Vulgo Jenny | 2026

Vulgo Jenny | 2026

O empoderamento feminino se reveste de muitas formas, tantas quanto a infinitude de indivíduos que há. O conceito geral diz respeito ao controle da mulher sobre sua própria vida, mas o modo como se concretiza essa autonomia é peculiar de cada uma. Para Jenny (Juliana Dalle), personagem de Vulgo Jenny, filme goiano realizado com orçamento de curta-metragem dirigido por Viviane Goulart, sentir-se empoderada é ter coragem de escapar de um relacionamento abusivo que lhe proporcionava estabilidade financeira, para encontrar seu lugar no mundo colocando homens aos seus pés sem a eles se submeter, sendo por eles sustentada sem deixar de trabalhar, ter direito a beber e fumar sem julgamentos e ditar as regras de seus relacionamentos – quem com ela quiser ficar, precisará se conformar que ela não se satisfaz com um parceiro único. 

Essa mulher, que ganha a vida vendendo água no semáforo, só deseja desopilar no fim de seu dia. Entretanto, sua história, concomitantemente universal e peculiar, é uma versão fictícia inspirada em Danny, a figura real com a qual a diretora pretendia filmar. A ficcionalização de sua vida sofre dupla interferência: a da própria diretora, que transforma-a em filme, e a realizada por Marco Coimbra, conhecido como Marcão, um contador de histórias cuja satisfação é escrever sobre o que lhe contam as pessoas que passam por ele, com pitadas de invenção e hipérbole. Temos, portanto, uma história fictícia criada a partir da história real de Jenny, que é transformada por Viviane Goulart em um cinema periférico, divertido, que prega peças com uma montagem de idas e vindas e brinca com o espectador.

Todas as personagens de Vulgo Jenny possuem suas versões reais, algumas delas presentes no filme interpretando a si mesmas, como a própria Danny, que se apresenta na introdução do filme para abrir espaço à atriz que a interpreta, e o escritor Marcão, responsável pela narração pontual que insere toques de humor e nos esclarece pontas que durante a obra vão se soltando. O formato híbrido desperta curiosidade porque não sabemos o limite da invenção, ficando a critério do espectador conjecturar o que é real e o que é contação de história – e descobri-lo nem importa. 

A história de Jenny, porém, carrega consigo seus relacionamentos, e portanto, não é somente sobre ela. Seus homens, Primo (Fred Praxedes) e Rato (Allan Jacinto Santana) aprenderam a conviver e se suportar como condição para se manterem próximos dela, e emprestam ao filme suas próprias vivências – tanto que a presença deles parece maior em tela do que a da própria Jenny, o que soa um pouco contraditório, visto a proposta de empoderamento e o título. É provável que pelo limite de orçamento tenham sido poucas as oportunidades de filmagem com todos os atores em tela, pois o longa dedica muito tempo às vaganças de cada um dos três pela cidade. No entanto, fato é que quando há o encontro, a presença da Jenny de Juliana Dalle é arrebatadora a ponto de preencher, facilmente, com vigor, a tela.

Goulart insere em Vulgo Jenny imagens cotidianas do Coimbrão, região de Goiânia onde se passa o filme, e boa parte de sua duração é composta desses registros. Contudo, o excesso delas causa à narrativa certa confusão, atribuindo ao espectador a função de presumir certos fatos importantes à história que está sendo contada por Marcão que não são facilmente constatáveis. Muito embora a montagem aposte na brincadeira do vai-e-vem que dá graça ao filme, a impressão é que alguns acontecimentos não são concluídos.

Vulgo Jenny não só diverte como contação progressiva de história, mas dá ao cinema de empoderamento feminino uma nova faceta: queremos mais mulheres periféricas e de corpos diversos em tela, livres para jogar bilhar, frequentar bares com as amigas, beber uma cerveja e se divertir sem compromisso algum com os homens ao seu redor.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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