A Grande Viagem da Sua Vida | 2025
Em Amores Materialistas, a diretora Celine Song aborda o contexto da materialização do amor e o conceito de felicidade na sociedade moderna através de uma protagonista que parece se entender indigna de vivenciar qualquer um desses estados. O longa incorre, porém, num esvaziamento temático que finda por resumir a complexidade da discussão numa mera escolha entre um ou outro parceiro que se compatibilize com a transformação (igualmente vazia) da personagem. A essência filosófica da discussão a respeito da possibilidade do amor no mundo contemporâneo capitalista é abandonada em prol de um drama unidimensional que gradativamente é empobrecido.
O sul-coreano Kogonada resolve, em seu novo longa, A Grande Viagem da Sua Vida, aquilo que Song não parece ter dado conta de fazer. A solução não vem no sentido de caminho único ou de resolução propriamente dita do grande dilema dos relacionamentos, mas na abertura de leques reflexivos infinitos proporcionados por uma viagem forçada ao mais inacessível dos lugares: nosso próprio interior. O diretor usa da economia de personagens e do caráter lúdico possibilitado pelo surrealismo para transformar o que seria a união de duas pessoas pelo destino em uma catança de cacos e estilhaços individuais e autoconhecimento, jornada interna fortalecida pelo apoio mútuo e pelo companheirismo, sem idealizações de sentimentos.
Sarah (Margot Robbie) e David (Colin Farrell) são dois estranhos conectados por elos que poderiam relacionar qualquer pessoa: moram na mesma cidade, Nova Iorque, que comporta outros 8 milhões de habitantes, e são convidados para o mesmo casamento, onde são apresentados. De fato, é o absurdo que vai estabelecer a conexão maior entre eles. Para se deslocarem até o festejo matrimonial, são direcionados a uma estranha agência de aluguel de veículos, cujos atendentes, interpretados por Phoebe Waller-Bridge e Kevin Kline, oferecem os únicos dois carros disponíveis, modelos dos anos 80, desprovidos de GPS, o qual são induzidos a alugar.
É óbvio que quando eles são apresentados durante a festa gera-se, imediatamente, uma tensão sexual logo. É claro que o celular pifa. É evidente que eles só vão descobrir que alugaram veículos e GPS semelhantes após o evento. O carro de Sarah não funcionará e ela precisará da carona de David para voltar para casa. Conduzidos pelo GPS que ganha vida própria e torna-se, ele mesmo, um personagem-guia do potencial casal, os dois iniciam uma jornada de longas estradas e portas no meio do nada em direção à passados que precisam ser curados como forma de entendimento de suas personalidades presentes, e principalmente, suas individualidades como pessoas que se recusam a iniciar um relacionamento entre si em razão da certeza absoluta da frustração, em que pese a atração evidente e o forte sentimento compartilhado.
A dificuldade de se relacionar, o medo de ser ferido que faz, como autodefesa, ferir o outro, a zona de conforto causada pela escolha da solidão, e por fim, a frustrante busca pelo amor e pela felicidade. Do que depende o amor? Amar compreende, necessariamente, conhecer o outro em sua plenitude? Se somos nós seres em constante mutação, é possível conhecer alguém por completo? Se a cada dia somos surpreendidos com mudanças e traços de personalidade desconhecidos, não compreenderia o amor a aceitação da inconstância e da imperfeição? Em que pese a infinidade de reflexões que poderiam aqui ser desenhadas, amar parece ser mais simples do que ser feliz. Se amar implica, e não há como negar, sofrimento, haveria felicidade no amor? Pioramos: existe, de fato, felicidade?
