Ah Girl | 2026

Ah Girl | 2026

Um drama familiar que surpreende pela resiliência do amor pelas beiradas

A “adultização” compulsória é um fenômeno recorrente quando uma criança não recebe o suporte necessário de seus pais e/ou responsáveis. Prematuramente, muitas infâncias são interrompidas por questões do mundo adulto — preocupações emocionais e financeiras que afastam essas crianças da naturalidade e da espontaneidade que lhes são próprias.

Ah Girl, primeiro longa-metragem da diretora Ang Geck Geck, constrói sua narrativa a partir do ponto de vista da personagem-título, uma menina curiosa de 7 anos que, desde a separação dos pais, vive em um pequeno apartamento com a irmã mais nova, Ah Tian, o pai (James Seah), que trabalha em turnos noturnos, e a avó rabugenta. Nos fins de semana, as meninas se encontram com a mãe (Carrie Wong).

Geck Geck já demonstra um talento notável desde o início de sua carreira. Broken Crayon, seu curta-metragem de estreia, recebeu diversos prêmios e conquistou o troféu de Melhor Curta-Metragem no Singapore Short Film Festival 2013. Em seguida, a diretora realizou mais dois curtas, Little Pigs e Happy Birthday. Little Pigs foi selecionado para exibição no Singapore International Film Festival 2014 e no D’Panda Hong Kong International Film Festival 2015. Com Ah Girl, a cineasta estreia no formato de longa e vence o Prêmio do Júri Jovem no Festival Internacional de Cinema de Roterdã.

Ambientado em Singapura, em 1994, o longa assume contornos de um cinema contemporâneo que flerta com uma linguagem naturalista e crua, remetendo ao estilo de Sean Baker em Projeto Flórida, por exemplo. O filme também dialoga com A Garota Canhota, drama taiwanês igualmente protagonizado por uma criança e produzido por Baker.

A direção de Geck Geck explora o lado social dali, ao nos colocar no eixo dramático de uma família pobre, periférica e marcada por dificuldades; um retrato que contrasta fortemente com o imaginário comum de um país frequentemente visto como um dos principais centros financeiros globais e um dos lugares mais ricos e seguros do mundo.

Conhecida como um verdadeiro caldeirão cultural, Singapura tem o inglês, o mandarim, o malaio e o tâmil como línguas oficiais. Em diálogos entre Ah Girl, Ah Tian e a avó sobre a língua falada nas ruas, o filme apresenta de forma fluida essa noção de nação multiétnica.

Nos fins de semana passados com a jovem mãe, constantemente embriagada e envolvida em relacionamentos instáveis, Ah Girl parece flutuar por uma realidade torturante. A jovem atriz Ong Xuan Jing entrega uma atuação surpreendente e cativante para sua idade, revelando potência e expressividade dramática. O impacto da separação dos pais se manifesta de diversas formas: tanto o pai quanto a mãe vivem se relacionando com novas pessoas, instaurando um clima permanente de instabilidade emocional. O único vínculo afetivo sólido que Ah Girl mantém é com a irmã mais nova, com quem estabelece uma troca sincera e acolhedora, o que contrasta com a negligência e a rejeição vindas dos pais. Quando uma criança passa a se enxergar como um fardo, um novo e doloroso dilema se instala.

Com o tempo, Ah Girl desenvolve uma visão profundamente hostil em relação aos adultos. Em um desabafo com a avó, ela demonstra compreender que os mais velhos mentem, enganam e acabam se tornando egoístas. A menina não sente raiva, mas uma espécie de pena da mãe, incapaz de cuidar das filhas por estar sempre em busca de trabalho e dinheiro. Em um desses encontros entre mãe e filha, surge a pergunta que muda tudo: se Ah Girl gostaria de morar com ela quando conseguisse um apartamento maior. O questionamento abala a forma como a menina compreende o mundo e amplia sua percepção sobre os problemas que atravessam a família.

Apoiada em uma narrativa afetiva e densamente carregada pelo drama familiar, que abraça integralmente o olhar infantil, a diretora singapurense consegue, com notável naturalidade, expressar um ponto de vista que não lhe pertence de maneira extremamente eficaz. Ah Girl revela múltiplas nuances: o desejo de ter um namorado na escola, a vontade de se sentir bonita com seus cabelos longos — cortados à força como castigo — e, ao mesmo tempo, uma impressionante capacidade de reflexão diante dos enormes desafios ao seu redor. O grande trunfo do filme está em mostrar que essa pequena garota é maior do que seus enormes problemas e não se deixa engolir por eles.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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