Literalmente Nu | 2026
Quando a pornografia é normalizada, a intimidade vira tabu
Para uma geração que cresceu com acesso praticamente ilimitado à pornografia, o problema já não está apenas na quantidade de imagens disponíveis, mas no espaço que elas ocupam na formação do desejo. O que acontece quando alguém aprende a reconhecer o sexo antes de aprender a se relacionar? É a partir dessa contradição que Muriel d’Ansembourg constrói Literalmente Nu (Truly Naked, 2026), um coming-of-age que desloca a discussão sobre pornografia do campo moral para uma questão mais incômoda: que tipo de educação sexual uma cultura baseada em imagens realmente oferece?
Alec (Caolán O’Gorman) trabalha com o pai, Dylan (Andrew Howard), em uma pequena produção de pornografia caseira. Ele filma e edita enquanto o pai atua e produz. A atividade não é apresentada como um segredo familiar ou como uma transgressão, mas como parte da rotina. Essa naturalização é importante porque impede que o filme transforme a pornografia em um elemento externo que invade a vida do protagonista. Ela está no próprio habitat em que Alec cresceu.
O jovem, no entanto, parece menos confortável com o sexo do que o ambiente ao seu redor faria supor. Sua experiência é marcada pela observação, pelo constrangimento e pela dificuldade de compreender o que fazer quando o desejo deixa de ser uma imagem e passa a envolver uma pessoa real, de carne e osso, com todas as complexidades humanas à sua frente. Quando ele se aproxima de Nina (Safiya Benaddi), uma colega de classe independente e de personalidade forte, a distância entre saber sobre sexo e saber se relacionar se torna evidente.
Os dois trabalham juntos em uma pesquisa sobre vício em pornografia e desenvolvem uma atração que Alec não sabe administrar. Nina não é simplesmente o interesse amoroso responsável por ajudá-lo a amadurecer. Ela representa uma pessoa que possui seus próprios desejos, limites e expectativas, justamente aquilo que não aparece com facilidade nas imagens pornográficas que serviram de referência para ele.
Em Literalmente Nu a direção evidencia como a pornografia pode ensinar sobre como o sexo é representado, mas não necessariamente como duas pessoas negociam o desejo. Não mostra o que fazer diante de uma recusa, como expressar insegurança ou como perceber que o prazer do outro não está subordinado ao próprio. Alec conhece uma linguagem visual do sexo, mas não possui repertório emocional equivalente.
d’Ansembourg já havia investigado a indústria pornográfica no curta Fuck-a-Fan, exibido no Tribeca Film Festival em 2024, a partir de uma perspectiva feminina. Em Truly Naked, essa discussão se amplia para os efeitos dessa cultura sobre quem ainda está descobrindo o próprio desejo. A conexão entre os dois trabalhos também passa pela atriz pornô Alessa Savage, que retorna no longa em um papel importante. Ela interpreta Lizzie, principal parceira sexual de Dylan nas filmagens, sem transformar a personagem em uma caricatura da atriz pornô. Lizzie conhece as dificuldades e os limites daquele trabalho, mas não é definida por eles. Consciente das contradições da indústria, ela demonstra autonomia e experiência sem que o filme precise apresentá-la como uma figura idealizada. Sua presença ganha outra função quando se aproxima de Nina, oferecendo à jovem uma referência feminina mais madura para lidar com sexo, trabalho e desejo. A personagem amplia, assim, a discussão do filme ao mostrar que a experiência sexual não produz necessariamente o mesmo aprendizado para homens e mulheres, sobretudo quando cada um ocupa posições tão diferentes dentro da indústria.
É também nesse ponto que o longa constrói uma crítica bastante precisa à masculinidade. Alec não é o jovem agressivo, conquistador ou predatório que costuma ocupar as narrativas sobre masculinidade tóxica. Ele é justamente o contrário: inseguro, retraído e pouco preparado para situações em que não existe uma resposta pronta.
