Vicentina Pede Desculpas | 2026

Vicentina Pede Desculpas | 2026

Lidar com o luto é uma experiência profundamente delicada. É tentar arrancar das entranhas a saudade de quem se foi ou, em alguns momentos, perder o juízo e as forças na tentativa de compreender por que alguém tão querido deixou este mundo. Partindo de um olhar especialmente sensível para essas reflexões, Vicentina Pede Desculpas, novo longa-metragem de Gabriel Martins, que teve sua première mundial no Festival de Toronto 2026, passou por San Sebastián e chega ao Brasil pelo Festival do Rio, acompanha uma mãe que, após perder o filho em um acidente trágico, busca uma maneira de lidar com a própria dor.

O cinema brasileiro contemporâneo tem desenvolvido uma identidade particular ao retratar os afetos cotidianos, as dificuldades e os dilemas das classes populares com delicadeza e uma boa dose de melancolia. Em vez de recorrer exclusivamente à violência e à hostilidade, caminhos historicamente presentes em parte dessa produção, cineastas como Martins, André Novais de Oliveira e Grace Passô, por exemplo, têm explorado a intimidade das relações e as contradições da vida comum.

Em Vicentina Pede Desculpas, o diretor traz novamente a simplicidade da paisagem de Minas Gerais para a tela grande e os espaços cotidianos que marcam o cinema da Filmes de Plástico. Repleto de referências e reencontros com nomes conhecidos da produtora, tanto no elenco quanto na equipe técnica. O filme acompanha Vicentina (Rejane Faria), que recebe a notícia da morte repentina de seu único filho, Wesley (Renato Novaes), um motorista de ônibus na casa dos quarenta anos. O veículo, lotado de passageiros, despenca do alto da Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, em um acidente cujas causas permanecem inicialmente obscuras.

À medida que as manchetes sobre a tragédia se multiplicam, Vicentina se vê cada vez mais devastada. Incapaz de encontrar respostas para o que aconteceu, decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas pessoalmente, em nome de seu filho. O gesto, motivado por uma necessidade de aproximação e reparação, é recebido de maneiras distintas. Ao procurar aqueles que também perderam alguém, Vicentina tenta reconhecer a dimensão da dor que Wesley deixou para trás, mas também busca uma forma de tornar suportável a própria perda.

Essa jornada assume contornos de uma peregrinação, na qual acolher o sofrimento alheio se confunde com a busca por acolhimento. Vicentina conhece Cleide (Thalma de Freitas) e o marido, que ainda convivem com a ausência da filha, uma jovem que acabara de ingressar na universidade e cuja presença parece persistir na casa como um fantasma. Em outro momento, encontra algum conforto em uma festa póstuma organizada por Isabel (Grace Passô) e sua irmã para celebrar os 90 anos da mãe falecida. Ao reunir a família em torno da memória da matriarca, a celebração transforma a morte em uma ocasião de afeto e homenagem, mostrando que o luto também pode encontrar espaço na convivência.

O encontro com Antônio (Carlos Francisco), porém, é marcado pela recusa. Humilde e amargurado pela perda da filha, que contribuía financeiramente para seu sustento, ele rejeita as desculpas de Vicentina, mas aceita a possibilidade de uma compensação financeira. A resposta a atinge profundamente, embora ela siga adiante. O filme não estabelece uma hierarquia entre essas reações, tampouco sugere que exista uma maneira correta de sofrer. Cada família responde à perda a partir de suas próprias necessidades, ressentimentos e condições materiais.

A única sobrevivente a encontrar Vicentina é Amélia, personagem de Bárbara Colen, atriz mineira que também tem uma contribuição importante para o cinema produzido no estado. Colen já havia trabalhado com Martins no curta-metragem Contagem (2010) e, neste ano, integra também o elenco de A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., ao lado de Grace Passô. Lésbica e com a gravidez já avançada, Amélia vive a sobrevivência ao acidente com profunda gratidão, amparada emocionalmente pela companheira. Ao receber Vicentina com carinho, ela revela outra maneira de elaborar a tragédia: em vez de se deter apenas na violência do ocorrido, reconhece a possibilidade de continuar vivendo como motivo de alegria. Seu encontro com a protagonista amplia o olhar do filme sobre o luto, lembrando que a proximidade da morte também pode transformar a percepção da vida.

