Enzo | 2026

Enzo | 2026

O “pobre assistente de pedreiro rico”  

A adolescência é um período especialmente complexo e que carrega, quase sempre, inúmeras incertezas e dúvidas. Em Enzo, filme dirigido por Robin Campillo e tendo como um dos seus produtores o francês Jacques Audiard, este período é retratado a partir do personagem-título, um garoto que, morando junto aos pais e irmão em uma mansão na França e desfrutando dos privilégios ínsitos à condição financeira da família, toma uma decisão incomum: decide trabalhar em um canteiro de obras como auxiliar de pedreiro, mesmo não possuindo aptidão para tal.

Esta premissa é, por si só, interessante e poderosa. Enzo se coloca como alguém que destoa daquela “tradição familiar”: enquanto o pai é professor, o irmão acaba de ser aprovado em prestigiosa universidade e a mãe recebe excelente salário, ele se coloca como “lento”, de “ambições pequenas”, alguém que não se adaptou ao modelo de ensino tradicional e largou a escola. Por não saber quais rumos seguir, decide caminhar por um que trará desconforto aos que o cercam.

Mesmo que os pais, Paolo e Marion (muito bem interpretados por Pierfrancesco Favino e Élodie Bouchez, respectivamente), amorosos e permissivos, não contestem incisivamente a escolha, é claro o incômodo que paira (sobretudo no pai); mas também há de se mencionar o certo desconforto dos colegas de canteiro de obras. O chefe visita sua casa e a surpresa acerca da realidade financeira do subordinado é visível; Vlad (Maksym Slivinskyi), pedreiro ucraniano e colega de trabalho, por vezes busca as justificativas pelas quais aquela vida tranquila era desprezada em prol de um trabalho difícil e mal remunerado.

Nesta vida sem grandes motivações e alicerçado no conforto que usufrui, surge uma faísca que vai perturbar aquela ordem. Enzo passa a interagir mais Vlad, e uma tensão sexual vai sendo construída, mesmo que este personagem, ao menos a priori, afirme a posição da masculinidade viril: seja pelos músculos e pela aptidão ao trabalho braçal, seja por compartilhar fotos e vídeos das mulheres com quem se relaciona.

Embora o desejo de Enzo vá paulatinamente crescendo, há uma indicação clara de que Vlad, compreendendo aquela dinâmica e, de certa forma, alimentando as expectativas do garoto, nunca as concretizaria.

O personagem principal é extremamente mimado e, ainda que esteja cercado de pessoas transigentes, opta por ser indelicado e causar mal-estar e sofrimento principalmente à família, como na cena em que abruptamente empunha uma arma de fogo no meio da festa de comemoração da aprovação do irmão na universidade, ameaçando convidados e estragando a celebração sem nenhuma razão aparente; além de brigas, decorrentes de sua imaturidade, com o próprio Vlad.

Campillo parte de premissa inicial alvissareira, que poderia percorrer diversos caminhos interessantes, mas que parece sabotada pelo próprio personagem principal. Enzo e seus comportamentos são, em sua maioria, repugnantes, não fazendo o espectador se conectar verdadeiramente com suas motivações para dedicar-se ao trabalho na obra ou com suas questões amorosas, causando mais irritação do que compaixão àquela rebeldia petulante.

É desta forma que temas que envolvem a orientação sexual do protagonista, a guerra da Ucrânia, os trabalhadores imigrantes, as disparidades econômicas na França e a complexidade em “se achar no mundo” são açodadamente desenvolvidos ou, ao menos, desenvolvidos de forma esvaziada, sem o peso necessário para fazer com que o filme alcançasse outro patamar, que talvez pudesse ser atingido a partir de sua premissa que, como já dito, é bastante interessante.

Nota

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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