Provas de Amor | 2025
A luta por direitos civis da população LGBTQIA+, em qualquer lugar no mundo, é uma construção de tempos e esforços que alcança conquistas a passos muito lentos. Cada progresso, entretanto, é seguido por outras inúmeras tentativas de retrocesso, principalmente, num mundo em que o conservadorismo que acompanha a extrema-direita é uma crescente em escala global. Na França, o direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo só foi legalmente reconhecido em 2013, pela Lei 2013-404, apelidada de “Mariage pour tous“, ou seja, há pouco mais de 10 anos – o que se revela uma vitória muito recente para ser tida como irrevogável. É fato que governos vêm e vão, de modo que inexiste perenidade de garantias, pois direitos são mutáveis a cada posicionamento político vigente no poder. Eis aí a importância, por exemplo, de estabelecer cláusulas pétreas, que ainda assim, em regimes autoritários, pouco significam. Basta uma pessoa com poder absoluto para a queda de todas as outras que se opõem a ela.
Veio o permissivo legal do casamento homoafetivo, mas não a facilitação do direito à reprodução e à filiação. Para os casais lésbicos, a possibilidade de reconhecimento da parentalidade pela pessoa não gestante não acompanhou a evolução da legislação francesa, e somente em 2021, com a nova lei de bioética (Lei nº 2021-1017), é que foi possível que duas mulheres pudessem ser reconhecidas legalmente como mães – a mãe gestante, de forma automática; a não gestante, via notarial ou judicial, procedimento simplificado pela lei.
O caminho árduo desse procedimento burocrático antes de 2021 é retratado em Provas de Amor, de Alice Douard, longa exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2025 e na competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Os impasses políticos desse período da história francesa que precedem a lei de 2021 são rapidamente contextualizados antes que nos seja apresentado o casal Céline (Ella Rumpf) e Nadia (Monia Chokri). Nadia está grávida de 6 meses, e Céline, para que seja reconhecida como mãe, precisa reunir 15 testemunhas dispostas a escrever cartas que atestem o seu desejo de ter filhos e constituir família. Entre a escolha das testemunhas, a burocracia e as inseguranças relativas à maternidade e ao parto, a mãe não-gestante vê-se em confronto com sua própria mãe, Marguerite (Noémie Lvovsky), uma pianista famosa com quem mantém uma relação distanciada, pois precisou afastar-se da criação da filha em prol da própria carreira.
As “provas de amor” do título aludem, num primeiro olhar, as cartas testemunhais necessárias para a legalização da condição materna de Céline. Entretanto, Douard submete o casal a inúmeras outras provas, a incluir, o próprio sonho de maternar, seus mitos e idealizações. A maternidade não só coloca uma nova pessoa ao mundo, mas transforma radicalmente quem se torna responsável por ela. As mudanças, que são físicas, emocionais, psicológicas e profissionais, são refletidas pelas personagens, que mesmo apaixonadas, veem a relação, outrossim, ser testada diante da instabilidade e transitoriedade de tudo que as cerca e as confronta durante a gestação, principalmente como casal lésbico, que precisa lidar com situações de evidente homofobia, despreparo e falta de tato de pessoas dentro de seus próprios seios familiares e de amizade.
Alice Douard prefere fazer de Provas de Amor uma comédia dramática, evitando que os entraves políticos e sociais inerentes ao relacionamento homossexual falem mais alto que os anseios e desejos do próprio casal e permitindo espaço para que, prioritariamente, manifestem, em meio às inseguranças, o amor que sentem uma pela outra. Adere, inclusive, às cafonices afetivas de cinema que aqui são muito bem-vindas e merecem ser apropriadas, como, por exemplo, quando Céline, que é DJ e produtora musical, vai com a esposa grávida em uma balada LGBTQIA+, e lança beijos à distância e declarações de amor proporcionadas pela letra de uma música que toca.
Com inspirações notórias em Sonata de Outono, de Ingmar Bergman, por outro lado, a relação entre Céline e Marguerite é uma versão um tanto mais suavizada em comparação à de Charlotte (Ingrid Bergman) e Eva (Liv Ullmann), muito embora ambas carreguem máculas por romperem com as relações maternas socialmente tradicionais. Tanto Marguerite como Charlotte são pianistas de sucesso, e para assim serem reconhecidas, precisaram abdicar da vida doméstica, o que, invariavelmente, significou um afastamento físico da criação dos filhos. A culpa pela priorização da carreira e a ideia da imprescindibilidade da presença materna na infância abrem abismos entre pessoas vinculadas pelo sangue e pelo cordão umbilical, mas de afeto mútuo carregado pela insegurança.
É evidente que Provas de Amor mostra-se uma variante bergmaniana notavelmente menos melancólica, incômoda e dolorosa, já que aqui há dor, mas também há riso fácil e emoção. O distanciamento entre mãe e filha é reversível, e Douard permite leveza e redenção ao que se mostra, posteriormente, uma bonita troca geracional entre mulheres.
