos Cinco (1985). Essa amostra já nos revela a versatilidade desse subgênero que transita entre a comédia e o drama, mas também pode explorar dimensões políticas e sociais da juventude, como fez Ken Loach em Kes (1969). Nesse sentido, O Deserto de Luiza parece ter muitas pretensões ao misturar-se um pouco com cada uma dessas vertentes, acrescentando, ainda, uma trama romântica para contar a história de sua protagonista.
No filme dirigido por Alan Minas conhecemos Luiza, interpretada por Nina Prado, que já na primeira cena é lançada ao que seria a sua nova realidade. Sua mãe, Soraya, (Daniela Fontan) sofrendo um surto psicótico, foge de casa e sai correndo pelas ruas do bairro. Logo a adolescente de 15 anos surge em perseguição. Ali é possível deduzir que a relação entre mãe e filha seria ressignificada para que a jovem assumisse a tarefa de cuidados, e é assim que se segue.
Há uma breve retomada do passado para contextualizar a mudança. Um almoço de família feliz, a mãe ainda sem problemas de saúde, mas um pai (André Luiz Miranda) que parece distante, algo que depois se revelará como o propulsor da crise familiar. Quando surge o colapso, essa distância aumenta, de modo que reste apenas mãe e filha, já que também a filha mais nova seria enviada para morar com a tia.
Forçada a ser adulta, Luiza precisa lidar com esse novo dilema: “ser mãe” da própria mãe enquanto dá atenção às suas demandas de adolescente. A partir daí, muitos outros desdobramentos são inseridos na trama. Ela é artista e questiona seu próprio valor na arte, vendo-se privada de exercer seu sonho. É importante dizer que se trata de uma família periférica e negra, logo, essa questão é muito pertinente em tempos em que os discursos meritocráticos tentam deturpar a realidade, e, inclusive, são absorvidos inconscientemente. “Como pode alguém como eu chegar ao sucesso?”.
Em seguida é construída a camada romântica: a adolescente se apaixona por um dos colegas do grupo que a incentivava a desenhar. Surge também uma tensão sobre a iniciação sexual da garota, conflito impulsionado pelo fato de não ter para quem contar, já que sua mãe se mostra incapaz de compreender o drama da filha enquanto sua sanidade se perde.
Lidando com as emoções de uma adolescente que quer fazer arte, estudar, construir amizades, namorar e que precisa amadurecer para ser a responsável pela casa, Luiza cria um deserto em torno de si. Abre mão de momentos que seriam comuns aos jovens de sua idade e tem vergonha de revelar a doença da mãe para seus amigos.
O Deserto de Luiza dá atenção maior à questão dos cuidados às pessoas com problemas psiquiátricos e o quanto essa condição se torna ainda mais complexa em uma classe social baixa. Minas retrata vários momentos de interação entre mãe e filha, levados pela atuação enérgica de Fontan. São cenas angustiantes, mas que perdem potência ao serem conduzidas por um formalismo clássico, enquadramentos e movimentos protocolares que aproximam seus dilemas das telenovelas. Há um flerte, podemos dizer, com o universo teen dos filmes de amadurecimento, aqueles feitos em uma linguagem mais jovial e compatível com demandas das redes sociais. É uma escolha.
Outra linha narrativa aberta pelo roteiro é a de que o pai teria uma amante, por isso abandonaria a família, o que acabou levando a mãe a entrar em crise. Mas isso não é desenvolvido e se mantém em aberto até o final. Outro conflito iniciado em O Deserto de Luiza diz respeito à herança genética que a filha pensa ter. Ela até mesmo sofre delírios com seus desenhos, que a levam a questionar sua sanidade ao compará-la com a mãe. Também algo que não se desenvolve.
Nina Prado tem uma atuação forte e cativante. Naturalmente nos vemos torcendo pela adolescente no caos de suas emoções. Talvez por isso a insistência em tornar a vida da personagem cada vez com mais e mais problemas acabe gerando um efeito de exaustão.
Seu relacionamento também sofre um revés que soa aleatório: quando o namorado, que até então se mostrava uma pessoa boa para Luiza, a trata mal e provoca uma briga entre ela e suas amigas na escola. Progressivamente a narrativa coloca a protagonista diante do abismo, ou, melhor, isolada em seu deserto particular.
O Deserto de Luiza criou muitas pontas para fechar, e acaba não lidando bem com suas pretensões. Parte delas se resolvem com o aflorar artístico da jovem e a aceitação da condição da mãe. Entretanto, não existe profundidade nas questões sociais como menina negra da periferia, nem sobre o romance, que tem uma estranha redenção ao final, nem sobre o pai que é um exemplo da estrutura patriarcal e machista das famílias brasileiras.
