Yellow Cake | 2026
Em Yellow Cake, novo longa de Tiago Melo, o sertão da Paraíba é transformado em um território de especulação científica e pesadelo político. Estreado mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o filme se passa em um futuro próximo o suficiente para ser reconhecível, partindo de um colapso sanitário provocado pelo mosquito Aedes aegypti, para expor uma engrenagem mais profunda: a reincidência histórica da exploração de territórios e recursos em nome do progresso.
Yellow Cake opera como ficção científica apenas na superfície e expõe a crença de que o futuro pode ser testado em territórios já exauridos, como em ambientes remotos e áridos no interior do Brasil. A chegada de cientistas estrangeiros a Picuí, trazendo a promessa de erradicar o mosquito por meio do uso de urânio extraído da própria terra, carrega um eco colonial difícil de ignorar. O que se anuncia como solução científica rapidamente se converte em ameaça, e o fracasso do experimento inaugura uma sucessão de eventos estranhos, quase espectrais, que contaminam a narrativa com um clima de desconfiança. A ciência, aqui, não aparece como redenção, mas como força ambígua, capaz de repetir violências sob o disfarce da inovação.
No centro desse cenário instável está Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), cientista nuclear brasileira que se vê compelida a conter os danos de um projeto que escapa ao controle. Sua presença funciona como ponto de tensão entre responsabilidade ética e colapso iminente, entre o saber técnico e a consciência das consequências. A atuação de Faria sustenta esse conflito com sobriedade, evitando cair em alguma espécie de caricatura heróica nessa história.
Melo aposta novamente em situações que flertam com o fantasmagórico e em uma mise-en-scène que parece contaminada pela própria matéria do filme — o urânio, o pó, a terra, o invisível. O sertão surge não como paisagem exótica e a fotografia carregada no tom amarelado sempre bastante acentuado evidencia uma atmosfera de toxicidade, retratando-o como espaço político onde o absurdo se torna método e a ficção científica se mistura ao horror ambiental. O resultado é uma obra que articula sátira, inquietação e crítica social, usando o delírio como linguagem para falar de um país acostumado a experimentar catástrofes como se fossem testes controlados (vide certas atitudes do governo brasileiro em meio a pandemia de Covid-19).
O colapso provocado pelo Aedes aegypti funciona menos como motor narrativo do que como sintoma. A doença, assim como o urânio, circula de maneira invisível, silenciosa e persistente. A chegada dos cientistas estrangeiros reencena uma lógica colonial que utiliza o sertão como zona de sacrifício. O horror em Yellow Cake não se manifesta por monstros ou explosões, mas por uma sensação constante de instabilidade, como se a própria paisagem estivesse contaminada. A catástrofe é difusa, lenta e irreversível.
Tânia Maria, atriz de 79 anos revelada recentemente em O Agente Secreto, se destaca e rouba a cena mais uma vez em uma atuação excêntrica e peculiar, capaz de deslocar o eixo dramático das cenas em que aparece. Sua presença funciona quase como um corpo estranho dentro da narrativa, intensificando o caráter satírico e desconfortável da obra. O elenco também conta com nomes como Valmir do Côco, Severino Dadá, Spencer Callahan e Wolfgang Pannek.
O longa de Melo traz aspectos que dialogam com Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho, em alguns sentidos. Ambos os filmes transformam o interior do Nordeste em palco de uma violência que se apresenta sob a máscara da racionalidade externa, científica, tecnológica ou mercadológica. Em Bacurau, o vilarejo é convertido em campo de caça para estrangeiros que consomem a morte como entretenimento. Em Yellow Cake, Picuí é submetida a uma lógica semelhante: o território torna-se laboratório e seus habitantes variáveis descartáveis de um experimento que promete progresso.
Nos dois casos, a ameaça vem de fora e se instala com naturalidade. Não há uma invasão espetacular, mas consentimento institucional. A violência não é improvisada, é organizada, legitimada, protocolar. Enquanto Kleber Mendonça recorre à fábula política e ao western distópico para encenar a reação coletiva, Tiago Melo opta por um gesto mais corrosivo e pessimista, deslocando o foco da resistência para a impossibilidade de controle. Não há triunfo, apenas contenção tardia. A figura da cientista brasileira não lidera uma insurgência, mas ocupa o lugar trágico de quem compreende o desastre quando ele já se tornou irreversível.
As obras também compartilham uma relação espectral com o espaço. O sertão não é paisagem, mas arquivo e história. Juntos compõem um mapa interessante do cinema brasileiro contemporâneo: um cinema que compreende o Nordeste não como margem, mas como centro nervoso de um país onde o futuro segue sendo testado e frequentemente destruído.
Yellow Cake propõe uma pergunta incômoda: o que acontece quando o progresso deixa de ser promessa e passa a operar como ameaça constante? A resposta não vem em forma de solução, mas de resíduo. Algo permanece no ar, na terra, nos corpos. E não há protocolo capaz de neutralizá-lo.