Ao longo desse percurso, as intenções de Vicentina também se transformam aos seus próprios olhos. O que inicialmente parece um gesto espontâneo, quase desesperado, de aproximação com a dor do outro revela-se, pouco a pouco, uma tentativa de aplacar o próprio sofrimento. A falta de respostas sobre as circunstâncias do acidente amplia sua angústia, até que ela começa a investigar a vida do filho. Ao vasculhar seu quarto e se aproximar de Fred (Giovanni Venturini), seu melhor amigo, percebe que Wesley talvez enfrentasse dificuldades emocionais que passaram despercebidas por aqueles que conviviam com ele.

É nesse movimento que Vicentina Pede Desculpas aborda, sem recorrer a explicações excessivas, a invisibilidade da depressão, especialmente entre pessoas negras e pobres. A questão estabelece um diálogo com a abordagem utilizada em O Dia Que Te Conheci (2023), de André Novais de Oliveira, também protagonizado por Renato Novaes e Grace Passô. Em ambas as obras, a intimidade cotidiana não garante que a dor de alguém seja reconhecida por quem está ao seu redor e evidencia o quão comum é esse sofrimento velado. Nem Vicentina nem os demais familiares parecem ter percebido a dimensão do que Wesley enfrentava. O próprio espectador conhece o personagem apenas por fotografias, lembranças e relatos fragmentados. Mesmo após sua morte, ele permanece uma presença enigmática, cuja ausência mobiliza a narrativa sem que sua interioridade seja revelada.

Nesse processo, Vicentina encontra amparo principalmente na sobrinha Joana (Maíra Azevedo), que lhe oferece apoio emocional incondicional. As duas protagonizam uma das cenas mais comoventes do longa: quando Vicentina parece se isolar e se entregar cada vez mais à dor, Joana atravessa o portão da casa da tia de maneira impetuosa, escorrega, cai aos prantos e grita, expondo a preocupação e o afeto que a movem. A cena traduz a urgência de quem tenta alcançar alguém que está se fechando para o mundo, mostrando que cuidar também exige disposição para se fazer presente, mesmo diante da dificuldade de encontrar as palavras certas.

Essa abertura para o afeto aparece ainda na relação de Vicentina com Bruno, seu outro filho, também interpretado por Renato Novaes, que mora fora do estado. Ao telefonar para ele apenas para dizer “eu te amo”, ela revela uma mudança significativa na maneira de se relacionar com a família. A morte não elimina as dificuldades de comunicação nem resolve todos os conflitos, mas evidencia a importância de expressar sentimentos que, até então, permaneciam quase sempre guardados naquela família. Em meio ao luto e à culpa, Vicentina Pede Desculpas encontra na possibilidade de dizer e demonstrar afeto uma forma de continuar vivendo.

Ao transformar o pedido de desculpas em uma tentativa de reparação, o filme expõe a dimensão política da maternidade em uma sociedade que atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado, pela formação moral dos filhos e pelas consequências de suas ações. Mesmo diante de uma tragédia que escapa ao seu controle, Vicentina assume a tarefa de responder pelo sofrimento que Wesley deixou para trás, como se a maternidade implicasse um compromisso permanente de proteger, compreender e reparar. Essa expectativa não é apenas afetiva, mas social: enquanto o cuidado costuma ser tratado como uma obrigação natural das mães, os limites dessa responsabilidade raramente são reconhecidos. 

Em vez de concentrar o drama na reconstituição do acidente ou na busca por respostas definitivas, Gabriel Martins organiza a jornada a partir dos encontros de Vicentina com outras famílias enlutadas. Cada visita apresenta uma maneira distinta de lidar com a ausência, ampliando o significado da perda sem oferecer uma fórmula para superá-la. 

Vicentina Pede Desculpas amplia essa discussão ao aproximar a protagonista de outras famílias afetadas pela perda, revelando que o luto é condicionado por diversas circunstâncias. A dor de quem perde uma filha que contribuía para o sustento da casa, por exemplo, cria uma ponte entre a vulnerabilidade econômica e a emocional. Nesse cenário, o gesto de Vicentina confronta uma lógica em que o cuidado é individualizado e recai sobre as famílias, mesmo quando elas não dispõem de meios para compreender ou impedir o ocorrido. A busca por reparação se torna, assim, uma tentativa de responder sozinha a uma tragédia cujas causas e consequências ultrapassam sua capacidade de ação. Gabriel Martins questiona a idealização da mãe como figura onisciente e infalível, sem desconsiderar a força dos vínculos afetivos. 

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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