Sua dificuldade, porém, não significa que esteja fora dos padrões masculinos que aprendeu. Alec foi criado diante de imagens nas quais o homem costuma conduzir a situação sexual e demonstrar segurança. Ao mesmo tempo, ele não recebeu instrumentos para lidar com a parte menos visível das relações, como medo, rejeição, frustração ou dúvida.
Essa contradição aparece com força na relação com Dylan. O pai não é um vilão, e o filme acerta ao não transformá-lo em uma caricatura do homem que corrompe o filho. Dylan trabalha arduamente, sustenta a casa e acredita estar oferecendo a Alec uma oportunidade de independência. Seu problema está em outra parte: ele parece muito mais confortável falando sobre sexo do que falando sobre sentimentos.
A relação entre os dois expõe uma dificuldade comum a determinado modelo de masculinidade, no qual a segurança substitui a conversa e a experiência sexual é tratada como prova de maturidade. Dylan sabe trabalhar com corpos, mas não sabe necessariamente conversar com o filho sobre aquilo que ele sente. Alec aprende, assim, que sexo pode ser um assunto banal, enquanto vulnerabilidade continua sendo um assunto difícil.
O filme não propõe que a solução seja abandonar a pornografia. A questão é mais específica. Alec precisa deixar de medir sua própria masculinidade pela experiência sexual que acredita precisar adquirir. Não basta ser desejado, saber o que fazer ou corresponder a uma determinada imagem masculina. Ele precisa aceitar que uma relação envolve outra pessoa, e que essa pessoa pode discordar, recusar, desejar algo diferente ou simplesmente não reagir como ele esperava.
Nina é importante justamente porque não facilita esse aprendizado. Ela não se adapta às expectativas de Alec e não aceita ser tratada como uma personagem dentro de uma fantasia construída por ele. A atração entre os dois só pode avançar quando ele começa a prestar atenção nela como indivíduo, e não como uma representação daquilo que aprendeu sobre mulheres.
Nesse sentido, o romance é também uma crítica à forma como determinados homens são ensinados a interpretar o desejo feminino. Alec estava acostumado a observar muitos corpos, mas precisa aprender a reconhecer uma mulher específica diante dele. Parece uma diferença simples, mas é justamente aí que a experiência sexual deixa de ser consumo e passa a exigir responsabilidade.
Quando a relação entre pai e filho explode, a discussão deixa de ser apenas sobre pornografia e revela ressentimentos acumulados. Em outro momento, a tentativa de Dylan de ampliar os limites do conteúdo produzido para atender às expectativas do público expõe uma dimensão mais perturbadora da indústria. O que estava normalizado dentro daquela casa ganha outra dimensão quando se percebe até onde pode chegar a lógica do consumo.
A direção de d’Ansembourg evita transformar essa discussão em um discurso ilustrativo. A fotografia de Myrthe Mosterman, com câmera na mão, luz natural e uma paleta desaturada, acompanha a insegurança do protagonista sem estilizá-la excessivamente. Os momentos entre Alec e Nina ganham outra textura, uma iluminação mais íntima, baixa e em tons quentes, enquanto as paisagens interioranas inglesas funcionam como espaços nos quais os personagens parecem tentar descobrir o que fazer um com o outro.
Literalmente Nu não transforma a intimidade em uma alternativa idealizada à pornografia. O sexo fora das câmeras continua envolvendo constrangimento, insegurança, expectativas frustradas e dificuldade de comunicação. A diferença é que essas experiências não podem ser completamente planejadas. É preciso conversar e reagir ao que está acontecendo. A verdadeira questão do filme, portanto, não é se Alec deve ou não consumir pornografia; é se ele conseguirá construir uma relação que não dependa dos modelos que recebeu dela.
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Esse filme foi assistido durante a cobertura da 28ª edição do Festival do Rio, confira mais aqui
