Barbara Para Sempre | 2026

Barbara Para Sempre | 2026

Tornar-se eterno deveria ser a ambição de todos nós – e isso é muito menos místico do que parece. Trata-se, na verdade, de um movimento que faz a existência infinita em sentido de intensidade, não de temporalidade. É um gesto de vanguarda política, uma revolta contra mecanismos sociais visíveis e invisíveis que nos boicotam o direito de desejar, de ser. Portanto, há de se valorizar cada pessoa que consegue despedaçar a identidade imposta e simplesmente… ser. E assim fui apresentado ao trabalho de Barbara Hammer, cineasta lésbica que se eternizou: inventou a si mesma e fez de sua existência a criação de outras potências infinitas. Fez da câmera sua arma para vencer o tempo e suas narrativas.

Essa feliz apresentação ficou a cargo do documentário Barbara Para Sempre, dirigido por Brydie O’Connor, estreando em longas-metragens. Com base em imagens de arquivo e a narração da própria Hammer, o filme perpassa a trajetória de mais de 50 anos de carreira da cineasta e como seu trabalho é a afirmação de sua identidade como mulher lésbica no cinema experimental. Aliás, a experimentação é o meio de seu enunciado, pois não havia outra forma de fazer sua arte verdadeira pelas estratégias brancas, masculinas e heteronormativas que imperavam e ainda imperam no cinema, mas que, graças a artistas como Barbara, são desestabilizadas. Seus filmes sobrepõem corpos e texturas, remontam fragmentos do cotidiano feminino recusando a linearidade, falam do amor lésbico puro e ardente à mesma medida, aproximando as imagens da sensação de descoberta de si. 

Distante de fazer um filme meramente biográfico, O’Connor costura seu fio narrativo muito bem entre essa desordem proposital criada por Hammer e seu caos interior na descoberta, ou no que ela mesma chama de nascimento, como homossexual. Seu interesse está em entender como a câmera servia de elemento revelador para a artista, uma espécie de filtro que a fez enxergar com mais clareza a si mesma. Partindo de suas primeiras filmagens, ainda na curiosidade de entender as possibilidades de uma câmera, até o entendimento de que a imagem poderia funcionar como instrumento de autoinscrição nesse mundo que até então lhe parecia tão distante e abstrato.

É quando a obra de Hammer encontra sua força política. Ao tornar visíveis corpos e afetos historicamente excluídos da imagem cinematográfica, ela transforma sua intimidade em memória coletiva. Barbara Para Sempre faz, então, esse percurso pela vida experimentada intensamente através do cinema. O olhar admirado de O’Connor que poderia tornar o documentário enfadonho, pelo contrário, é capaz de suavizar a complexa relação entre a artista e a obra. Seus amores e suas aventuras são retratados como os contornos de sua existência e dão um ritmo fluído ao filme.

O terço final é a parte mais emotiva e que quase subverte a mensagem que a própria cineasta construiu. Enfrentando um câncer terminal, ou, melhor, como diz, vivendo com o câncer, Hammer filma a si mesma com aquela mesma curiosidade com a qual começou a utilizar uma câmera. “Deve-se experimentar a morte como a vida”. Após seu falecimento, O’Connor entrevista Florrie Burke, parceira de 30 anos de Barbara, e suas reminiscências trazem inevitável dor, sentida em seus olhares e silêncios. Mas, logo a saudade se torna força durante a visita aos arquivos e exposições da cineasta, confirmando sua permanência no Tempo. A obra reverbera.

Mesmo sendo este o momento mais “engessado” do documentário, colocando uma personagem em frente a câmera para responder perguntas, em nenhum momento se prejudica o ritmo criado. Na montagem, a cineasta resgata imagens filmadas por Hammer para contextualizar as falas da entrevistada  ou a narração da própria personagem. Utilizando-se de um guia cronológico (do nascimento à morte), O’Connor não se prende a isso e é hábil ao construir rimas narrativas entre o passado e a atualidade.

Quando Hammer diz que seu desejo era que sua arte servisse de ponto de partida para que outras mulheres criassem a partir dali, O’Connor escuta com atenção e responde à altura. Ainda que não trilhe os mesmos caminhos experimentais da imagem, a jovem documentarista faz de seu filme um gesto de reconhecimento a uma artista que sempre soube quais eram os limites impostos por uma indústria historicamente desigual, inclusive em seus espaços mais alternativos, e que, ainda assim, recusou qualquer apagamento. Resistiu e abriu caminhos. Barbara Para Sempre não é mera preservação didática de suas memórias, mas a reverberação de uma luta que segue encontrando novos olhares e novas imagens.

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