Inconscientemente, estamos buscando pela felicidade a cada dia, a cada atitude, sem realmente refletir questionamentos como os supra levantados. Kogonada induz Sarah e David a enfrentá-los, quase que de forma obrigatória, não fossem as escolhas e o absoluto descontrole do resultado do isolamento de duas pessoas. São (fortemente) influenciadas e guiadas a usufruir da pausa imaginativa do tempo imposta pelo surrealismo, para desafiarem-se em suas jornadas existenciais de autoanálise e compreenderem, primeiramente, a si mesmas, para depois, entenderem o outro. A jornada que dura uma viagem vem como representação de toda uma vida, onde o terceiro não é aquele que amará incondicionalmente, mas que utilizará do amor possível e praticável para o apoio mútuo de trajetórias individuais como essas.
As portas que se abrem acessam episódios passados relevantes aos personagens e suas personalidades: uma tragédia pessoal, uma declaração de amor, uma apresentação escolar, uma ida ao museu, um diálogo e principalmente, conflitos e aconchegos familiares que vão justificar o “eu” contemporâneo. A Grande Viagem da Sua Vida não idealiza ou dramatiza excessivamente o passado, mas permite a Sarah e David a prática do autoperdão e da autoreconciliação, como forma de fabular, sim, o presente. Principalmente através dos elementos e fenômenos naturais, como chuvas que se iniciam e cessam repentinamente, pôr-dos-sóis absurdamente alaranjados, luzes solares estrategicamente posicionadas, ou ainda, em seu ápice fantástico, o descanso no topo da montanha com vista para o planeta Terra, é que o diretor vai construir atmosferas românticas que gritam pela união do casal. Os pontos de atrito, porém, serão empecilhos para que essa visão fenomenal e ilusória do amor predomine.
O grande êxito de Kogonada é, justamente, a construção de um ambiente idealizado, fabular e onírico que propicia reflexões humanas, mundanas e realistas, que não se contaminam pela idealização. O diretor parece referenciar a própria arte de fazer cinema como artifício de encenação e criação de situações imaginárias que nos levam a acessar lugares que, sem a ilusão, não seriam acessados, mas que vão tocar diretamente naquilo que é palpável e real. Os protagonistas, amantes de musicais, posicionam-se e dialogam em palcos por diversos momentos do filme, sendo a própria agência de aluguel de carros claramente um estúdio cinematográfico. Usa-se da encenação como método e meio para o alcance da realidade.
O diálogo com o filme de Celine Song não se esgota na temática principal. Enquanto a melancolia que emana de muitos momentos de Amores Materialistas como representativa do estado emocional perdido dos personagens dá lugar a uma idealização incoerente com o propósito de sua protagonista, em A Grande Viagem da Sua Vida Kogonada faz da melancolia o sentimento que apropriadamente vai se opor à fábula, como elemento necessário à viagem existencial, e que vai manter o filme firme com seus pés no chão.
É curioso, ainda, como as mulheres de ambos os longas constroem autopercepções um tanto cruéis, como um escudo protetor ou mesmo para transmitirem uma imagem mais forte e resistente delas mesmas. Tanto Sarah como Lucy (Dakota Johnson) afirmam serem pessoas condenáveis e horríveis, e é fácil ao espectador perceber que não o são, de modo algum. Tal semelhança parece dizer muito a respeito da exigência social sobrehumana imposta às mulheres em prol de atenderem a um certo padrão de gênero. A fuga do padrão comportamental esperado, como, por exemplo, por admirem-se como mulheres que traem ou que escolhem seus companheiros com base no capital, as fazem perceberem a si mesmas como vilãs.
A Grande Viagem da Sua Vida nos convence, com sua ilusão minimalista e através da encenação dos palcos e cinemas, o que deveria ser óbvio para a manutenção de qualquer saúde mental: a felicidade é inatingível, e buscá-la como mote de vida pode ser insano. A vida é composta de momentos de contentamento, oscilantes com outros onde haverá tristeza, e nossa jornada diária é atravessá-los. Se na viagem carregarmos na bagagem um pouco de autoconhecimento, haverá aceitação, e pode ser que as frações de contentamento se multipliquem. Se estivermos acompanhados nesse trajeto, um tanto melhor – a partilha nos conforta.
