Hamnet: A Vida Antes de Hamlet | 2025
Desaprendemos a nos encantar com a arte. A transformação da expressão artística em indústria e propriedade massificou o que atualmente se nomeia como produção. Filmes, peças de teatro, músicas, pinturas, poemas e livros tornaram-se consumíveis, produtos numa prateleira infinita de possibilidades que busca atender aos mais variados gostos de seus consumidores. A paciência para sua apreciação plena, para a proposta de imersão num tempo que corre paralelo e diferente do nosso, tornou-se escassa.
Recordamo-nos qual foi o encantamento de se experienciar a arte pela primeira vez? Provavelmente não, já que, pessoas como essa que vos escreve e você que a lê, foram com ela estimuladas e enriquecidas como seres humanos em formação. Quantas vezes já paramos para pensar como seria assistir a um filme pela primeira vez? Qual seria a sensação que o teatro nos causaria se nunca tivéssemos tido acesso a ele? Dentro de nossas bolhas, esquecemo-nos de outros tempos, e de outras pessoas ao redor do mundo que coexistem conosco e que nunca puderam ir ao cinema (ou mesmo nem sabem o que é cinema), ou seja, desconhecem os efeitos de adentrar mentalmente em outras realidades por um tempo determinado, absorvendo sensações e sentimentos que não são os nossos, vivendo situações que não nos pertencem, e com isso plantando sementes de sensibilidade, de empatia, ou mesmo de ansiedade e agitação, em seus interiores.
Repito: desaprendemos a nos encantar com a arte. Mas podemos, através dela própria, reaprender a dar os primeiros passos e absorvê-la como se fosse a primeira vez. Chloé Zhao propõe uma conexão paciente com as raízes da terra e da arte para nos permitir redescobrir esse encantamento em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que foi adaptado da obra literária de Maggie O’Farrell e imagina momentos da vida de William Shakespeare (Paul Mescal) e sua família, a esposa Agnès (Jessie Buckley) e os três filhos, que antecederam a escrita de Hamlet, obra-prima do dramaturgo.
O registro histórico que se tem de William e Agnès Shakespeare é parco: o casal teve filhos e uma tragédia devastou a família. Sabe-se que Hamnet e Hamlet são variações de grafia do mesmo nome. Todo o restante é poesia imaginativa, é ficção que permite dar vida a uma história trágica daquele que escreveu tragédias como ninguém. Nessa tragédia, entretanto, há duas pessoas, William e Agnès, seres de línguas e linguagens distintas, que se unem pelo amor e pela dor – o amor é um, a dor também.
A tradução do que se sente é terra para um, é palavra escrita para o outro, e a comunicação entre eles se dá para além da troca física de afetos, através desses elementos. Forças da natureza e artística se atraem e naturalmente se complementam, mas são desconhecidas uma da outra. Não há gênios e deuses em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Há, sim, uma história de amor e de vida a dois igualmente difíceis, em que a compreensão mútua da necessidade de cada um age como chave para a maturidade afetiva. Chloé Zhao não faz de sua obra uma ode ao escritor, ao homem por trás dos clássicos, mas parte das raízes elementares e instintivas da mulher que carregou em seu ventre a vitalidade que teria inspirado sua obra-prima para alcançá-lo como ser humano palpável. E Clarissa Pinkola Estés empresta substância à construção da protagonista dessa vida imaginada: a mulher selvagem que habita Agnès em plenitude.
“Se você alguma vez foi chamada de desafiadora, incorrigível, saliente, esperta, insubmissa, indisciplinada, rebelde, você está no caminho certo. A mulher selvagem está por perto.”
No livro de 1992, Mulheres que Correm com Lobos, Estés se debruça sobre mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem e como a sociedade atua de forma a esmagar a natureza instintiva feminina, estrategicamente afastando-a e reprimindo-a de seu verdadeiro eu em prol de uma dominação cultural e comportamental. Através dessa análise, a psicóloga americana resgata as antigas qualidades e vigores femininos, os “antigos poderes” presentes no inconsciente selvagem que toda mulher carrega como essência, propondo uma reconexão.
