O Sítio | 2024
Proteger os filhos da violência do mundo é, certamente, uma das tarefas mais complexas dos pais, ainda mais em tempos onde as informações chegam instantaneamente pelas telas dos celulares. A casa deveria ser espaço de segurança, mantendo o perigo do lado de fora e a pureza das crianças intacta. Mas quando ela é violada, revela-se não apenas a preocupação com a ameaça, como também o infinito jogo moral que é a construção de caráter. Enquanto se afastam os males, não se reconhecem as pequenas agressões que já foram normalizadas dentro do próprio seio familiar.
O Sítio, filme argentino dirigido por Silvina Schnicer e com coprodução brasileira, transforma essa intrincada dinâmica de comportamentos no arcabouço do suspense que envolve os pais, Rudi e Silvia, e seus três filhos, Martín, Federico e Silvina. Ao chegarem na casa de campo para as férias percebem que ela foi invadida, restando resquícios de festa e bebedeira em todos os cantos, mas sem pistas de quem esteve ali. Então, a saga de Rudi é especular com os vizinhos sobre a autoria da invasão e pensar quais medidas de segurança devem ser tomadas por todos. Enquanto isso, os irmãos se divertem com as outras crianças da redondeza.
O mistério da situação e a resolução pelos adultos não é o foco da narrativa. O que nos guia desde a primeira imagem na projeção é o olhar infantil, principalmente a partir de Martín, o mais velho, e Federico. A pequena Silvina ainda precisa de cuidados mais próximos da mãe e por isso não está o tempo todo com os outros dois. Os meninos funcionam como dois pólos da história, tese e antítese, que, por fim, reflete na menina, a síntese. Se Martín é enigmático e, por vezes, assustador, quase sempre com olhar frio e distante, Fede é mais delicado e doce.
Nas aventuras infantis o primogênito é o guia que leva o irmão para explorar a floresta e uma casa abandonada na vizinhança. É quando os dois passam a compartilhar um perigoso segredo que ganha importância maior do que a invasão da casa. É a violência que, longe dos olhos dos pais, chega até os filhos e, então, passa a moldar seus comportamentos.
Schnicer e a direção de fotografia, por Iván Gierasinchuk, têm uma escolha acertada em colocar O Sítio sempre de modo turvo, nebuloso, assim como é o roteiro que pouco nos revela as situações, o que engrandece a tensão no filme. Tudo é muito cinza e gélido, o que só se contrapõe com o simbólico interesse de Martín pelo fogo, que diz muito sobre sua personalidade no decorrer da trama. Outro elemento que evidencia a pretensão da cineasta em causar aflição no espectador é a antecipação do som em algumas cenas, como, por exemplo, quando ouve-se algo queimando para somente depois mostrar o que é.
Os pais, mesmo que em segundo plano, se relacionam com as crianças de formas diferentes, e que, como dito, nos fazem pensar sobre a relação do microcosmo familiar com o macrocosmo social. Rudi tem um comportamento estranho, mais bruto, enquanto Silvina é mais acolhedora e sutil. Não por acaso Martín parece estar mais próximo do pai e Fede da mãe. Se os adultos passam o tempo todo preocupados com a violência desconhecida que vem de fora, ignoram os pequenos gestos que dentro da própria casa também podem despertar agressividade nas crianças.
Quando se revela o segredo dos irmãos a atitude do pai é a de esconder, enterrar o fato e qualquer indício de brutalidade que tenha advindo da família e passado para o caráter das crianças, principalmente para Martín. O trauma é negligenciado para se manter as aparências que uma família de classe média supostamente deveria ter.
Não é difícil perceber em O Sítio referências de O Pântano, de Lucrecia Martel, A Fita Branca, de Michael Haneke, Veneno Para as Fadas, de Carlos Enrique Taboada, ou, ainda, de Cría Cuervos, de Carlos Saura. Todas essas obras abordam a infância e o grande dilema que é a construção moral nesse período. Longe da genialidade destes filmes, Schnicer consegue construir um suspense eficiente que trata de dilemas importantes do caráter humano, bem como a psicologia infantil e as dificuldades da educação.
