Hope: O Primeiro Impacto | 2026
Quando o mistério perde espaço para o espetáculo
Em uma pequena vila sul-coreana chamada Hope Harbor, uma presença misteriosa começa a provocar uma série de episódios de destruição. O chefe de polícia Bum-seok e a agente Sung-ae são encarregados de investigar o que está acontecendo, mas encontram uma ameaça que parece escapar a qualquer tentativa de compreensão. Durante boa parte de Hope: O Primeiro Impacto, o diretor coreano Na Hong-jin mantém seus personagens diante de rastros, relatos e consequências de algo que permanece fora de quadro. Sabemos que existe uma ameaça, mas não sabemos exatamente o que ela é, de onde veio ou quais são suas intenções. O que começa como um mistério de escala local aos poucos assume proporções muito maiores e inesperadas.
Antes de apresentar seus monstros, Hope apresenta o fracasso das instituições diante deles e essa escolha inicial é uma das ideias mais interessantes do filme. A polícia é pequena, despreparada e incapaz de oferecer uma resposta eficiente à população. Em diferentes momentos, os agentes parecem mais preocupados em evitar o confronto do que em proteger os moradores, enquanto civis acabam assumindo riscos que deveriam caber ao Estado. Quando as autoridades finalmente chegam a determinados locais, a violência já aconteceu.
É nesse vazio que os próprios habitantes começam a se organizar, formam grupos armados, procuram maneiras de enfrentar a ameaça por conta própria e chegam a descobrir informações sobre os monstros antes da polícia. A origem das armas utilizadas pela população permanece incerta até mesmo para o chefe policial, reforçando a sensação de que aquela comunidade está operando à margem de qualquer estrutura institucional capaz de protegê-la.
Essa transformação das pessoas em uma força armada poderia render uma discussão política bastante contundente. Hope, porém, oscila entre a crítica à ausência do Estado e uma espécie de fascínio pelas próprias armas. Rifles, munições e equipamentos passam a ocupar a tela com uma importância que ultrapassa sua função narrativa. A maneira como são apresentados, manuseados e utilizados nas sequências de confronto produz uma fetichização armamentista que enfraquece parte da crítica inicial. A arma deixa de ser apenas o instrumento de uma comunidade abandonada e passa a ser também um objeto de admiração visual.
A contradição é interessante. De um lado, o filme mostra uma população que precisa se armar porque não confia mais na capacidade das instituições de protegê-la. De outro, transforma essa autodefesa em espetáculo, valorizando a potência e a eficiência do armamento nas cenas de ação. A formação de milícias poderia ser um comentário sobre o medo e a militarização da vida cotidiana, mas frequentemente acaba funcionando como combustível para a própria coreografia do filme.
Há ainda um subtexto geopolítico promissor. A ameaça parece inicialmente associada a uma possível origem norte-coreana, acrescentando à narrativa o peso histórico da divisão da península. A presença de um inimigo estrangeiro em uma comunidade sul-coreana poderia ampliar a discussão sobre território, paranoia e segurança nacional, mas o filme prefere concentrar sua atenção na reação imediata dos personagens.
Essa dimensão também aparece na própria composição do elenco. Hope reúne atores sul-coreanos e ocidentais, colocando lado a lado Hwang Jung-min, Zo In-sung e Hoyeon, com Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell e Cameron Britton. A presença de intérpretes de diferentes nacionalidades amplia a escala internacional do projeto e reforça a sensação de que aquela ameaça ultrapassa as fronteiras da pequena comunidade.
O fato de os seres responsáveis pela destruição serem interpretados por atores europeus é particularmente significativo. Em vez de reproduzir uma ameaça construída a partir de um imaginário orientalizado, Na Hong-jin coloca corpos estrangeiros no centro da invasão de uma comunidade sul-coreana. A escolha pode ser lida como parte da perspectiva decolonial do filme, sobretudo em uma história na qual uma população local precisa lidar com uma ameaça externa enquanto as instituições responsáveis por sua proteção se mostram incapazes de reagir.
Quando os monstros finalmente deixam de ser uma presença invisível e passam a ocupar o centro da narrativa, Hope muda de registro. A atmosfera de mistério dá lugar a perseguições, tiroteios e explosões, e aquilo que parecia uma investigação sobre medo, poder e abandono institucional passa a funcionar principalmente como cinema de ação. A mudança não seria necessariamente um problema. Na Hong-jin sabe filmar esse tipo de sequência com enorme domínio técnico, explorando enquadramentos inusitados, movimentos de câmera precisos e diferentes pontos de vista.
O problema está na maneira como algumas situações são prolongadas. Um personagem entra em perigo, alguém aparece no último momento para salvá-lo, o monstro parece derrotado e retorna pouco depois. A fórmula reaparece tantas vezes que o risco perde parte da força. A primeira hora enfrenta uma dificuldade semelhante: o suspense baseado na ausência de informações funciona inicialmente, mas demora a ganhar novas camadas, fazendo com que a espera pela revelação se torne mais cansativa do que intrigante.
Quando os monstros assumem uma presença mais concreta, a narrativa se aproxima de um blockbuster de ficção científica, com criaturas que se assemelham a personagens de Avatar (2009), Alien, o 8.º Passageiro (1979), ou até mesmo de animações japonesas como Attack On Titan (2013). Há algo quase caricatural nessa transformação, como se Na Hong-jin estivesse brincando com os códigos de filmes hollywoodianos de invasão, criaturas e catástrofes. Só que a sátira nem sempre se sustenta porque o filme também parece genuinamente interessado em entregar esse espetáculo, bastante atrelado a comédia. A fronteira entre paródia e adesão ao modelo que está sendo parodiado fica cada vez mais difícil de identificar.
É uma pena, porque o filme demonstra um domínio visual considerável. Na Hong-jin filma corpos, espaços e movimentos com precisão e encontra ângulos que renovam cenas que em mãos menos habilidosas seriam banais. Há uma compreensão clara da geografia da ação e uma disposição para experimentar diferentes pontos de vista. Em certos momentos, porém, o virtuosismo parece se tornar um fim em si mesmo, chamando atenção para a execução quando a narrativa já não oferece a mesma força.
A conclusão provoca outro tipo de estranhamento. Depois de manter as criaturas à distância durante grande parte da narrativa, o filme finalmente oferece um breve acesso à sua perspectiva. Os monstros conversam em uma língua própria e, pela primeira vez, temos contato com uma dimensão que até então permanecia completamente inacessível. É uma mudança interessante, mas acontece tarde demais e termina abruptamente, funcionando mais como preparação para uma provável continuação do que como conclusão da história apresentada.
Com isso, algumas das questões levantadas no início perdem espaço. A falência das instituições, a formação de milícias, a militarização da comunidade e a presença de um inimigo estrangeiro sugeriam um filme interessado em discutir medo, território e poder. A própria fetichização das armas poderia ter sido incorporada a essa reflexão, questionando por que a violência armada se torna tão rapidamente uma resposta desejável diante da sensação de abandono. Em vez disso, o armamento frequentemente funciona apenas como parte da estética das sequências de ação.
Hope é uma obra irregular, que se perde no meio do caminho de suas próprias boas ideias ao privilegiar o excesso em detrimento de uma maior robustez narrativa. Ainda assim, é um filme curioso, que começa mais interessado em investigar o medo do que simplesmente em representá-lo.
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