Agnès é a mulher selvagem em seu estado natural, insubmissa, obediente às suas próprias intuições, necessidades e instintos, viva e pulsante em meio à opressão que lhe sonda, que lhe chama de bruxa, que tenta calar seu chamado para a terra. Motivada pela energia da mulher selvagem de suas ancestrais, seu lugar seguro são as raízes de uma árvore imensa, são as plantas cujas propriedades ela conhece tão bem, é o falcão que pousa em seu braço para se alimentar de carne crua. Chloé Zhao dá à Jessie Buckley vestidos em tons vermelhos terrosos que se complementam ao verde dos espaços que a sua personagem gosta de habitar. Em seus momentos de conexão, em que mulher e ambiente parecem falar a mesma língua e ela deita-se sobre a terra, o som formado pelo vento que ela parece dialogar é etéreo, imergindo-nos em uma atmosfera espiritual e meditativa.
Momentos meditativos dão espaço à observação. A câmera da diretora, que por vezes flutua ressaltando a espiritualidade do longa, assume plongées de caráter observacional melancólico, como se forças opostas estivessem apenas aguardando o momento para inserir a tragédia. Ao colocar-nos em tal ângulo, Zhao nos tira do lugar de quase participantes da imersão, para inserir-nos diretamente na posição de observadores-espectadores que assistem à história de vidas que foram reais, mas cujas nuances estão aqui sendo imaginadas, e que assim como essas sombras de mau-presságio, aguardam o desequilíbrio. Não à toa, a diretora passeia pelos personagens até deixá-los em extracampo, forçando-nos a imaginar um pouco mais. O menino Hamnet (Jacobi Jupe), herdeiro homem dos instintos selvagens da mãe, quebra a quarta parede para falar diretamente com essa presença quase que fantasmagórica, que somente ele percebe – e que não deixa de ser também a nossa presença.
William Shakespeare (cujo nome só ouvimos uma vez durante todo o longa) não deixa de ser um distúrbio no equilíbrio mulher-natureza que Agnès estabelece, mas o amor também é ímpeto instintivo. Trata-se de um homem oprimido por rejeitar ser a força de trabalho bruta exigida pela sociedade, porque sua linguagem e sua sobrevivência é a escrita, e é através dela que ele é capaz de alcançar sua plenitude como ser. Portanto, são de duas pessoas que desejam não obedecer a ninguém além de si mesmas e as necessidades de suas almas. Ou, como dito pela própria protagonista, pessoas que não são deste mundo. O sentimento os une, mas não deixa de ser porta de acesso para submundos desconhecidos.
A presença reiterada do mito de Orfeu e Eurídice em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, para além da contação de história – é a partir dela que Agnès começa a ter contato com a arte e a conhecer a relação artística do marido – é símbolo desses submundos nos quais os personagens vão adentrando. Orfeu amou tanto Eurídice que foi até Hades, no reino dos mortos, para trazê-la de volta à vida. Amou tanto que a única condição que lhe foi imposta, não foi capaz de cumprir, e ansioso, olhou para trás para vê-la antes da hora, o que lhe era proibido. Perdeu-a, assim. Zhao insere muitos portais como simbolismo do mito: o buraco nas raízes da árvore sob as quais Agnès dá à luz à sua primeira filha, a porta da igreja onde eles se casam, onde ela convida o marido a olhar para trás, a desobedecer. Há consciência da escuridão, mas, ainda assim, o amor, que ali paira tão sobrenatural quanto a morte, é mais forte.
Se Hamnet: A Vida Antes de Hamlet posiciona Agnès como seiva nutritiva desse organismo magnificente que é a floresta e vice-versa, mas cuja troca será falha no momento em que a sombra, que antes apenas pairava, torna-se real, é na arte de Shakespeare que ela finda por descobrir um complemento ao poder curativo das plantas que ela já conhece. A protagonista enfrenta o submundo desconhecido do marido e sua obra de arte, e descobre um novo encantamento. A cura do que parece incurável transcende o que a terra ensina, e a compreensão dessa transição é a expressão inesquecível de uma arrebatadora Jessie Buckley, tradução do aprendizado do poder sagrado da arte.
