ENTREVISTA | Rodrigo García Sáiz
“Precisamos aprender mais com os animais do que com os humanos nestes tempos”
Em entrevista ao Coletivo Crítico, o diretor mexicano Rodrigo García Sáiz fala sobre Morro, filme que aborda o luto, a violência dos cartéis no México e a relação entre humanos e animais como possibilidade de afeto e reconstrução. Durante a conversa, o cineasta comenta as escolhas estéticas da obra, a parceria com o ator Gustavo Sánchez Parra e a decisão de manter a violência fora de campo para privilegiar uma perspectiva mais humana e esperançosa sobre a realidade mexicana.
Mari Dertoni: Você poderia nos contar um pouco sobre você e a trajetória de Morro até agora? Como é estar no Brasil, apresentando o filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo?
Rodrigo: Sou Rodrigo, diretor mexicano de Morro, e me sinto muito feliz por estar neste festival. Amo o cinema brasileiro, e estar aqui, compartilhando esse momento com o público, significa muito para mim e para toda a equipe envolvida no filme. México e Brasil estão conectados de muitas maneiras, então apresentar o longa em São Paulo é muito especial.
Mari Dertoni: Como tem sido a trajetória do filme pelos festivais internacionais?
Rodrigo: Estreamos no Festival de Cinema de San Sebastián, onde tivemos uma recepção muito calorosa. Depois, fomos para Biarritz, na França, e agora estamos aqui. O interessante é perceber como um filme tão pequeno consegue se conectar com pessoas com as quais nunca imaginávamos que se conectaria.
A história se passa no México, país onde cresci cercado por cães. Eu queria falar sobre a violência que enfrentamos há tantos anos, especialmente aquela relacionada ao narcotráfico e aos cartéis, mas de uma maneira diferente. Minha intenção não era me concentrar apenas nos problemas, e sim na esperança e nas pessoas que continuam vivendo nessas condições.
O protagonista é Mateo, um veterinário devastado pela perda do filho em meio à violência dos cartéis. Em determinado momento, ele perde a esperança nos seres humanos e passa a se aproximar cada vez mais dos animais.
É um filme bastante observacional, com pouquíssimos diálogos. A ideia é fazer o espectador sentir o que acontece entre esses dois mundos: o de um cão, que não julga e só quer dar e receber amor, e o de um homem profundamente ferido. No contato visual com o animal, Mateo encontra algo que lhe devolve um pouco de esperança, mesmo quando tudo parece perdido.
Para mim, era importante não me concentrar na violência ou no sangue, mas na possibilidade de encontrar alguma luz em meio à escuridão.
Mari Dertoni: Em Morro, a relação entre um pai enlutado e os cães se torna uma fonte de conforto e afeto em um mundo marcado pela violência. Como o filme explora o processo de lidar com a perda e aprender a conviver com ela?
Rodrigo: É um filme que fala muito sobre a perda, mas não sobre vingança ou violência nesses termos. Também queria abordar a figura masculina de uma maneira diferente, sem recorrer ao estereótipo do machão nesse contexto de violência.
Mateo é um homem que criou o filho e tinha nele tudo o que importava. Quando o perde, encontra no cão uma relação quase mágica, construída por meio de coisas que não conseguimos explicar com palavras. A ideia do filme nasce desse encontro e de uma pergunta: afinal, quem salva quem?
Portanto, embora seja uma história sobre a perda, também é sobre felicidade e sobre encontrar algum tipo de alívio para os momentos terríveis que estamos vivendo no mundo.
Falo de um lugar pequeno no México, mas acredito que essa história pode se conectar com pessoas que vivem em diferentes partes do planeta e enfrentam situações igualmente difíceis. Precisamos ser mais empáticos e ternos uns com os outros. Acho que, nestes tempos, precisamos aprender mais com os animais do que com os seres humanos.

Mari Dertoni: O filme tem um estilo visual minimalista, com planos longos e abertos, um elenco reduzido e um foco intenso nesse protagonista solitário e melancólico. Como você trabalhou com o ator para construir o personagem? A atuação dele carrega grande parte do peso emocional do filme.
Rodrigo: Desde que comecei a pensar no filme, tinha Gustavo Sánchez Parra em mente para interpretar Mateo. Conversamos muito sobre a vida, mais do que especificamente sobre o roteiro. Também compartilhamos livros e filmes, buscando referências para construir esse personagem solitário.
Gustavo tem algo extraordinário: consegue transmitir muita coisa apenas com o olhar e com a maneira como toca os animais. Ele também gosta muito de cães na vida real, então compreendeu o que eu pretendia construir com essa relação.
