The Bearded Girl | 2025
Um coming of age cheio de daddy issues e crises de identidade
Se na sociedade patriarcal que conhecemos, quem tem barba é quem dá as ordens, em The Bearded Girl, longa-metragem de estreia da diretora canadense Jody Wilson, somos apresentados a uma comunidade matriarcal liderada por mulheres barbadas. Usando o imaginário circense, mas indo além dele, o longa mostra a realidade de uma geração de mulheres que têm um legado e um dever a cumprir com as futuras gerações.
Acompanhamos uma fase da vida da jovem Cleo (Anwen O’Driscoll), filha mais velha de Lady Andre (Jessica Paré), desde a infância, quando, enquanto come milho nos corredores estreitos do milharal da área rural onde vive, percebe que herdou da mãe os fiapos de barba em seu rosto. Daí, nasce a enorme responsabilidade de assumir a liderança que essa herança carrega, mas para a menina que vislumbra romances e almeja ser aceita socialmente, a carga se torna ainda mais pesada. Sua irmã mais nova, Josephine (Skylar Radzion) cresce ilesa a essa característica e isso acaba virando um ponto de atrito na relação de Cleo com sua família, com a comunidade do circo e com os que esperam dela enquanto sucessora.
O longa se esforça em mostrar a autonomia feminina em administrar e cuidar de um lugar. Lady Andre é uma mulher forte e cria suas filhas sozinha com uma rigidez de quem preza pelas tradições e luta, a todo custo, para que Cleo se adapte ao que parece ser seu destino. A diretora, que antes de se tornar cineasta, é especialista em efeitos visuais, tendo trabalhado em diversos episódios da série The Last Of Us, também assina como produtora e roteirista em The Bearded Girl, imprimindo um capricho com as cores em tom vívido e figurinos estilizados.

Cleo cresce e passa a adolescência com vergonha de sua barba, principalmente após ouvir do rapaz bonito, que passa de motocicleta pela fazenda onde mora, comentar com sua irmã (uma jovem loira padrão) que vê as pessoas do circo como aberrações. Ao contrário de sua mãe, Cleo não se orgulha de se tornar uma mulher barbada e decide tomar um rumo diferente. Munida de creme de barbear e giletes, ela tira seu incômodo do rosto e segue rumo à cidade mais próxima, a fim de descobrir coisas novas e viver experiências “no mundo lá fora”.
É incômodo que, de certa maneira, estejamos acompanhando a história de uma menina que quer ser igual as outras, que quer se encaixar nos padrões sociais aceitáveis e que prefere passar pelo sofrimento constante de ter que se barbear todos os dias para esconder quem realmente é. Há uma reflexão sobre a ditadura da beleza e sobre a rebeldia da juventude, mas que às avessas, já que, ao contrariar a vontade de sua mãe, a personagem obedece a ordem natural do patriarcado, almejando coisas comuns, como ter um namorado e se casar, ainda que isso custe bastante para ela.
The Bearded Girl é um coming of age com pitadas fantásticas, enredado pelo universo místico e alegórico do circo, mas que também tenciona sobre o abandono do homem à família, revelando que grande parte dos conflitos e da rispidez de Lady Andre, vem do fato de ser uma mãe solteira, cujo marido a abandonou com duas filhas para criar. O daddy issues parece ser um ponto importante que une essas três mulheres da mesma família, porém, o tema é tratado de forma mais rasa e nas entrelinhas durante quase todo o filme. Os homens são retratados todos como imaturos (e sem barba, risos). O longa perde o ritmo em seu segundo ato e tenta renovar o fôlego ao final, quando Cleo percebe que não dá para ficar fugindo para sempre de si mesma.
Esse texto faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival, acompanhe aqui.
