144 – Apocalipse Não | 2026

144 – Apocalipse Não | 2026

O uso instrumental da justiça não como meio de tutelar um direito, mas impor à parte contrária desgastes emocionais e despesas processuais, é o que chamamos, no direito, de judicialização vingativa. Não se procura, nessa modalidade abusiva, a solução de um conflito propriamente, nem mesmo a reparação de algum ou alguns prejuízos – o processo judicial transforma-se em arma de retaliação contra desafetos. 

A judicialização vingativa como ferramenta de distorção da finalidade do processo pode tomar proporções tamanhas que, se organizada de forma estratégica, torna-se institucional. O diretor João Paulo Cuenca é, justamente, uma vítima da institucionalização do uso instrumental da justiça pela Igreja Evangélica, especialmente, a Igreja Universal. O cineasta foi alvo de 144 processos, movidos por pessoas aleatórias, distribuídas em pequenos municípios Brasil afora. Os autores? Geralmente pessoas simples, crentes, com, provavelmente, direito à justiça gratuita, o que reduz o risco da demanda para quem a propõe. E transformou o desgaste judicial em filme.

O documentário 144 – Apocalipse Não é uma trajetória pessoal do diretor de vertentes diversas. Ele almeja, sim, tentar estabelecer algum diálogo com as pessoas que, em tese e formalmente, o teriam processado – e para isso, viaja, com sua equipe, 11 mil quilômetros visitando templos. No entanto, essa procura torna-se, outrossim, existencial, uma vez que junto aos processos civis vieram ameaças de morte, e seus trajetos o colocaram frente a frente com uma população evangélica que oscila entre o extremismo político de direita e a fé genuína de um povo pobre que também é vítima do mesmo sistema institucional religioso.

Existe motivo político e religioso tanto para a propositura dos processos quanto para o número de ações movidas. J. P. Cuenca publicou, em junho de 2020, no antigo Twitter, um post satírico sobre Bolsonaro e a Igreja Universal, parafraseando o sacerdote católico francês Jean Meslier. O post assim dizia: “o brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”. A referência, uma crítica poética à interferência da religião no Estado, era a seguinte: “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Foi o suficiente para o despertar da fúria da Igreja Universal, que convenientemente disseminou a interpretação de que o diretor estaria, dentre outras coisas, ameaçando os pastores de morte.

144 – Apocalipse Não (Imagem: divulgação)

Os 144 processos fazem referência ao livro bíblico do Apocalipse. Seriam 144 mil os servos marcados por Deus que representariam todas as tribos de Israel no fim dos tempos: 12 mil servos para cada uma das 12 tribos. O nível da organização e da estratégia da Igreja Universal na movimentação da justiça para esse caso, de fato, assusta. No entanto, o diretor faz uso da alusão apocalíptica para ditar o tom do seu filme – e trata-se, de fato, da atmosfera que ele vai encontrar em seus percursos.

Sua investigação, a princípio pessoal, encontra um aspecto coletivo e humano de questionamento de fé. A fé que ele encontra nas pessoas o coloca em reflexão a respeito da sua própria crença (ou a falta dela em sentido religioso). Ele se pergunta como seria começar a acreditar e sente inveja daqueles que creem – encontrar propósito para a vida e se conformar com as dores do mundo soa mais simples para essas pessoas.

Chama a atenção o isolamento dos municípios onde os processos foram movidos: só em Tomar do Geru, em Sergipe, foram 44. Em Brusque, no Estado de Santa Catarina, foram 12. Em Altamira, no Pará, 34 processos. Atafona, situada na região fluminense, mais 22. Dourados, em Mato Grosso do Sul, sediou cerca de 30 dessas ações. Em cada um desses municípios, o documentário nos direciona a sinais encontrados do conservadorismo e do fanatismo religioso, representativo de um evangelismo que toma conta gradualmente de esferas da vida cultural e de lazer das pessoas – raves evangélicas, festas de aniversário e teatros com temática religiosa, DJ’s que não tocam música secular, música eletrônica de louvor, rodeios, igrejas monumentais em pequenos municípios, e também igrejas situadas dentro de casas. Cada uma dessas cidades exploradas possui sua própria versão de fim do mundo, que são para nós evidenciadas por essas particularidades.

O papo sobre o fim do mundo está na boca dos pastores e nas catástrofes ambientais, concretas ou conjecturadas, paralelos que 144 – Apocalipse Não traça imageticamente quando sua câmera busca, nas paisagens naturais, sinais divinos – busca, mas não encontra aquilo que seria invisível aos olhos humanos (e cinematográficos) segundo os ditames da fé. 

144 – Apocalipse Não encontra um equilíbrio importante entre o trajeto individual do diretor, a crítica ao fanatismo como modo de controle institucional religioso, sem desprezar, entretanto, a importância de Deus na vida das pessoas simples que encontra pelo caminho. Pelo contrário, há respeito por suas fés, pelas tentativas de conversão que lhe são direcionadas e pelas orações que são feitas por ele. O grande paradoxo é que, nas pessoas que o processaram, ele encontrou muito pouco – foi na exploração do material humano das cidades que localizou, muito de desprezível, sim, mas também uma simplicidade e ingenuidade pouco coerente com o assédio processual.

Nota-se, de fato, pelas investigações de Cuenca, que o fim do mundo é um conceito aderido pelos evangélicos, mas imposto e buscado, ao que parece, pelas instituições e por alguns Estados. O propósito? Não sabemos. Novas teocracias? Em que pese o cenário apocalíptico, 144 – Apocalipse Não é um caminho percorrido através do estudo da crença religiosa cujo resultado é a (re)afirmação de um outro tipo de fé – na arte. Por meio dela, ainda é possível ansiar não pelo fim, mas por tempos melhores, mais gentis e mais esperançosos. É como o diretor, ele mesmo narrador dessa história, desabafa: saudades de quando delirávamos de amor, e não pelo futuro da humanidade.

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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