Para se aproximar do animal que aparece no filme, Gustavo o levou para casa durante cerca de quinze dias. Queríamos que os dois desenvolvessem uma relação de confiança, algo que seria muito difícil conseguir apenas com a presença de um treinador. O cão precisava se sentir confortável, reconhecer o cheiro do ator e perceber que ele fazia parte de seu mundo. Como o animal não era treinado, esse processo exigiu ainda mais cuidado.
Durante as filmagens, fiquei surpreso com a maneira como Gustavo conseguiu alcançar tudo o que eu procurava. Ele é um ator extraordinário, com grande alcance, mas entendeu que estávamos fazendo um filme silencioso e que precisaríamos nos expressar por meio das ferramentas próprias do cinema.
A proposta era trabalhar com uma abordagem mais clássica e observacional, com planos abertos e espaço para que as coisas acontecessem sem que pudéssemos controlar tudo. Quando trabalhamos com animais, sejam cães ou vacas, precisamos estar preparados para o imprevisível. Gustavo compreendeu isso muito bem, e tenho muito orgulho de seu trabalho. Ele sustenta praticamente o filme inteiro, o que foi um dos meus maiores desafios como diretor.
Não temos efeitos especiais ou muitos recursos externos aos quais recorrer. Desde o início, minha ideia era seguir o princípio de que menos é mais.

Mari Dertoni: Existe uma sensação constante de violência pairando sobre o filme, mas raramente a vemos na tela. Achei essa escolha interessante, especialmente considerando o quanto o mundo retratado é hostil. Por que você decidiu manter a maior parte da violência fora de campo?
Rodrigo: O filme nasceu dessa maneira porque meu foco estava no personagem que vive nesse tipo de lugar e decidiu continuar ali, não na violência em si. Infelizmente, ela está presente. Basta abrir um jornal ou ligar a televisão para encontrar, todos os dias, notícias sobre as tragédias relacionadas a esse problema no México.
Minha intenção era não mostrar sangue ou imagens violentas, mas encontrar uma maneira de contar essa história que nos permitisse sentir a experiência das pessoas que continuam vivendo nessas condições. Queria oferecer alguma esperança.
Chegamos a filmar algumas coisas por precaução, caso precisássemos apresentar mais elementos sobre aquele universo. No entanto, durante a montagem, decidimos retirar tudo isso. Sabíamos que a violência estava ali, e entendemos que não precisávamos mostrá-la para que o público percebesse sua presença.
Achei mais interessante construir uma relação entre Mateo e o cão do que uma relação entre os personagens e a violência. Ela está presente de qualquer maneira, seja nas armas que aparecem pontualmente, seja na possibilidade de Mateo buscar vingança ou tentar escapar daquele contexto. Mas o filme não é sobre a violência. É uma exploração humana de um personagem que deseja mudar de vida e seguir em frente, independentemente das circunstâncias.
Outra coisa muito importante para mim é afirmar que o México é muito mais do que a violência. Existem muitas pessoas como Mateo, que continuam lutando e trabalhando todos os dias em meio a essas situações. Eu queria que o filme também fosse uma declaração sobre essas pessoas.
Quando viajo, percebo que algumas pessoas têm a impressão de que todos os mexicanos são violentos ou estão diretamente envolvidos nesses problemas. Mas há muita gente que não vive dessa maneira e que escolhe, apesar de tudo, ser melhor e preservar sua humanidade.
Mari Dertoni: Depois de assistir a Morro, o que você espera que o público leve consigo? Existe alguma reflexão específica que gostaria que permanecesse depois dos créditos?
Rodrigo: Não tenho uma expectativa muito específica. Quando fazemos um filme, precisamos ser honestos conosco. E realizar um filme, por si só, já é um milagre.
O que acontece entre o filme e os espectadores está fora do meu controle. Espero que as pessoas consigam se conectar com a história e enxergar, por meio dela, uma perspectiva diferente do México. Gostaria que o filme pudesse oferecer algum tipo de alívio por meio da empatia e da ternura, em qualquer lugar do mundo.
Entendo que algumas pessoas talvez não se identifiquem com o filme ou discordem da minha perspectiva. É assim mesmo. Nunca conseguiremos estabelecer uma conexão com todo mundo, porque somos diferentes, pensamos de maneiras distintas e sentimos o mundo de formas diversas. Mas essa é a minha maneira de enxergá-lo.
Mari Dertoni: Uma última curiosidade: você ficou com o cão que participou do filme?
Rodrigo: Eu tentei ficar com ele, mas já tenho outro cachorro que tem um problema no quadril, então não pude adotá-lo. Felizmente, ele está em boas mãos agora.
LEIA A CRÍTICA DO FILME: https://coletivocritico.com/morro-2026/
Esta entrevista faz parte da cobertura da 50a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
