Conscious | 2026

Conscious | 2026

Um olhar poético sobre a demência

O filósofo francês René Descartes (1596 – 1650) teve seu pensamento sintetizado e imortalizado na afirmação “cogito, ergo sum” (“penso, logo existo”). Com isso, ele fundamenta a existência da subjetividade como única certeza indubitável: somos uma “coisa pensante”. A consciência aparece, assim, como ponto de partida de toda experiência, o que nos possibilita “ler” a realidade. Mas o que acontece quando a mente se fragmenta? Quando a demência dissolve a capacidade humana de organizar o mundo e de reconhecê-lo como experiência própria? Conscious, documentário de Suki Chan, é uma audaciosa investigação dessa doença degenerativa, expondo como a deterioração da mente tensiona a própria ideia de um “eu”.

O neurocientista Anil Seth, personagem-guia do roteiro, vê-se confrontado com seus próprios estudos quando precisa lidar com a demência da mãe, Ann Seth, levado, então, a ressignificar sua forma de tratar o problema, que passa a transitar entre o científico e o espiritual. Vivenciar a subjetividade de uma pessoa amada se apagando gradativamente é uma angústia imensurável, mas é o sentimento que intriga ainda mais o cientista e filho, abrindo espaço para a narração íntima de seus dilemas. Chan, então, entrelaça mais três histórias de mulheres afetadas pela doença: Wendy Mitchell, Pegeen O’Sullivan, e Maureen Winfield.

Wendy Mitchell passou muitos anos convivendo com a enfermidade, mas nunca abandonou sua paixão por escrever. Pelo contrário, passou a compartilhar seu cotidiano através de um blog. Seus depoimentos, quase sempre em voice over, são instigantes e comoventes, pois compartilham em forma de poesia as alterações no modo como ela interpreta a realidade. O medo de se perder diante do que chama de “névoa” sobre a vida, momentos aos quais a mente não mais corresponde ao mundo, é latente em suas falas. Mitchell tem uma estranha e bela consciência de seu processo de adoecimento. Além da angústia, há uma maturidade com relação ao envelhecimento e seu consequente e inevitável “apagamento”.

Mais debilitada, já perto dos 90 anos, Pegeen O’Sullivan parece levar a demência com a mesma delicadeza com a qual trata as pessoas. Em entrevista, seu vizinho relata a figura amável que agora começava a esquecer de fatos recentes. Mas ela está bem, comenta que seus medos foram sumindo à medida em que vivia, como se a inconsciência lhe fosse agora uma dádiva, ou pelo menos uma maneira mais leve de lidar com os problemas de saúde. A sabedoria que o tempo lhe trouxe a faz olhar para o passado com outros olhos. Talvez a memória ganhe novos traços para aqueles que sabem que a estão perdendo.

Por último, Maureen Winfield não sofre de demência, mas perdeu seu marido para ela. Aqui, Suki Chan escolhe ficcionalizar sua narração, tendo Winfield e um ator interpretando situações que ela teria passado com seu marido. São cenas que podem soar fora do tom, mas funcionam como elemento dramatizador. Elas nos levam a outra questão importante sobre o tema: a dor de quem vê a fragmentação identitária de um companheiro. Isso já aparecia nos depoimentos de Anil Seth ao lembrar das primeiras crises de sua mãe, só que em uma medida menor. Aqui, tem-se um olhar mais singelo a partir de alguém que sente a ameaça do tempo também sobre si. Somente a paciência e força descomunais geradas pelo amor são capazes de amparar esse sofrimento. Em que momento alguém deixa de ser si mesma? Para o olhar externo, ainda é ela?

Em Conscious, todas essas histórias se entrelaçam em tom contemplativo, onde a cineasta filma muitas vezes com um aspecto sobrenatural, usando, inclusive, ângulo zenital de drones, como se fosse um observador superior registrando-as. A poesia das palavras se reflete nas imagens e na fluidez da montagem, com panorâmicas lentas e paisagens que se confundem com a anatomia humana. Nunca abordando seus personagens com frontalidade, até mesmo contornando o academicismo do neurocientista, Chan é capaz de dar profundidade às narrações. Sempre paira um ar místico, que é condizente com o mistério da vida, do que é existir em plena consciência. 

Portanto, por mais que a objetividade da neurociência para compreender o mecanismo cerebral e sua relação com a mente consiga avanços significativos sobre a demência, é impossível entender plenamente o funcionamento de uma subjetividade em dissolução. Se para Descartes bastava pensar para comprovar a existência, Conscious é anti-cartesiano ao assumir a identidade como uma construção frágil e enigmática. Certamente, a consciência é um emaranhado de desejos, lembranças, emoções, rótulos, encontros e desencontros. Tudo em um infinito movimento incerto, onde existir já é por si só uma misteriosa beleza.

Nota:

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